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A síndrome do maratonista impostor – 08/06/2026 – No Corre

Correr maratonas é um fetiche, e essa prova ganhou um estatuto especialíssimo.

Digo aqui uma redundância, mas quem a pratica, mesmo uma única vez, torna-se maratonista, palavra a ser vocalizada com esmero, as sílabas bem escandidas: ma-ra-to-nis-ta.

Estou em outra, mas ainda assim sou acometido por uma certa síndrome do impostor quando a correr os 42 km, algo que fiz pouco, 13 vezes, dados meus muitos anos de cascalho.

Importo o conceito de síndrome do impostor da psicanálise corporativa, na qual profissionais consideram-se incompetentes para um cargo de liderança, mesmo quando a “performar”.

Na maratona eu não observo o cânone, o “ciclo”, o processo de preparação de em geral quatro meses que todo educador físico impinge ao candidato a ma-ra-to-nis-ta. Parece que estou sempre a desrespeitar a coisa.

Creio ter um ponto: diversas dessas minhas 13 maratonas não foram corridas de fio a pavio, houve momentos lá na altura da terceira hora em que caminhei.

Não há nada nos regulamentos que proíba alguém de andar numa corrida, mas isso é um desvirtuamento, um claro desvio de finalidade.

Neste domingo (7), na mara in Rio, a história foi um pouco diferente: corri 100% do tempo. Mantive o ritmo costumeiro desde a largada, na Reserva, onde Judas perdeu o Adizero, até Botafogo, mas o advento da placa de 33 km começou a disparar alertas para o “mental”.

Seria hora de dar aquelas caminhadinhas, como eu fiz abusivamente na mara de Calgary, no Canadá, havia apenas dois domingos, mesmo sem dores, câimbras ou qualquer outro impedimento físico?

No Rio, os quilômetros que passavam, especialmente os ímpares, pareciam-me talhados para uma paradinha, ainda mais sendo o contínuo Botafogo-Aterro uma reta interminável, sem distrações, a despeito do mais lindo cenário urbano talvez do mundo que ululava de brinde.

E, principalmente, a despeito da plateia. O Rio estava nas ruas, apesar do frio polar no domingo para o carioca, e não eram poucos os que diziam à nossa passagem: “Você já é ma-ra-to-nis-ta”.

O treinador Marcos Paulo Reis já me disse ser contrário a sexo na véspera da maratona, para não gerar “sobrecarga fisiológica adicional”; não sei o que ele diria do meu sábado no Rio, que não teve visita à Baixa Copacabana, é verdade, mas consumo de meio litro de IPA à guisa de almoço e, depois, quase isso de saquê no espetacular Mitsubá, cortesia do sócio Homero Cassiano e do meu parça Bruno Agostini.

Não fosse o publicitário recifense Anselmo Albuquerque, que conheci no saguão do hotel em que estávamos na Barra e gentilmente bancou o Uber até a largada, e este relato talvez não existisse. Quando alinhávamos para a última onda de largada, às 6h35, quis saber que suplemento eu usaria ao longo da prova.

Admirou-se com a resposta: isotônico, caso fosse oferecido pela organização.

A corrida cresce explosivamente no Brasil, e muitos dos novos entrantes não demoram a virar ma-ra-to-nis-tas. Anselmo, por exemplo, começou a correr em 2017, já tem duas majors, Berlim e Nova York no currículo, e fez a mara do Rio por duas vezes.

Há de fato um desafio físico na maratona, e assim não surpreende que ela seja tratada como um três-estrelas Michelin, um bordalês de tiragem exclusiva, um feito para causar comoção no inner circle.


O colunista viajou ao Rio a convite da Gol Linhas Aéreas


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Autor: Folha

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