Mais de 8,7 mil prisões em 10 países da América do Sul e da América Central, 56 toneladas de drogas destruídas e 3,3 mil armas de fogo apreendidas foram o saldo da operação Orca XI. Considerada como inédita, a ação coordenada pela Interpol e a Organização dos Estados Americanos (OEA) com financiamento da União Europeia na América Latina resultou em uma das maiores cooperações internacionais da história. E tem potencial de servir como modelo para o futuro do combate às facções e grupos criminosos internacionais no geral.
A ação acontece no contexto de uma força-tarefa da Interpol com a participação de polícias de diversos países liderada e financiada pelo Brasil e sediada em Buenos Aires, para combater o crime transnacional. A força-tarefa surge como a tentativa de coordenação estruturada mais ambiciosa já colocada em prática na região para combater o fortalecimento dos grupos criminosos e suas parcerias transnacionais, com rotas de tráfico de drogas que conectam os países produtores ao mercado consumidor europeu, asiático e africano, utilizando o território brasileiro como principal corredor logístico para exportação das drogas, principalmente a cocaína.
E há um aspecto complementar: a operação Orca XI aconteceu entre 15 de outubro e 30 de novembro de 2025, mas seus resultados só foram divulgados agora pela Interpol. As autoridades envolvidas informaram um total de “8.701 prisões relacionadas à posse ou ao tráfico de armas de fogo e drogas, bem como a outros crimes”, além da apreensão de “cerca de 200 mil cartuchos de munição, US$ 256 mil em dinheiro e 210 veículos”, afirma o comunicado oficial da entidade.
Em dez países participantes, foram apreendidos 6,9 toneladas de cocaína, 659.403 plantas de coca, 9,3 toneladas de pasta base de cocaína, 38,5 toneladas de maconha, 2 toneladas de metanfetamina e 11 quilos de cetamina.
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“O tráfico de armas de fogo na região está intimamente ligado a outras formas de atividade criminosa, incluindo o tráfico de drogas, o tráfico de pessoas, o contrabando de migrantes e o cibercrime. As organizações criminosas por trás desses crimes costumam utilizar as mesmas rotas para múltiplas mercadorias ilícitas”, afirma o comunicado da polícia internacional, que destaca que a operação Orca XI colocou em evidência essa conexão.
Pela primeira vez na história, a Interpol é chefiada por um brasileiro, o delegado da Polícia Federal (PF) Valdecy Urquiza. A gestão dele tem focado em descentralizar as ações da Interpol, com foco no “sul global”, onde o tráfico de drogas e armas alimenta índices alarmantes de violência urbana.
“As milhares de armas de fogo retiradas de circulação graças à operação Orca XI e as quantidades significativas de drogas apreendidas representam um avanço real contra o crime organizado”, afirma o chefe da organização internacional, após a operação. “A Interpol vai continuar apoiando os órgãos de aplicação da lei com a inteligência, as ferramentas e a coordenação de que precisam para antecipar essas ameaças em evolução”, diz.
“É isso que se consegue quando se combinam a coordenação hemisférica e uma capacidade técnica e operacional de primeiro nível: milhares de armas de fogo retiradas das ruas, drogas apreendidas e comunidades mais seguras”, afirma Albert Ramdin, secretário-geral da OEA sobre a operação.
“A operação Orca XI demonstra que a cooperação internacional e o intercâmbio de informações trazem resultados, e nossos marcos de segurança devem continuar a responder. A OEA está pronta para continuar acompanhando os Estados-membros ao lado de parceiros como a Interpol”, acrescenta ele.
Na Colômbia, em dos casos investigados as autoridades prenderam 22 indivíduos como parte de uma investigação sobre financiamento do terrorismo e tráfico de armas. Os suspeitos enfrentam acusações que incluem fabricação, tráfico e posse de armas, munições restritas e explosivos.
Eles também foram acusados de crimes ligados ao financiamento do terrorismo, demonstrando como o combate a armas de fogo ilícitas pode servir como ponto de partida para enfrentar uma série de crimes graves. No Brasil, as autoridades apreenderam dois fuzis, uma submetralhadora, duas pistolas, uma granada, drogas ilícitas, munições, equipamentos de comunicação e cadernos contendo registros de tráfico de drogas — as investigações continuam.
No Panamá, as autoridades prenderam um homem e uma mulher envolvidos no contrabando de armas de fogo e componentes. Durante a prisão, os investigadores encontraram um fuzil de estilo militar dentro de um veículo. Os suspeitos estavam envolvidos em uma operação organizada de tráfico de armas que explorava os sistemas de correios e de entregas para transportar armas de fogo proibidas através das fronteiras.
E no Chile, em uma das investigações relacionadas, a operação resultou na prisão de três indivíduos, na apreensão de 580 quilos de drogas ilícitas — o equivalente a 3,5 milhões de doses, avaliadas em aproximadamente US$ 5,6 milhões — e na recuperação de nove armas de fogo. As autoridades também bloquearam 11 contas bancárias ligadas à lavagem de dinheiro. A operação teve como alvo uma rede criminosa que transportava drogas do norte do Chile para os mercados da região central.
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Antes da operação Orca XI, a Interpol só havia ajudado a preparar algo tão grande em 2020, em parceria com a Europol. Na ocasião, mais de 6,5 mil pessoas foram presas, além da apreensão de 30,5 milhões de comprimidos de drogas químicas; 103,5 toneladas de cocaína; 163,4 toneladas de maconha; 3,3 toneladas de heroína e 900 milhões de euros, segundo um balanço divulgado pela Europol em junho de 2023.
Na mesma ação, as autoridades apreenderam 971 veículos, 83 barcos, 40 aviões, 271 propriedades ou casas, 923 armas, bem como 21.750 cartuchos de munições e 68 explosivos.
A maior cooperação internacional é apontada por especialistas e autoridades como um dos melhores caminhos para combater o crime organizado cada vez mais transnacional. Desde o final de 2014, a PF assinou pelo menos seis acordos para o estreitamento na cooperação policial internacional contra o tráfico de drogas e os grupos criminosos transnacionais — com as polícias federais do Paraguai, Angola, Nigéria, Itália, França e União Europeia (neste caso, com a Europol).
No ano passado, o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) — uma das instituições na liha de frente de combate ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e a Procuradoria Nacional Antimáfia e Antiterrorismo da Itália (DNA) formalizaram um acordo de cooperação técnica para o compartilhamento de dados e informações, intercâmbio de experiências e capacitação de membros e funcionários, com o objetivo de prevenir e reprimir organizações criminosas. A iniciativa é considerada como inédita.
Autor: Gazeta do Povo








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