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G7 realiza cúpula com seu status ameaçado

O G7, o grupo das sete economias mais desenvolvidas do mundo (formado por Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido), inicia nesta segunda-feira (15) sua cúpula de 2026 na cidade francesa de Évian-les-Bains, com a relevância do bloco ameaçada pelas divergências entre os EUA e os outros integrantes do grupo e pela ascensão das chamadas “potências médias”.

Desde que voltou à Casa Branca, em janeiro de 2025, o presidente americano, Donald Trump, vem ampliando as disputas tarifárias com a Europa, tensões que são amplificadas pelas punições de órgãos da União Europeia a big techs americanas e o desejo do mandatário republicano de anexar a Groenlândia, território dinamarquês, com ameaças de sobretaxar países europeus que se opõem à ideia, entre eles, França, Alemanha e Reino Unido, integrantes do G7.

Embora o grupo dos sete seja um bloco com foco econômico, as divergências se espalham para temas geopolíticos, como as críticas de Trump aos outros integrantes da Otan e ao Japão por não ajudarem Washington na guerra contra o Irã.

Em artigo publicado na semana passada, o colunista Gilles Paris, do jornal Le Monde, comparou o atual momento do G7 com a cúpula realizada no Canadá em 2018, segundo ano da primeira gestão Trump. Na ocasião, o presidente americano ficou emburrado diante dos outros líderes do G7 e depois retirou o apoio dos EUA à declaração final da cúpula.

“Em 2018, a disputa girava em torno de tarifas; desde então, ela se aprofundou muito. A ruptura entre os EUA e os demais membros do G7 agora se estende a quase todas as questões que deveriam uni-los”, escreveu Paris, citando temas de divergência como o comércio internacional e a política energética – Trump tem retirado o financiamento a projetos de energia renovável e apoiado o setor de combustíveis fósseis.

Em entrevista à Gazeta do Povo, Ricardo Caichiolo, professor de relações internacionais e diretor do Ibmec Brasília, disse que não acredita que o G7 esteja “obsoleto”, mas destacou que o grupo atravessa “uma paralisia funcional crônica”.

“À perda histórica de representatividade econômica global, soma-se agora uma fragmentação interna severa. A cúpula na França deixa isso evidente: de um lado, as novas tarifas protecionistas dos EUA atingem diretamente os próprios aliados; de outro, as regulações europeias contra as big techs americanas abrem uma guerra comercial e tecnológica dentro do bloco, esvaziando seu propósito cooperativo”, afirmou o especialista.

“Para recuperar relevância, o G7 precisaria abandonar a pretensão de governança econômica unilateral e buscar ser um bloco coeso de diálogo sobre questões econômicas e tecnológicas, em especial sobre Inteligência Artificial”, disse Caichiolo.

Potências médias, convidadas para a cúpula do G7, são complemento ou contraponto?

Potências médias, como Brasil e Índia, foram novamente convidadas para a cúpula do G7, e o premiê do Canadá (membro do grupo dos sete), Mark Carney, disse no Fórum Econômico Mundial no início do ano que países nesse patamar econômico precisam se unir caso não queiram, “ao invés de se sentar à mesa, aparecer no cardápio”.

A questão é se essas potências médias podem complementar o G7 ou serem um contraponto ao grupo.

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“Os Estados que nunca foram totalmente acomodados pela antiga ordem agora têm o peso necessário para exigir um papel maior na definição do que virá a seguir”, afirmou Robert Muggah, fundador do Instituto Igarapé, em artigo para o Fórum Econômico Mundial.

Por sua vez, em artigo para a revista americana The Diplomat, Swaran Singh, professor da Escola de Estudos Internacionais da Universidade Jawaharlal Nehru, de Nova Délhi, argumentou que o grupo dos sete, por não ter mais o mesmo peso econômico de outrora, convida potências médias para participação nas suas cúpulas como um esforço de adaptação.

“Na primeira cúpula em Rambouillet, em 1975, essas nações [do G7] detinham aproximadamente 70% do PIB global. Hoje, o G7 gera cerca de 43% do PIB mundial em dólares correntes, mas menos de 28% em termos de paridade do poder de compra. Da mesma forma, a participação do G7 na população mundial, que era de 15% em 1975, diminuiu para menos de 10%”, escreveu Singh.

Apesar do desejo da China e da Rússia de transformar os Brics num antagonista do G7, o bloco das economias emergentes tem suas próprias divergências internas a resolver, como ficou explicitado na cúpula de ministros das Relações Exteriores realizada em maio na Índia, que terminou sem uma posição comum sobre a guerra no Irã devido às divergências entre o país persa e os Emirados Árabes, integrantes novatos dos Brics.

“Embora a obsolescência manifesta do G7 seja inegável, seu desaparecimento permanece improvável, até porque nada parece capaz de substituí-lo. A impotência dos Brics, bloco formado como resposta do Sul Global ao G7, comprova essa tese”, afirmou Gilles Paris no seu artigo.

Ricardo Caichiolo disse à Gazeta que Brasil e Índia funcionam “como complemento prático” do G7 em pautas globais, “mas também como contraponto estratégico na governança geopolítica”.

“O convite a Brasil e Índia reflete justamente a necessidade do G7 de buscar legitimidade em temas como transição energética e cadeias de suprimentos, áreas em que o Ocidente já não decide sozinho”, afirmou o analista.

“Ao mesmo tempo, ao liderarem o Sul Global e defenderem a reforma das instituições financeiras internacionais sem aderir automaticamente aos alinhamentos de Washington ou Bruxelas, esses países atuam como contrapeso, buscando despolarizar o cenário internacional em seu próprio benefício”, concluiu Caichiolo.

Autor: Gazeta do Povo

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