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Surto de ebola escancara a injustiça global na saúde – 19/06/2026 – Equilíbrio e Saúde

“Foi de partir o coração ver o que estava acontecendo na [RDC] República Democrática do Congo e, ao mesmo tempo, ver quantos recursos podem ser mobilizados para trazer um único paciente da RDC à Alemanha.”

O depoimento é de Thomas Cronen, médico sênior no hospital universitário Charité, em Berlim. Ele é especialista em doenças infecciosas em terapia intensiva e falou à DW de Nairóbi, no Quênia, onde participava de um intercâmbio de informações sobre o tratamento do ebola com 50 profissionais de saúde dos oito Estados-membros da Comunidade da África Oriental.

O paciente transferido em questão é o médico americano Peter Stafford, que foi contaminado durante uma missão humanitária para tratar pessoas com ebola na RDC. Ele foi internado no Charité após ser evacuado do país em meados de maio.

À época, o governo de Donald Trump argumentou que a Alemanha estava mais próxima do que os Estados Unidos. Especula-se, contudo, que a Casa Branca tenha recusado a entrada de Stafford no país. O secretário de Estado, Marco Rubio, reforçou a suspeita dias depois, ao prometer manter todos os casos de ebola fora dos EUA.

Em Berlim, Stafford recebeu um tratamento experimental, o chamado MBP-134, que ainda está em ensaios clínicos e não foi aprovado para uso humano.

Ao contrário do que sugeriram algumas reportagens, o uso desse remédio não é exclusividade dos hospitais europeus.

Em uma reunião de emergência em 15 de maio de 2026 — antes da evacuação de Stafford —, a OMS (Organização Mundial da Saúde) e os Centros Africanos de Controle e Prevenção de Doenças decidiram priorizar dois medicamentos para tratamento experimental de ebola na RDC, sendo um deles o MBP-134.

O que é o MBP-134?

O MBP-134 é uma combinação de dois anticorpos obtidos de um sobrevivente de um surto de ebola na África Ocidental iniciado em 2013.

O medicamento usa versões sintéticas desses anticorpos naturais, os chamados anticorpos monoclonais (ou mAbs, na sigla em inglês).

Os anticorpos monoclonais existem desde a década de 1980. O primeiro foi aprovado como medicamento para prevenir a rejeição em transplantes renais. No entanto, foi apenas nos últimos dez anos que seu uso se expandiu, passando de 30 mAbs aprovados em 2014 para cerca de 144 em 2025.

Um dos usos mais notórios desses anticorpos é o lecanemabe, medicamento indicado para Alzheimer. Os mAbs oferecem uma série de novos tratamentos na medicina, mas sua disseminação ainda enfrenta desafios, sobretudo em lugares de estrutura precária.

Em estudos de laboratório, o MBP-134 foi testado em furões e macacos cinomolgos, que sobreviveram a infecções por diferentes vírus causadores de ebola, incluindo o Bundibugyo, responsável pelo surto na RDC em 2026. O medicamento também foi testado em humanos.

Portanto, o MBP-134 já era considerado promissor. Mas o acesso a anticorpos monoclonais na África é limitado.

“É preciso mais do que um medicamento”, afirmou Maximilian Gertler, experiente epidemiologista e especialista em medicina tropical e emergência. Assim como Thomas Cronen, ele é médico do Charité e falou à DW de Nairóbi.

“Esses medicamentos exigem um certo nível de cuidados clínicos, um ambiente onde possam ser armazenados, onde possam ser administrados corretamente aos pacientes e onde seja possível monitorar seu uso”, disse.

O outro medicamento considerado adequado para testes para conter o surto de ebola na RDC foi o remdesivir. O antiviral foi originalmente desenvolvido como potencial tratamento para hepatite C e acabou sendo usado também contra a Covid.

Desigualdade evidente

O quadro atual é de injustiça na saúde pública global, com uma desigualdade gritante de condições entre os hospitais europeus e os da África Oriental, afirmou Cronen.

Mesmo entre os países da região, os padrões variam muito. Ruanda, por exemplo, dispõe de “um nível de atendimento mais elevado” em comparação com o Sudão do Sul, observou o especialista.

“É evidente. Mas, ao observar outras doenças [além do ebola], essa injustiça também aparece. Se olharmos quanto investimos em oncologia, hematologia, o que conseguimos tratar com centenas de milhares de dólares… E aqui isso simplesmente não é possível. Isso é muito claro para todos”, afirmou.

“Surge uma série de questões para as quais nem sempre há boas respostas. É possível recomendar outros métodos de diagnóstico. Por exemplo, se dizem ‘não temos tomografia‘, ensinamos que, em determinadas situações, é possível usar ultrassom, que geralmente está mais disponível do que a tomografia.”

Apoio dos EUA faz falta

Países africanos e seus profissionais de saúde já conseguiram lidar com epidemias de ebola no passado, apesar das limitações — falta de recursos financeiros, equipamentos médicos e medicamentos.

“Os surtos anteriores de ebola —fossem 20 casos ou 30 mil— foram todos contidos por medidas não farmacológicas, por colaboração entre pesquisa, instituições públicas e as populações”, disse o especialista.

“Os casos foram isolados, contatos rastreados e houve educação em saúde. Podemos fazer muita coisa contra epidemias se realmente quisermos e se trabalharmos juntos.”

Mas esse espírito de cooperação parece estar diminuindo. Os Estados Unidos voltaram a considerar cortes na ajuda financeira externa. Em termos práticos, se as novas regras entrarem em vigor, nenhum recurso poderá sair dos EUA a menos que beneficie explicitamente cidadãos americanos.

Isso se soma ao fato de os EUA já terem cortado 83% dos programas da Usaid, a agência internacional de desenvolvimento, e se retirado da OMS. Poucos países europeus se mostraram dispostos a preencher essa lacuna.

“Essa epidemia se desenvolveu em um terreno fértil de instabilidade e de atendimento de saúde insuficiente. A assistência e o monitoramento já eram fracos há anos e foram ainda mais enfraquecidos por esses cortes”, disse Gertler.

“Sabemos por colegas — e vi isso durante minha estadia na RDC em 2025 — que centros de saúde fecharam; muitos contratos de funcionários não foram renovados; houve redução nos estoques de medicamentos. Tudo isso ficou evidente ao longo do último ano.”

Esses efeitos podem em breve ser sentidos também em outras regiões. “Quando se trata de doenças com potencial epidêmico”, afirmou Gertler, “há também um interesse público muito além da região afetada.”

Isso ficou evidente durante a Covid, quando um surto local se transformou em epidemia regional e depois em pandemia.

Mais recentemente, um navio de cruzeiro vindo do Caribe, com passageiros infectados pelo hantavírus, atracou nas Ilhas Canárias, gerando temores de um alastramento da doença.

A decisão de que Stafford recebesse tratamento em qualquer lugar, menos nos Estados Unidos, foi mais uma camada desse terreno instável.

“É doloroso ver isso”, disse Gertler. “Sim, o ebola é uma doença rara. Mas precisamos levantar essa questão como médicos e testemunhas dessa situação: por que permanecemos tão passivos?”

Autor: Folha

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