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Mulheres com lesão cerebral são menos atendidas que homens – 22/06/2026 – Equilíbrio e Saúde

Mulheres com traumatismo cranioencefálico (TCE) têm 26% menos chances de serem encaminhadas a centros médicos especializados do que homens, mesmo quando têm o mesmo grau de lesão, idade e comorbidades.

O dado é de uma pesquisa publicada no dia 15 deste mês na revista científica Canadian Medical Association Journal, que analisou mais de 50 mil adultos hospitalizados em Ontário, no Canadá, entre 2009 e 2020.

O TCE é um tipo de traumatismo craniano que afeta especificamente o cérebro. Frequentemente causado por quedas, é a principal causa de morte e incapacidade relacionadas a trauma em todo o mundo.

Diferentes estudos já haviam mostrado que mulheres enfrentam desvantagens no acesso a tratamentos para infarto e transplante renal.

A médica intensivista Natalia Angeloni e seus colegas da Universidade de Toronto partiram de um levantamento de 2012 que mostrou que mulheres gravemente feridas tinham chances menores de receber atendimento em centros de trauma do que homens. A pergunta era: isso também valeria para o TCE? A resposta foi sim.

“Nosso estudo mostra que essas disparidades persistiram ao longo do tempo e parecem ser relevantes em diferentes condições clínicas”, dizem os pesquisadores.

A maior frequência de traumatismos graves em homens, a desvalorização do quadro clínico feminino e o desconhecimento do cérebro das mulheres podem ser algumas das explicações para o fenômeno, segundo o estudo.

Mas isso não acontece exclusivamente no Canadá e o conhecimento pode ser aplicado em todo o mundo, diz o neurocirurgião Wellingson Paiva, membro da SBN (Sociedade Brasileira de Neurocirurgia) e coordenador da Unidade de Neurocirurgia de Emergência do Hospital das Clínicas da USP (Universidade de São Paulo).

O sistema de saúde canadense, inclusive, é semelhante ao SUS (Sistema Único de Saúde), explica Paiva. Há o atendimento primário, que acontece nas UPAs e UBSs, e o de referência, nos hospitais.

“É muito similar, só que o canadense funciona melhor. No nosso, pode-se imaginar que também acontece isso ou talvez até seja pior”, diz o professor da USP.

Há uma falha na triagem para os casos, explica o professor, porque os profissionais de saúde ainda não entendem perfeitamente como um impacto afeta o cérebro das mulheres. “Toda a literatura é baseada no cérebro do homem”, diz Paiva.



É como se as mulheres estivessem sendo penalizadas por terem um comportamento menos agressivo

Tradicionalmente, os percentuais de traumatismo médio a grave são maiores em homens, explica o médico. Isso porque eles estão mais envolvidos em atividades como acidentes de automóveis, esportes radicais ou de alto impacto, além de brigas interpessoais.

Os casos em mulheres costumam ser de menor impacto, como quedas da própria altura e outros acidentes menores.

Segundo o neurocirurgião, o ciclo se forma assim: as mulheres estão menos envolvidas em atividades de risco, portanto os médicos estudam mais o trauma em cérebros masculinos. Quando elas sofrem TCE, os profissionais de saúde não sabem como os sintomas se manifestam no cérebro delas. Além disso, estão tão enviesados a achar que as lesões acontecem em homens, que não prestam os cuidados adequados.

“É como se as mulheres estivessem sendo penalizadas por terem um comportamento menos agressivo”, diz o médico.

Os pesquisadores do estudo da Universidade de Toronto afirmam que é necessário estudar mais quais são os possíveis motivos para o dado encontrado, mas dizem acreditar que o viés de gênero tem uma grande influência.

“Esse conceito é corroborado por estudos de simulação que mostram que volumes idênticos de sangramento são frequentemente subestimados em pacientes do sexo feminino e superestimados nos do sexo masculino”, escrevem.

Segundo Paiva, o estudo prova que os protocolos de triagem precisam ser revistos no mundo inteiro para captar adequadamente os traumatismos específicos em mulheres. [Completar a frase final do texto] Enquanto isso, diz, faz sentido que as mulheres insistam para receber um tratamento adequado.

Autor: Folha

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