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Escritora brasileira foge à onda identitária e é finalista de prêmio

Ana Paula Maia avisa, com algum divertimento, que as pessoas têm medo dela. Diz que com ela não dá muito pé, que sempre acaba vindo uma resposta atravessada. Em uma entrevista recente ao portal UOL, a escritora de 48 anos, nascida em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, define o que faz como terror, escreve sobre homens que atordoam gado e cremam defuntos. Vive, nas próprias palavras, num mundinho esquisito, e desconfia que esse mundinho se comunica melhor longe daqui.

A desconfiança tem base. Na Alemanha, A guerra dos bastardos foi saudado pela crítica como um dos melhores romances noir do ano e lhe rendeu fama de celebridade. Na Inglaterra, em maio, ela chegou à final do International Booker Prize (Prêmio Booker Internacional, a mais disputada distinção da ficção traduzida para o inglês) com Assim na terra como embaixo da terra, vertido por Padma Viswanathan, e perdeu para Taiwan Travelogue, da taiwanesa Yang Shuang-zi. No Brasil, onde mantém um público pequeno e fiel, o que circulou nas últimas semanas não foi nem a indicação nem a derrota, e sim uma entrevista.

“Aqui não tem questão identitária”

À repórter do UOL, dias antes da cerimônia em Londres, ela falou da obra sem nenhuma das mediações que costumam cercar uma autora premiada lá fora e quase desconhecida aqui. Disse que não escreve sobre um recorte do Brasil, que seus temas são sistemas de poder e não a guerra civil cotidiana do país, e que não há protagonismo feminino em seus livros porque nunca lhe ocorreu um, sem que pretenda investigar o motivo. “Aqui não tem questão identitária”, afirmou, antes de emendar que, sem essa chave, fica mais difícil encaixá-la, e que prefere os lugares “onde você só precisa ser bom”. Sobre os pares que levam a identidade para dentro da obra, lembrou de uma piada antiga, a de que todos pareciam se encontrar na recepção do mesmo terapeuta, bêbados e em crise, enquanto ela estava em outro canto, abatendo porcos e cremando gente.

O incômodo veio rápido. No site Mundo Negro, o escritor Ale Santos, uma das vozes do chamado afrofuturismo brasileiro, deslocou a discussão para um terreno menos confortável que o da provocação. Para ele, a pergunta não é se existe literatura identitária, e sim por que o mercado editorial ainda trata horror, fantasia e ficção científica como gêneros menores quando a assinatura é de um autor negro. Santos lembrou que, entre 2011 e 2021, apenas 6% dos autores publicados pelas quinze editoras tradicionais do eixo Rio-São Paulo eram negros. A ironia é que a frase sobre não ter “questão identitária” partiu de uma mulher negra criada na Baixada Fluminense, que em outro trecho da mesma entrevista recusou exatamente esse inventário, o de ter nascido em Nova Iguaçu, ser mulher e ser preta. No BookTwitter (o Twitter literário), o saldo foi o previsível, com a autora transformada por alguns dias em sintoma de uma disputa que ela diz não travar. Tudo passou, mas vale revisitar a obra que quase a consagrou com o Booker.

A fazenda sobre os mortos

Quem abre Assim na terra como embaixo da terra entende por que a etiqueta não cola. O romance se passa numa colônia penal em vias de desativação, cercada por muros de seis metros de altura e dois de espessura, com uma cerca eletrificada no topo, num ponto do mapa que os próprios presos não sabem nomear. Sobre o portão, em letras de ferro gastas, lê-se que a correção liberta, e o leitor que conhece a inscrição de Auschwitz reconhece a procedência sem que a autora precise apontá-la. Lá dentro, o agente Melquíades caça os condenados à noite, com um rifle tcheco, e chama o expediente de medida socioeducativa.

A colônia foi erguida sobre camadas de violência que a antecedem. Antes do presídio, ali se torturavam e matavam escravos, num lugar que chegou a se chamar Calvário Negro. Depois vieram um fazendeiro cujos filhos somem num piquenique e nunca voltam, um milharal que pega fogo e, por fim, o modelo penitenciário do qual ninguém escaparia. Cavando uma cova para enterrar mais um morto, os personagens encontram um baú que imaginam cheio de ouro, e dentro estão ossos de bebês. O título cumpre a promessa, já que há mais gente debaixo da terra do que em cima dela, e a fazenda inteira repousa sobre os próprios mortos.

Esse é o universo de Ana Paula Maia desde a trilogia A saga dos brutos, e ele se organiza em torno de homens definidos pelo que fazem, não pelo que são. Edgar Wilson, que atravessa De gados e homens e Enterre seus mortos, atordoa o gado num matadouro e depois recolhe cadáveres para cremar, com um respeito pelos mortos que poucos dedicam aos vivos. No fim de Assim na terra, o índio Bronco Gil sai dos muros e aceita ser capataz na fazenda de abate de um tal Milo, o mesmo nome do matadouro Touro do Milo de De gados e homens, e troca um confinamento por outro sem que a troca o assuste. São todos homens de sangue, e esse sangue não tem cor de pele nem sotaque, apenas a função de quem mata para os outros. A colônia sem nome e sem coordenadas é a forma exata de uma escritora que diz não ter apego regional, um Brasil reconhecível pela crueldade e pelo descaso mais do que por qualquer cor local.

O caso oposto de Itamar

A frase de Maia ecoou em outra recusa recente, a de Itamar Vieira Junior, finalista do mesmo Booker em 2024 com Torto Arado, que vem repetindo que tentam confiná-lo ao identitarismo e que o que está em disputa é o direito à memória. A semelhança é só de superfície. Vieira Junior é o maior nome da literatura identitária brasileira da última década, e sua obra inteira nasce do passado escravista, das protagonistas negras, do gesto contracolonial assumido sem disfarce. Já na abertura de Torto Arado, a faca tirada da mala da avó e o gosto do metal na boca instalam uma narração em primeira pessoa, memorialística, em que a identidade não é assunto, é o material de que o livro inteiro é feito. O que ele recusa não é a pauta, e sim a tutela do rótulo, a ideia de que um autor negro só possa ser lido por essa chave. Maia está no outro extremo, com livros de carcereiros e atordoadores de gado em que a identidade não comparece como tema nem como protagonista. Quando os dois reclamam de serem encaixados, usam palavras parecidas para defender coisas que não se tocam, um para que não o reduzam ao que de fato escreve, a outra para que não lhe atribuam o que jamais escreveu.

A discussão ganhou outra camada quando a tradutora Aurora Fornoni Bernardini, da USP, disse à Folha que Torto Arado não é literatura, mas produto de mercado que privilegia o conteúdo em detrimento da forma. Vieira Junior respondeu que ela fala por um grupo pequeno de críticos tradicionais incapazes de entender o sucesso de um outsider, alguém de fora. O ensaísta Eduardo Cesar Maia, da UFPE, que não tem parentesco com a romancista, tentou tirar o debate da rede social: a tese estrita de que certos autores “não são literatura” lhe parece uma petição de princípio autoritária, já que não existe obra sem forma, mas o diagnóstico de fundo, o do assunto que engole o estilo, está correto. Ele recorre a As ideias e as formas, de José Guilherme Merquior, escrito em 1981, quando o problema era o inverso, o do formalismo que abdicava das ideias, e lembra que pensar e exprimir são a mesma atividade.

A forma antes do tema

É nesse ponto que Ana Paula Maia desarma a dicotomia que a discussão insiste em manter de pé. Sua prosa é seca, presente, sem adjetivo sobrando, e foi a forma, antes do tema, que conquistou os jurados de Londres, para quem o livro é, nas palavras do júri, uma “novela brutal, assombrosa e hipnótica”. O conteúdo é dos mais pesados que a ficção brasileira recente ousou encarar, e ainda assim nada nele se oferece como pauta. A escritora que se recusa a fazer da identidade um assunto faz da contenção uma disciplina, e o resultado é exatamente o casamento entre ideia e forma que Merquior cobrava.

Ela conta que adoece ao terminar cada livro, que precisa tomar vitaminas e fica sem energia para qualquer coisa, e que, mal se recupera, já precisa escrever o próximo. O décimo, O tenebroso brilho do sol, sai no segundo semestre e se passa no Rio Grande do Sul, exceção que a própria autora aponta na obra. Resta a pergunta que a entrevista deixou no ar e que nenhum prêmio respondeu, a de por que o lugar onde basta ser bom, para uma autora que jamais morou fora e diz que não pretende, continua sendo qualquer um menos o Brasil sobre o qual ela escreve.

Autor: Gazeta do Povo

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