Há momentos em que uma turnê deixa de ser apenas uma sequência de shows para virar um acontecimento histórico. Foi exatamente esse o rito provocado por “Tempo Rei”, a monumental jornada de Gilberto Gil pelos palcos que arrastou multidões de várias gerações por estádios do país. Agora, a catarse coletiva de ver o mestre baiano em cena ganha formato definitivo para a posteridade.
Chega às plataformas na próxima sexta-feira (26) o primeiro de quatro volumes de “Tempo Rei – Ao Vivo”. A data escolhida para dar início aos lançamentos não é casual: celebra o 84º aniversário do artista, que faz do próprio tempo a sua matéria-prima mais preciosa.
O projeto, que transforma a experiência dos palcos em legado fonográfico e audiovisual, nasce sob o selo da Gege Produções com distribuição da Altafonte. O plano de lançamentos prevê quatro volumes ao longo de 2026, culminando em novembro com o lançamento de uma caixa comemorativa em vinil pela Três Selos Rocinante. O lançamento oferece a quem esteve presente a chance de reviver a emoção e dar a quem não pôde ir um vislumbre real da grandeza do espetáculo.
Cada canção, instrumento, coro e silêncio da plateia foi meticulosamente capturado. Sob a direção audiovisual de Rafael Dragaud e edição de Joana Swan, as performances ganham as telas com o brilho que marcou os shows em arenas brasileiras.
Como porta de entrada desse universo, a clássica “Palco” foi escolhida como a música de trabalho do primeiro disco. A faixa carrega um simbolismo duplo. Além de abrir as apresentações da turnê, a composição experimentou um forte rejuvenescimento no último ano, quando criadores de conteúdo de plataformas de vídeo curto triplicaram o uso de sua versão original, apresentando Gil a uma nova leva de ouvintes digitais.
“Uma canção que era na verdade para não deixar dúvida a respeito de tudo o que cantar representa para mim, e a respeito da minha relação com a música – simbolizada de forma completa pelo estar no palco”, define o próprio Gilberto Gil sobre a centralidade da faixa em sua vida artística.
O repertório do primeiro volume funciona como um recorte panorâmico da genialidade do compositor baiano, costurando apresentações gravadas em diferentes capitais. A abertura com “Palco”, em São Paulo, emenda com o balanço de “Um Banda Um”, registrada em Fortaleza. O hino metafísico que dá nome ao projeto, “Tempo Rei”, surge em emocionante leitura gravada em Belo Horizonte, cidade que também cedeu o registro de “Eu Só Quero Um Xodó”, clássico de Dominguinhos (1941-2013) e Anastácia que ganha as plataformas em sintonia direta com o auge dos festejos juninos.
O ecletismo do primeiro disco se completa com as matrizes regionais de “Eu Vim da Bahia”, gravada em Belo Horizonte, e “Procissão”, registrada no Rio de Janeiro, em parceria com Edy Star (1938-2025). O vanguardismo estético que fundou o movimento tropicalista ressurge imponente em “Domingo no Parque”, em versão capturada em Belém, enquanto a densidade política e a resistência histórica ganham voz na icônica “Cálice”, parceria com Chico Buarque registrada na capital mineira.
Ao amarrar hinos políticos, celebrações afetivas e o vanguardismo que mudou os rumos da cultura nacional, o volume inicial de “Tempo Rei – Ao Vivo” estabelece o tom de um documento histórico essencial. Mais do que registrar uma grande turnê da música popular brasileira, o projeto fixa a energia de um criador que prova que sua obra permanece em constante estado de mudança, viva e essencial.
O aniversário é de Gil, mas o presente é para você. Aproveite!
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Autor: Folha




















