
A chegada de Devorador de Estrelas no streaming MGM+ marca um momento notável na ficção científica contemporânea. Adaptado da obra de Andy Weir, o filme acompanha o professor Ryland Grace — vivido por Ryan Gosling — em uma missão desesperada para salvar a humanidade de uma substância misteriosa que ameaça o Sol. Mais do que uma simples jornada de sobrevivência no vácuo, o filme tornou-se o centro de um debate vibrante que perpassa o valor da ciência, a natureza do heroísmo e o tom ideal para histórias de alto risco. Se para alguns críticos estamos diante de um marco no gênero, para outros, o flerte constante com o entretenimento “pop” acaba por suavizar a urgência da trama.
O grande consenso entre a crítica reside na capacidade do filme de tornar conceitos científicos complexos acessíveis e fascinantes. Para o crítico de cinema PH Santos, esse é o pilar do longa, descrevendo a abordagem como a de um “bom professor de colégio” que utiliza a clareza para propagar o conhecimento.
Na mesma linha, o crítico Jurandir Gouveia exalta a genialidade de simplificar densos temas astrofísicos sem subestimar a inteligência do espectador. Otávio Ugá, do canal Super 8, reforça essa percepção ao destacar que, mesmo com a “ciência dura” presente, o roteiro consegue transformá-la em um entretenimento simpático, evitando a sensação de uma aula monótona.
O “coração” dessa engrenagem é, sem dúvida, a relação entre o protagonista e o alienígena Rocky. Segundo PH Santos, a interação ilustra o poder do mutualismo, onde a conexão com o “radicalmente diferente” sobrepõe-se a qualquer outra forma de inteligência. A química entre os dois é tratada por Jurandir Gouveia como o ponto alto da produção, indo além: ele classifica Rocky como o melhor personagem extraterrestre desde o E.T.. Já Otávio Ugá pontua que a entrada de Rocky na narrativa eleva o filme a um novo patamar, criando um “bromance espacial” que injeta tração, humor e ternura à trama, conferindo ao longa uma identidade calorosa e familiar.
Quanto à performance de Ryan Gosling, a unanimidade é quase absoluta. PH Santos elogia a versatilidade do ator ao transitar entre a comédia física e momentos de vulnerabilidade humana, descartando a persona de “galã”. Essa visão é compartilhada por Otávio Ugá, que define o desempenho como “tremendamente habilidoso”. Jurandir Gouveia, por sua vez, valoriza a desconstrução da figura do herói: para o crítico, o Grace de Gosling é um personagem relutante e medroso — longe do estereótipo audaz —, o que torna sua jornada de coragem ainda mais impactante.
A estrutura narrativa, que alterna o presente na nave com flashbacks da vida na Terra, recebe elogios pela organização. Jurandir Gouveia contrasta essa clareza com o estilo de outros diretores, elogiando a fluidez da montagem. PH Santos descreve o ritmo como um movimento de “mergulhar e emergir”, equilibrando pragmatismo científico e sentimentos. Para Otávio Ugá, o uso da amnésia justifica naturalmente a não-linearidade, evitando um “prólogo cansado” e mantendo o espectador imerso, apesar das 2h40 de duração.
Entretanto, nem tudo é consenso. O tom do filme é a principal fonte de divergência. Enquanto para PH Santos o caráter “derivativo” da obra — comparável a títulos como Interestelar e Perdido em Marte — não incomoda por criar algo palpável e autêntico, Otávio Ugá levanta uma ressalva importante: o estilo dos diretores Phil Lord e Christopher Miller. Para Ugá, o desejo de tornar o filme um “pop” familiar resulta, por vezes, em uma “infantilização”. O crítico argumenta que o excesso de humor, ou a “graçola demais”, acaba por esfarelar a tensão dramática e a sensação de perigo real, diminuindo a verossimilhança da ameaça existencial.
Ao situar o filme no panorama do gênero, a recepção é entusiasta. Jurandir Gouveia não hesita em classificá-lo como o melhor filme de 2026 até o momento, colocando-o em uma tríade de excelência junto a A Chegada e Interestelar, superando, em sua visão, a eficácia emocional de Perdido em Marte. PH Santos conclui que, apesar de simples em sua execução, Devorador de Estrelas é um excelente ponto de partida para discussões sobre colaboração. Por fim, ainda que note os conflitos de tom, Otávio Ugá reconhece o enorme valor emocional da produção, prevendo que a “ficção científica delicinha” deverá ter uma trajetória expressiva nas grandes premiações da indústria.
Autor: Gazeta do Povo








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