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Será que não sei mais amar? – 29/06/2026 – Vida de Alcoólatra

Durante muito tempo, tive casos com homens diversos, sempre um encontro pontual: fazia sexo e me bastava. Homens mais velhos, mais novos, casados, semidrogados. Como vivia anestesiada e mais apegada ao álcool do que a qualquer outra coisa, não dava muita importância aos encontros.

O problema é que o meu apego ao álcool não era só uma forma de me soltar, mas também um descaso pela pessoa que estava comigo. Lembro que muitas vezes não me interessava pelo que ela tinha a dizer. Meu foco estava na bebida e nos beijos que eu daria.

Quando parei com o álcool, me perguntei como iria me relacionar com alguém estando sóbria. Marcar um encontro e tomar um suco? Um café? Tentei, e muitas vezes, enquanto eu continuava no café ou no suco, o homem seguia para uma cerveja. Daí a conversa avançava para um patamar que a minha sobriedade não aguentava.

“Nunca fiz amizade bebendo leite” é uma frase que se encaixava perfeitamente para mim na ativa. Odiava quem me chamava para um café ou para um cinema. Qual era a graça? Como dar um beijo a seco? Sem ter a brisa da bebida? Se era para marcar um encontro, que fosse direto: “Vamos tomar uma cerveja?”

Já contei que tenho um amigo colorido. Ele sabe do meu problema, lê as colunas. Com ele me sinto totalmente desnuda, não escondo meus medos, minha insegurança. No momento, ele está desimpedido. Tem seus filhos, um trabalho incrível e é uma das pessoas mais íntegras e queridas com quem já me relacionei desde meu primeiro namoro, que durou sete anos e terminou muito por conta do álcool.

Semana passada, esse amigo veio em casa. Não sou mais uma menina que está aprendendo a beijar, mas a abstinência me fez, de certo modo, uma adolescente que está experimentando tudo pela primeira vez. Enquanto conversávamos, me passava pela cabeça se ele tinha vindo para ficar comigo, ou se tinha sido por pena. Transamos, me permiti fazer tudo que sempre gostei no sexo. É bom, quem não gosta de ter prazer?

Bem, para mim, o problema é o dia seguinte. Fico com ressaca e com uma carência gigantesca. Assim como com o álcool, ela passa. Mas dessa vez meu impulso foi escrever ao meu amigo, quase pedindo desculpa caso eu tivesse feito alguma coisa errada. Que raios eu poderia ter feito? A resposta dele veio como um raio de realidade: “Que isso, Alice, sexo é liberdade. É para nos soltarmos da melhor forma.”

Sou perseguida pela culpa e vivo me boicotando. Culpa de achar que estou sempre fazendo algo errado ou machucando alguém. A minha sorte é que ele é desses amigos que querem o meu bem. E o sentimento é recíproco. Brinco que sinto saudade dele, mas que sei que ele é um homem livre e gosto de vê-lo voar.

Que medo é esse? Que culpa é essa? Só mesmo os encontros em salas de AA e a correspondência com amigos em recuperação para me fazer entender que isso também acontece com outras pessoas. Anestesiados por muitos anos, desaprendemos muita coisa e não nos permitimos compreender que merecemos tudo de bom que a recuperação nos traz.

Jamais teria qualquer contato com esse amigo se estivesse bebendo. Agora, vou me experimentando para poder voltar a amar de verdade.


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Autor: Folha

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