Os últimos resultados da seleção brasileira masculina de vôlei levantaram a discussão sobre a falha na formação de talentos no país. O Brasil deixou a posição de um dos maiores favoritos ao pódio para lutar para chegar às fases finais dos torneios.
Nesta semana, a seleção feminina sub-17 também acendeu a luz amarela ao ser eliminada ainda na primeira fase do Mundial da categoria, no Chile, ao perder quatro dos cinco jogos que disputou.
Esta é a segunda edição do Mundial desta categoria. Em 2024, na primeira, a equipe terminou em quinto, mas vencendo seis dos sete jogos disputados (foi eliminada nas quartas de final).
Em nota à Folha, a CBV (Confederação Brasileira de Vôlei) reconheceu que os resultados obtidos pelas seleções de base não têm sido os esperados. Por isso, diz estar insatisfeita, mas destacou que é necessário lembrar que o cenário esportivo mudou de uma maneira geral, com as disputas mais niveladas em todos os esportes. “A solução não é simples e vai precisar de tempo para gerar efeitos sustentáveis.”
“A situação é complexa. Não existem razões isoladas ou soluções únicas para este momento. É necessário aumentar o número de praticantes, e a massificação do esporte na escola seria um passo muito importante não só para a iniciação ao voleibol mas, sim, para todos os esportes”, afirmou a entidade.
Ela também enfatizou que estímulos públicos para o surgimento de novos clubes e para manutenção dos atuais seriam fundamentais em uma cadeia de desenvolvimento que também venha a gerar espaços adequados e oportunidades de trabalho para profissionais do voleibol, entre outras ações.
“O apoio público às federações estaduais, que são as maiores responsáveis pela capilarização dos esportes em suas regiões, proporcionando ainda mais competições com custos mais baixos, contribuiria muito para o surgimento de novos talentos.”
Por fim, a CBV cobrou a criação de políticas públicas integradas que gerem o interesse em número bem maior de jovens na prática de esportes. “Isso ajudaria não só o voleibol mas todo o esporte brasileiro. Caso contrário, vamos sempre estar em busca de bons momentos geracionais que virão de tempos em tempos.”
Atualmente, segundo a entidade, há 657 equipes participando de competições nacionais este ano, o que significa mais de 9.000 atletas em disputa, a maior parte nas categorias de base.
Com a repercussão dos maus resultados, ex-jogadores das gerações campeãs não pouparam críticas à situação do voleibol nacional nas redes sociais.
O ex-líbero Serginho Escadinha, bicampeão mundial e olímpico, criticou o nível técnico atual das competições nacionais no podcast Basticast_365. Ele afirmou que os jogos da Superliga masculina não o agradam porque, segundo ele, apenas uns três times apresentam um bom nível de jogo. Ele considera isso o efeito de um trabalho ruim na base.
“Antigamente, para ser convocado para a seleção brasileira, você tinha de ir para a seleção paulista e dar porrada no Campeonato Brasileiro. Hoje, não. Você indica”, disse.
Como solução, ele afirma que é preciso ensinar todos os fundamentos aos jovens. “Hoje você não tem aquele cara que faz tudo muito bem feito!”
Em um post no Instagram, ele pediu que as novas gerações se espelhem nos ídolos do passado para ter sucesso, assim como ele fez.
O ex-meio-de-rede Gustavo Endres concorda que o trabalho da base precisa melhorar urgentemente, mas não vê falta de investimento como a origem dos maus resultados da seleção masculina adulta.
Ele cita que hoje há mais campeonatos de base do que na sua época, 30 anos atrás. Com a criação do CBC (Comitê Brasileiro de Clubes), o Campeonato Brasileiro Interclubes começou a ser disputado em 2017. O número de equipes filiadas cresce a cada ano, e elas já estão divididas em quatro categorias em várias divisões.
Além disso, foi criado o CBS (Campeonato Brasileiro de Seleções), no qual os estados disputam entre si o título. E ainda há campeonatos disputados dentro de cada estado —Copas, Estaduais e festivais e tantos outros.
“Se com todas essas equipes não estamos conseguindo escolher atletas com talento e, principalmente, com disposição para treinar, alguma coisa está errada nesse processo”, afirmou Gustavo em suas redes sociais. “A conclusão é que a verba tem de ser mais bem aplicada onde vai nos dar o resultado que queremos.”
Já o ex-ponta Giovane acredita que uma das falhas das atuais gerações é o pouco treino. Ao podcast Charla Futebol, ele afirmou que o Brasil só chegou ao topo, surpreendendo os rivais, pelo que treinava no dia a dia.
“Fazer o básico não pode. Tem de fazer mais. Nós não somos os mais altos, não somos os mais fortes. A parte cognitiva de um americano, que faz universidade, é mais treinada que a nossa, que não fazemos. Então, temos de ser diferentes em alguma coisa. E o nosso diferencial era o treino. A nossa escola do vôlei sempre foi treinar, treinar, treinar. Agora o cara quer treinar uma hora e meia. Não dá!”
Ele conta ainda que algumas das principais jogadas da histórica seleção masculina, que ficou dez anos no pódio de todas as competições, foram criadas quando os jogadores permaneciam em quadra após os treinos, que já duravam normalmente três horas.
“Hoje, acaba o treino, e o cara vaza”, lamentou.
Na nota à reportagem, a CBV também exaltou alguns bons resultados, como a medalha de prata no Mundial sub-18 e o bronze no Mundial sub-21, ambos no feminino, e a presença de alguns talentos recém-formados nas seleções principais, como Marcelle, Helena, Luzia, Lukas Bergmann, Arthur Bento, Thiery e Maicon.
“Nos últimos dois anos, a CBV realizou clínicas de fundamentos com atletas entre 12 e 18 anos que foram observados nas competições de base realizadas nos anos anteriores. Com clínicas específicas por posições, esses jovens talentos tiveram a oportunidade de trabalhar com nomes como Fofão, William Arjona e Fabi. Essas clínicas serão intensificadas ainda em 2026”, afirmou a entidade.
A confederação disse ainda que foram identificados bons valores para as futuras gerações do Brasil. Mas Gustavo alerta que a recuperação vai ser um trabalho longo e árduo.
Autor: Folha








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