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O dedo do meio, a incontinência verbal e a blindagem de Lula

Às vésperas do início oficial da campanha eleitoral, em 16 de agosto, o presidente Lula parece ter perdido de vez a decência e o controle em suas aparições públicas.

Com um intervalo de apenas alguns dias entre um caso e outro, ele deu sinais evidentes de que se comporta como uma carreta desgovernada, sem qualquer filtro em seus atos e suas falas. A ausência total de “superego”, como diriam os psicólogos, e de “semancol”, como se diz por aí, expõe um quadro que vai muito além do mero folclore político.

Num dia, Lula mostrou o dedo do meio durante uma fala contra a ideia de que “pobre não gosta de coisa boa”: “Aqui pra eles”, afirmou o presidente, com toda a fineza que lhe é peculiar. Em outro, sapecou um “vocês não podem permitir que prevaleça em Santa Catarina o racismo”, em meio a analogias ao nazismo e à “hegemonia branca”, levando o governador Jorginho Mello a acusá-lo de xenofobia e a entrar com uma representação criminal contra ele na PGR (Procuradoria-Geral da República).

De quebra, ao defender o aumento dos gastos do país na área de defesa, Lula ainda disse que “está cheio de nego maluco no mundo”, em referência velada ao presidente americano, Donald Trump. Usou uma expressão “politicamente incorreta”, que, na boca de qualquer brasileiro comum, seria o suficiente para ele se tornar alvo da ira do Ministério Público e de ONGs identitárias e talvez ser até preso sem direito a fiança.

“Gafes” e “deslizes”

A rigor, não é de hoje que o presidente destila sua incontinência verbal e recorre a gestos ofensivos. Seus disparates recorrentes, normalizados como “gafes” e “deslizes” pela mídia amiga, representam, na realidade, o mais puro suco de Lula.

Só no atual mandato, entre outras barbaridades, ele já vitimizou traficantes, relativizou o Holocausto, disse que a Venezuela era um exemplo de democracia e declarou que “afrodescendente gosta de um batuque de tambor”. Recentemente, durante reunião do G-7 na França, falou mal de Trump para Lee Jae-myung, presidente da Coreia do Sul – país que tem uma aliança estratégica com os Estados Unidos que lhe garante proteção contra os ímpetos expansionistas do regime comunista da Coreia do Norte.

Agora, porém, considerando suas últimas ações e falas, o que era tratado como um problema ocasional por sua claque, fruto de sua autenticidade, está se tornando o novo normal de Lula. Para muita gente, isso coloca em xeque sua atual capacidade de distinguir entre o que pode e o que não pode dizer e fazer, dentro das regras do debate político saudável, da liturgia do cargo e da postura civilizada que deve pautar a atuação de qualquer cidadão em sociedade.

Diante da postura de Lula, o pior – se é que é possível haver algo mais despropositado e lamentável – é que grandes veículos de comunicação, que tradicionalmente já “passam pano” para o petista, agora não estão só suavizando seus impropérios. Estão literalmente editando suas declarações, para apagar o que possa lhe causar constrangimentos, como aconteceu com a retirada da palavra “nego” da afirmação em que ele abordou o aumento dos gastos do país em defesa.

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Duplo padrão

A blindagem da mídia parceira, porém, é apenas uma engrenagem desse sistema de proteção. O que é realmente deplorável – e escancara a erosão das nossas instituições – é o duplo padrão adotado pela Justiça, pelo Ministério Público e pela Polícia Federal, ao lidar com os “excessos” de Lula e as manifestações de seus adversários.

Enquanto tratam o destempero e os abusos do presidente com luvas de pelica, como questões inerentes à crítica política, que não podem ser criminalizadas, reagem com mão de ferro a quaisquer afirmações e atos da oposição contra ele.

Para a PGR, por exemplo, é tudo bem Lula chamar o ex-presidente Jair Bolsonaro de “canibal” e “genocida”. Mas, para a Polícia Federal,em inquérito aberto por ordem do ministro Alexandre de Moraes, do STF, o senador Flávio Bolsonaro cometeu crime de calúnia contra Lula. Seu crime, de acordo com a PF, foi publicar um comentário no X em que associava Lula ao ex-ditador da Venezuela Nicolás Maduro, logo após sua captura pelos EUA. “É o fim do Foro de São Paulo: tráfico internacional de drogas e armas, lavagem de dinheiro, suporte a terroristas e ditaduras, eleições fraudadas”, afirmou Flávio no post.

Com as eleições no radar, a régua dupla da Polícia Federal, da PGR e do STF só reforça as suspeitas de que a gestão do processo eleitoral poderá ter o mesmo viés pró-Lula e antidireita que marcou o pleito de 2022. A notícia de que o ministro Gilmar Mendes teria alertado Lula de que o STF poderá atuar durante a campanha como Corte revisora das decisões do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), hoje sob comando do ministro Nunes Marques, com seu colega André Mendonça ocupando a vice-presidência, certamente não contribui para mudar tal percepção.

Lula pode até ter uma espécie de salvo-conduto para continuar fazendo gestos obscenos e proferindo suas sandices, enquanto os representantes da oposição são levados no fio da navalha. Mas nenhum malabarismo jurídico ou qualquer edição de aspas poderá evitar que suas falas e seus gestos disparatados sejam encarados por seus críticos e adversários como um sinal de que ele perdeu o eixo e age com a certeza da impunidade.

Autor: Gazeta do Povo

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