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Anedonia musical; conheça essa condição neurológica – 01/07/2026 – Música em Letras

Composta por Dorival Caymmi (1914-2008) em 1940, a música “Samba da Minha Terra” traz nos versos a célebre frase: “Quem não gosta de samba bom sujeito não é”. Por meio de uma hipérbole, figura de linguagem caracterizada pelo exagero intencional de uma ideia, o compositor baiano brinca que gostar do gênero é pré-requisito para ter bom caráter.

Avaliada literalmente, contudo, a expressão cria uma generalização que invalida as preferências de quem prefere outros estilos musicais. Como fica, então, o entendimento sobre quem afirma não gostar de música nenhuma? Seria esse indivíduo alguém antissocial ou não confiável?

Pior seria rejeitar um potencial parceiro amoroso por esse motivo, pois aí se estabelece um equívoco. Essa pessoa pode apenas sofrer de anedonia musical, uma condição neurológica específica que incapacita o indivíduo de sentir prazer ou respostas emocionais ao ouvir música. O problema afeta entre 3% e 5% da população mundial e, segundo a medicina, não se trata de uma doença, mas sim de uma variação da diversidade humana.

A condição divide-se em dois tipos: congênita e secundária (ou temporária). A congênita afeta pessoas que já nasceram assim. O cérebro delas se desenvolveu com menor conectividade nas áreas que processam o estímulo sonoro. Isso não significa que o indivíduo não ouça perfeitamente as frequências, o ritmo e a melodia. O cérebro apenas não libera dopamina —neurotransmissor ligado ao prazer— ao processar a música, analisando-a de forma puramente lógica.

Já a anedonia musical secundária acomete quem gostava de música, mas perdeu o interesse de forma súbita. Figuras históricas relataram o sintoma. Em sua autobiografia “Speak, Memory” (1951), o escritor Vladimir Nabokov (1899-1977) afirmou que a música o afetava apenas como “uma sucessão arbitrária de sons irritantes”. Sigmund Freud (1856-1939), pai da psicanálise, admitiu que não extraía prazer de melodias, e o naturalista Charles Darwin (1809-1882) relatou em seus diários que, ao envelhecer, perdeu a capacidade de fruição musical.

No Brasil, o maestro Tom Jobim (1927-1994) declarou que “odiava música” menos de um ano antes de morrer. A afirmação foi feita ao jornalista Matinas Suzuki Jr. no programa “Roda Viva”, da TV Cultura. Questionado se ainda ouvia música, Jobim respondeu: “Hoje em dia, eu detesto música. Eu odeio música”. Ele justificou o cansaço pelos anos passados em estúdio gravando e ouvindo a mesma faixa dezenas de vezes —o que especialistas poderiam classificar como anedonia temporária.

Classificar o compositor de “Insensatez” (feita em parceria com Vinicius de Moraes) como um “mau sujeito” devido a esse desabafo seria, ironicamente, uma completa insensatez. Portanto, antes de fazer um juízo de valor sobre pessoas que dizem não apreciar música, convém refletir para evitar conclusões simplistas, redutoras e ficar só.


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Autor: Folha

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