
Era maio de 1978. Lula estava liderando a sua primeira greve no ABC e eu havia ganhado minha primeira bola de capotão. Morávamos no Centro de São Paulo e só havia mais três meninos no prédio além de mim: Mário, do 2º andar, Marcelão, do 5º andar, e Marcelinho, do 3º andar.
Meu pai lia o jornal na sala. Lula — que naquela época ainda não usava barba, mas só um bigodão — dizia na matéria:
“Por mais que os trabalhadores acreditem na diretoria do sindicato, só há um meio de os ouvidos dos patrões atenderem às reivindicações da classe trabalhadora: máquinas paradas e braços cruzados”.
Décadas depois, vim a saber que não foi o Lula que começou aquela greve: o movimento surgira espontaneamente entre os operários. Lula só entrou na jogada depois, para negociar vantajosamente com os empresários. Mas naquele dia eu não estava interessado em questões sindicais; queria estrear a minha nova bola.
Levando-a cuidadosamente nos braços, como se fosse um bebê recém-nascido, desci para a minúscula quadra de cimento nos fundos do prédio.
Éramos todos palmeirenses e o nosso prédio se chamava Edifício Juréia. Em assembleia, havíamos decidido que nosso time se chamaria Jumeiras Futebol Clube (Jumeiras, naturalmente, uma aglutinação de Palmeiras com Juréia).
Começamos a peleja daquela tarde. Eram dois contra dois: eu e Mário contra Marcelão e Marcelinho. Mário era o mais velho de nós (tinha 10 anos); eu era o mais grosso. Marcelão era o mais forte, Marcelinho o mais habilidoso.
(Eu era muito melhor em astronomia do que em futebol; havia montado um Escritório de Observações Astronômicas no quartinho de despensa. Infelizmente, minha carreira de astrônomo não foi longe; com o céu nublado de São Paulo, observar estrelas era uma tarefa pouco recompensadora.)
A partida estava empatada sem gols quando houve uma falta para nós. Aproximei-me de Mário e supliquei:
— Posso bater essa?
Como eu era o proprietário da bola, meu companheiro de dupla viu-se moralmente obrigado a aceitar.
Era um futebol bastante peculiar o nosso. Só havia dois jogadores por time, e todos podiam usar as mãos como goleiros nos chutes dirigidos à meta. A propósito, o gol consistia em um retângulo riscado a giz na parede.
Fechei os olhos, fiz uma pequena oração e bati a falta. A bola se encaminhava para o ângulo, mas Marcelão deu um salto espantoso e espalmou para cima. Qual um satélite soviético, a esfera de capotão subiu, subiu, subiu, para depois iniciar a curva descendente e cair no quintal do vizinho.
O problema é que era domingo e não havia ninguém na casa ao lado, onde funcionava a redação de uma revista católica intitulada Convívio. Naquele dia, o único ser vivo presente na Convívio era o feroz pastor alemão cujos latidos ameaçadores sempre ouvíamos de nossos apartamentos.
No entanto, o risco de perder minha bola toldou-me a razão. Ajudado por meus incrédulos companheiros de time — eu não tinha nenhuma fama de valente —, que fizeram escadinha com as mãos, subi no muro e de repente me vi sobre as telhas da edícula vizinha. Mas, inábil como todo piá de prédio, escorreguei e caí de traseiro no chão do quintal da Convívio, milagrosamente incólume. O cachorro veio latindo em minha direção e eu já estava contemplando meu fim, quando inesperadamente uma porta se abriu.
Um jovem senhor de óculos, com sotaque espanhol, disse, em tom de autoridade:
— Para, Capeto!
O cachorro parou e o homem sorriu.
O nome daquele senhor — que por sorte estava escrevendo um artigo para a Convívio em pleno domingo — era Ricardo Vélez Rodríguez.
Ao lado de Capeto, que agora abanava amistosamente o rabo, Ricardo quis saber se eu estava bem, perguntou meu nome e devolveu-me a bola de capotão. Muitos anos mais tarde, nos tornaríamos amigos, e ele escreveria muitos livros importantes sobre o Brasil, inclusive “A Grande Mentira”, em que ele denuncia o projeto de poder totalitário de Lula e do PT.
Autor: Gazeta do Povo








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