Já que o STF decidiu imolar-se, resta salvar o que ainda tem futuro. No caso da amazônia, virar o disco permite escutar um lado B que nunca chama a atenção, em meio ao ruído vergonhoso das motosserras e ao crepitar criminoso do fogo: degradação florestal, que está em alta.
Quando se discutem formas de conter a destruição, o piloto automático só detecta desmatamento no radar. Estudo publicado na última quinta-feira (17) na revista Science, contudo, defende que combater a degradação pode ser tão ou mais vantajoso, em termos de custo-benefício, do que inibir o corte raso.
Não cabe entrar nos detalhes do artigo, proeza metodológica que tem Leonardo Miranda, da Universidade de Lancaster (Reino Unido), como primeiro de 19 autores —vários também brasileiros. Basta dizer que se baseia em dados de satélite para área de 30 mil km2 (cinco vezes a do DF) e entrevistas em 499 propriedades nas regiões de Santarém e Paragominas (PA).
Os cenários projetados serviram para comparar, em termos de estoque de carbono e manutenção de biodiversidade, os benefícios e custos de três tipos de intervenção: desmatamento evitado, degradação prevenida e restauração. A segunda só não foi melhor que sua combinação com a primeira, e a terceira é a que custa mais com menos benefício.
Degradação é o conceito menos familiar. Refere-se ao empobrecimento da floresta por corte de madeira sem técnicas de manejo e com abertura de estradas clandestinas, assim como por incêndios, intencionais ou não, e fogo rasteiro que varre a mata ao escapar de queimadas.
Pelo estudo, evitar desmate reduz em 28% a perda de biodiversidade (ocorrência de espécies biológicas) e em 60,8% as emissões de CO2 que turbinam o aquecimento global. Já impedir a degradação preserva mais a biodiversidade (68,5%) e menos o carbono (46,8%). Fazer restauração traz ganhos de apenas 6,5% e 14,7%, respectivamente.
Soa contraintuitivo que evitar derrubadas seja menos benéfico à biodiversidade que prevenir a degradação. Os autores presumem que isso decorre de serem as áreas em estudo já bem degradadas, contendo de partida menos espécies, ao passo que as mais intocadas têm mais a perder.
Incluindo na equação o custo de oportunidade em que incorrem proprietários ao não extrair madeira nem desmatar para plantar, assim como investimentos para prevenir fogo ou restaurar áreas desmatadas, as vantagens de evitar corte raso ou degradação sobrepujam, de novo, a restauração.
“O PPCDAm [Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal] já demonstrou ser capaz de reduzir o desmatamento“, diz Miranda, “e vimos as taxas aumentarem quando sua estrutura foi enfraquecida, durante o governo Bolsonaro, e voltarem a cair após sua retomada no atual governo Lula”.
Ele defende esforço semelhante para enfrentar em especial queimadas: “A Política de Manejo Integrado do Fogo é avanço importante, mas o desafio é transformá-la em capacidade permanente de prevenção, monitoramento e resposta rápida, fortalecendo brigadas, assistência técnica e ações que evitem pequenos focos se transformarem em grandes incêndios”.
Desperdice o primeiro voto quem acha que isso ocorrerá se a família voltar ao poder.
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Autor: Folha








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