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Analista de dados testa quanto custa virar mulher padrão – 14/04/2026 – Equilíbrio

Pouco mais de uma semana inteira de trabalho em tempo integral, com oito horas por dia, e um investimento de R$ 5.503. Esse foi o tempo que levou e o valor gasto no projeto de Marcela Cruz, 28, em março, para ser “bonita o suficiente para ganhar dinheiro só por ser bonita”.

A meta é migrar do emprego corporativo para a indústria da beleza e criar uma nova carreira. A analista de dados foi demitida no fim de 2025, após o terceiro burnout. “Segui um script, fiz tudo certo. Me formei em Física pela USP e com isso conquistei ansiedade e depressão“, brinca no vídeo em que anuncia o projeto, no final de fevereiro.

Agora, ela diz, vai aplicar os conhecimentos sobre negócios e método científico para responder a uma pergunta: quanto custa e quanto tempo leva para se tornar uma gostosa padrão e transformar isso em uma carreira?

O projeto padrão, como ela chama, começou a ser documentado no Instagram em fevereiro. A estratégia é perder gordura corporal, ganhar massa muscular, cuidar da pele, dos dentes e do cabelo enquanto mostra o progresso nas redes sociais uma vez por semana.

“Tudo isso vem do padrão de beleza que temos [nas redes sociais]. São pessoas um pouco mais musculosas, mais esguias, que têm esse cuidado com a pele e se apresentam de uma determinada maneira. Me inspirei nisso”, diz à Folha.

Para ser sincera com o público, ela definiu como regras não fazer cirurgia plástica nem usar anabolizantes. Cientista de formação, Marcela cita artigos científicos para justificar cada escolha. “Não tenho intenção de danificar minha saúde no meio do caminho”, diz.

Os gastos são publicados com planilha. Em fevereiro, foram R$ 3.726. No total, dois meses de projeto custaram R$ 8.503. O maior gasto na planilha foi emagrecimento, que incluiu consulta com endocrinologista e uso de Mounjaro, medicamento injetável. Já emagreceu 4,8 kg. Também entrou na conta um tratamento de clareamento dental. A cada vídeo, ela aconselha que os seguidores se consultem com um especialista.

Antes do projeto padrão, Marcela tinha 6.155 seguidores no Instagram. Hoje, tem 143 mil, com 5,7 milhões de visualizações e 250 mil curtidas acumuladas. Ainda não recebeu retorno financeiro, mas fechou dois contratos.

“O projeto padrão foi a minha tentativa de encontrar o nicho da internet que eu acho um dos mais lucrativos, que é o wellness [bem-estar] e estilo de vida. Então, eu tento fazer essa transição de nerd a gostosa, e trago a análise de dados”, diz Marcela.

O processo para virar uma influenciadora e ganhar dinheiro com publicidade foi bem estudado e calculado pela blogueira. Como precisava também fidelizar um público, optou por fazer um conteúdo seriado, a longo prazo. Os seguidores, diz, chegariam para ver até onde ela iria com o experimento e depois poderiam ser cooptados por outros dos seus conteúdos. Marcela fala também sobre neurodivergência —ela tem TOC e brinca que é “neuroconvergente”—, além de relacionamentos e carreira.

Como planejava trabalhar usando a própria imagem, já pensava em investir na própria beleza, diz a influenciadora, e aproveitou para monetizar esse processo.

“Eu sempre tive uma invejinha quando via essas pessoas que ganhavam a vida para ser bonita e ficar cada vez mais bonita”, diz ao ressaltar que as influenciadoras começam a ganhar patrocínio e fazer parcerias justamente em torno da beleza.

Quando publicou o primeiro vídeo com análise de dados, pensou que teria poucas visualizações. “Mas foi um dos vídeos que mais furou a bolha”, diz.

O projeto é, no fundo, um olhar por dentro da construção de uma influenciadora. É essa transparência que Marcela aposta como diferencial. Os vídeos mostram a consulta médica, o raciocínio por trás da caneta emagrecedora e o planejamento financeiro necessário para investir na própria imagem.

“Você recebe um vídeo [de influenciadoras de beleza] em uma rede social e pensa: ‘por que minha pele não é assim? A gente tem as mesmas 24 horas, por que eu não consigo?’. Porque existe um investimento enorme por trás disso que muitas pessoas não falam.”

A escolha de falar sobre isso, diz Marcela, é também política. O projeto desmistifica um padrão que se vende como acessível e que não é. “Essa dedicação em tempo e em dinheiro realmente não é acessível para a maior parte da população brasileira.”

Autor: Folha

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