A Uber já realizou mais de 17 bilhões de viagens no Brasil desde que chegou ao país, em 2014. Em pouco mais de uma década, o aplicativo se tornou parte da rotina de milhões de brasileiros e ajudou a criar um modelo de mobilidade baseado em uma característica simples: a plataforma conecta passageiros a motoristas que fornecem não apenas a mão de obra, mas também o veículo utilizado nas viagens.
A equação dessa dinâmica ajuda a explicar por que a chegada dos carros autônomos ao Brasil ainda deve demorar. No Brasil, mais de 140 milhões de pessoas já utilizaram o aplicativo pelo menos uma vez, cerca de 85% da população adulta. Mais de dois milhões de brasileiros geram renda por meio da plataforma, que já repassou mais de R$ 225 bilhões a motoristas e motociclistas parceiros.
Apesar desse tamanho, o Brasil não está entre os mercados que receberão primeiro carros autônomos da Uber, capazes de conduzir passageiros sem um motorista ao volante.
Recentemente a empresa anunciou uma parceria com a Rivian para colocar até 50 mil veículos autônomos em operação. A primeira fase prevê 10 mil carros, com início em San Francisco e Miami em 2028. A expansão deverá alcançar 25 cidades dos Estados Unidos, Canadá e Europa até 2031.
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A matemática para viabilizar os carros autônomos da Uber
Os motivos para o Brasil ter ficado de fora dos países que receberão carros autônomos da Uber passam pela conta que sustenta o negócio. Em entrevista ao podcast 20VC, Andrew MacDonald, presidente e diretor de operações da empresa, afirmou que Brasil e Índia estão entre os maiores mercados da empresa em volume de viagens. Segundo ele, a tarifa média no Brasil fica em torno de US$ 3,50 a US$ 4, enquanto na Índia está na faixa de US$ 2,50 a US$ 3.
Para MacDonald, serão necessárias décadas até que o custo da tecnologia autônoma caia a ponto de competir com o custo da mão de obra humana nesses mercados. Por isso, segundo ele, a maior parte das viagens da Uber só deverá ser autônoma quando a tecnologia chegar a países como Brasil e Índia, algo que ainda deve levar bastante tempo.
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Motorista banca maior parte da operação
A questão, porém, é mais complexa do que simplesmente comparar o preço de um motorista com o custo da tecnologia. Para Ricardo Bacellar, especialista automotivo e conselheiro para a indústria da mobilidade, o motorista da Uber também funciona como uma espécie de financiador da frota.
“No sistema atual, o motorista contribui com trabalho, sim, mas também capital. Em geral, é ele quem compra ou aluga o automóvel e assume depreciação, combustível, manutenção, limpeza, seguro e o risco de permanecer parado nos horários de menor demanda”, explica.
É justamente aí que está uma das principais dificuldades para a adoção dos carros autônomos da Uber no país. Ao retirar o motorista da equação, a empresa deixa de pagar pelo trabalho humano, mas passa a assumir uma estrutura muito mais intensiva em capital. A empresa ou seus parceiros teriam de arcar com veículos, sensores, computadores, softwares, manutenção, seguros, infraestrutura e depreciação.
“O carro autônomo elimina o motorista ao volante, mas ao mesmo tempo transforma uma estrutura pouco intensiva em capital em uma operação baseada em ativos caros, que se depreciam mesmo quando estão parados”, afirma Bacellar.
Nos Estados Unidos, onde motoristas são mais caros e há maior escassez de mão de obra, a substituição pode gerar uma economia mais significativa. No Brasil, com tarifas mais baixas e mão de obra relativamente barata, a vantagem econômica é menor.
A expansão de carros autônomos no Brasil também depende de outros fatores. O país ainda precisa avançar em regulamentação, infraestrutura e testes para criar as condições necessárias para a operação comercial de veículos sem motorista.
Para Bacellar, o maior risco não é o carro autônomo demorar a chegar ao Brasil, mas a tecnologia se tornar economicamente viável em outros mercados e o país ainda não estar preparado para recebê-la. A estimativa do especialista é que projetos-piloto no país não ocorram antes de 2035 e que uma presença comercial mais ampla nas grandes capitais possa levar de dez a 15 anos.
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Interesse por carros autônomos cresce, mas oscila no Brasil
Dados do Google Trends mostram que as buscas por “carros autônomos” no Brasil cresceram 20% nos últimos cinco anos. O interesse, porém, está longe de ser constante: atingiu o pico histórico entre o fim de 2024 e o início de 2025, quando chegou a 100 pontos, e desde então passou a oscilar em ciclos de alta e queda.
** Esta reportagem faz parte de uma parceria com o Google, que apoia projetos jornalísticos baseados em dados do Google Trends. A apuração é de responsabilidade exclusiva da Gazeta do Povo, sem qualquer interferência editorial do Google.
Autor: Gazeta do Povo








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