Céline Dion, portadora da síndrome da pessoa rígida, que provoca espasmos violentos, limita os movimentos e às vezes a fala, lutou para conseguir voltar aos palcos. A estrela canadense, ídolo dos franceses, anunciou 16 shows entre setembro e outubro de 2026 em Paris e mais dez apresentações em maio de 2027. A preparação para esse ritmo acelerado de shows é rigorosa.
Em dezembro de 2022, Céline Dion se abriu nas redes sociais: a estrela, originária de Quebec, parte francesa do Canadá, explicou que seria obrigada a adiar ou cancelar diversas datas de sua turnê de 2023. A causa era uma patologia da qual ela sofre e que acabara de ser identificada: a síndrome da pessoa rígida.
“Às vezes tenho muita dificuldade para andar, e nem sempre consigo usar minhas cordas vocais para cantar como eu gostaria”, explicou. Doença rara, a síndrome provoca crises de espasmos e uma rigidez progressiva dos músculos. Todas as partes do corpo podem ser afetadas.
“Eu já tive costelas quebradas”, confidenciou Céline Dion em 2024 à NBC, ao ilustrar a violência que os espasmos incontroláveis podem alcançar.
É impossível prever o aparecimento dos espasmos, que podem ser desencadeados por uma infinidade de fatores imperceptíveis: um barulho muito alto, uma emoção inesperada, ou simplesmente o estresse, ou o cansaço.
Apesar das dificuldades, a diva anunciou em 30 de março de 2026, no dia de seu 58º aniversário, seu grande retorno aos palcos, e escolheu Paris: vai se apresentar na Paris La Défense Arena, a partir de 12 de setembro, a um ritmo de um show a cada dois ou três dias.
Melhores profissionais à disposição
A cantora já havia voltado à ativa no verão de 2024, em um dos palcos mais celebrados do mundo: a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Paris. Brilhante e toda vestida de branco, ela cantou sem vacilar “L’Hymne à l’amour”, de Édith Piaf, dominando a multidão a partir do primeiro andar da Torre Eiffel.
A apresentação foi um desafio não só para ela, mas também para toda a organização da cerimônia. “Nós não sabíamos, até o último momento, se ela conseguiria, e ela também não”, confidenciou Thomas Joly, diretor artístico do evento, no documentário “La Grande Seine”.
Para seu grande retorno em setembro, a neurologista de Céline Dion, Amanda Piquet, assegurou à emissora France Inter que a estrela “trabalhou muito para combater a doença”. “Para mim, ela está pronta. Ela continua sendo a diva que todo mundo conhece”, disse a médica especialista no tratamento da síndrome da pessoa rígida.
Céline Dion está “extremamente bem cercada e dispõe de todos os recursos” necessários para seguir se apresentando, observa Aline Jaillet, coach vocal e ex-cantora lírica. Imunoterapia, osteopatas, fisioterapeutas, tratamentos medicamentosos específicos: ela conta com os “melhores profissionais possíveis”, salientou a coach.
Trabalho da voz
Resta ainda recuperar a confiança em sua ferramenta de trabalho: a voz. “As pessoas que precisam de acompanhamento para a voz vivem isso sempre de forma bastante difícil”, explica Hélène Massis, fonoaudióloga e doutoranda no laboratório de fonética e fonologia da Universidade Sorbonne Nouvelle. “É sempre um trauma.”
“As cordas vocais, a laringe e a deglutição são controladas pelos músculos do tórax”, descreveu em março de 2025 Amanda Piquet. “Toda vez que Céline Dion fala, respira ou canta, ela pode ter uma restrição na forma como expande o tórax devido aos espasmos e à rigidez muscular.”
Para reconstruir bases vocais sólidas, apesar da doença, a cantora provavelmente teve de implementar todo um processo de reeducação. Para qualquer apresentação vocal, é preciso manter um ciclo de “equilíbrio entre o repouso vocal e o uso da voz”, aponta Hélène Massis.
“Estamos mais ou menos em uma proporção de uma hora de silêncio para duas horas de fala intensiva”, aponta ela.
Além disso, cantoras como Céline Dion, que “alcançam notas bastante extremas”, realizam uma interpretação física e mobilizam muitos músculos, sobretudo “todos aqueles das costas, que vão exigir muito em termos posturais”, observa Hélène Massis.
Assim, a cantora recorre certamente a “massagistas, supõe a especialista, pois a voz também se trabalha por meio de massagens que podem ser internas, para tentar relaxar os músculos de todo o tronco, da garganta ou do rosto”.
Como os espasmos podem, em tese, afetar qualquer parte do corpo, “o menor grão de areia nesse mecanismo que normalmente funciona muito bem pode perturbar completamente uma pessoa que faz um uso profissional tão intenso da voz”, acrescenta a fonoaudióloga.
Preparação física e mental
As profissionais entrevistadas também pressupõem que a cantora deve ter feito um trabalho corporal mais amplo para colocá-la nas melhores condições possíveis e permitir que ela faça shows intensos. Técnicas suaves de mobilidade, como o método Feldenkrais, indica Aline Jaillet, podem proporcionar uma “recuperação da fluidez corporal” benéfica nesse tipo de caso.
A esses exercícios de reeducação, pode se somar outro tipo de massagem, mais relaxante, ao qual recorrem muitos atletas, complementa Massis. “Vamos trabalhar a abertura, a amplitude da boca, mas também a amplitude da garganta, com muitos exercícios respiratórios que são favoráveis ao relaxamento.”
Somam‑se ainda exercícios de visualização mental, como os de “uma velocista que repete 150 vezes a corrida na cabeça” antes da competição, detalha Aline Jaillet, que acredita que a cantora deva passar “muito tempo trabalhando em silêncio para não se cansar”.
Evoluir em condições propícias, nas quais os fatores de risco são rigorosamente reduzidos, revela‑se tão primordial quanto a reeducação e o repouso. Assim, variações importantes de temperatura devem ser evitadas, seja para preservar a voz ou para evitar crises ligadas à síndrome, considera Hélène Massis. O mesmo vale para aparelhos de ar‑condicionado ou ventiladores, “que ressecam completamente a voz”, prossegue a especialista.
‘Todo mundo compreende’
Céline Dion “acumulou uma técnica de tão alto nível” que continua, apesar de qualquer patologia, “uma máquina de cantar”, insiste Aline Jaillet. A coach vocal defende que não “seria vergonhoso” se a cantora decidisse “sustentar artificialmente sua voz” durante as apresentações, para garantir que conseguirá manter o ritmo ao longo de toda a temporada. A decisão seria ainda mais compreensível considerando que a diva já provou tantas vezes a extensão de suas capacidades vocais.
“Ela certamente perdeu um pouco de potência e amplitude vocal. Toda a adaptação de palco foi feita em torno disso. Ela cantava com certos microfones, com determinados ajustes, que devem ter sido modificados”, nota a fonoaudióloga. “Mesmo durante o show, talvez haja pequenos momentos de descanso que vão ser maiores do que aqueles que ela fazia antes.”
Nada que abale o espetáculo, salienta a profissional, ao apostar que os espectadores que forem assistir à canadense cantar serão compreensivos com a situação.
Autor: Folha








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