A vitória do amistoso do Brasil contra o Egito no último sábado foi o último jogo da seleção antes da estreia na Copa do Mundo, contra o Marrocos. O amistoso gerou debate esportivo nas redes sociais e grupos de WhatsApp, onde foram comentados o gol de Bruno Guimarães e de Endrick, o recuo de Marquinhos que abriu espaço para o gol do Egito e também a ausência de Rayan no campo mesmo após seu gol no último jogo contra o Panamá. O engajamento durante esse último amistoso marca um prelúdio de como vai ser concentrada a atenção dos brasileiros nos quase 40 dias de Copa do Mundo.
Na análise de mais de 100 mil grupos públicos de WhatsApp monitorados pela Palver, é possível notar que por três horas a partir do início do jogo toda a discussão sobre política foi reduzida e perdeu atenção. Olhando isoladamente apenas os temas de política e futebol, é possível medir quanto de atenção os usuários concedem para cada tema a cada hora. Pela manhã de sábado, Lula e Flávio Bolsonaro somavam juntos por volta de 86% da atenção dos grupos, enquanto a seleção ocupava 14%. Às 19h, com o apito inicial, o quadro se inverteu e a seleção saltou para 76% das menções. Lula caiu para 17% e Flávio para 7%. O volume total de mensagens dobrou em uma hora, com diminuição da discussão política e aumento do debate sobre futebol.
Essa pausa na discussão sobre política durou exatamente o tempo do jogo. Às 23h, a política retomou a maioria, com Lula e Flávio somando 66% do total de atenção. No dia seguinte, a política voltou a dominar o dia inteiro, com os presidenciáveis somando entre 75% e 86% na maior parte das horas. A Copa abre o último ciclo de deslocamento de atenção massiva antes das convenções partidárias, e o comportamento das redes durante o jogo contra o Egito sugere que essa janela de pausa narrativa se abrirá com maior robustez durante a Copa do Mundo.
A seleção brasileira é o único dos três polos monitorados com mais aprovação que rejeição no agregado da semana, com 57% positivo contra 43% negativo nas menções com sentimento. Lula segue em rejeição estrutural de 80%, sem alteração relevante no dia do jogo. Flávio tem 41% positivo contra 59% de rejeição, carregado em parte pela discussão sobre as tarifas dos Estados Unidos e o Pix.
A discussão sobre a seleção teve foco completo no futebol e nos acontecimentos do jogo. As linhas dominantes foram o recuo de Marquinhos, a polêmica sobre Rayan deixado no banco, a saída de Wesley após a lesão durante o jogo e a avaliação positiva de jogadores como Endrick, Bruno Guimarães e Raphinha. Também foi possível analisar que quem falou de futebol não falou de política, e quem fala de política falou menos durante o jogo.
A interseção entre os universos do futebol e da política é praticamente nula nos dados. A análise dos usuários mais ativos da semana mostra que a militância política mais engajada não invade a discussão sobre futebol. Ou seja, a discussão sobre o jogo foi puxada por outros usuários, que se interessam mais pelo esporte e não têm tanto interesse em política. Isso mostra que, pelo menos na última semana, política e futebol não se misturaram. Além disso, o debate geral sobre a política foi abaixo do normal durante as horas do jogo, o que indica que não foi apenas uma substituição de temas, mas que os usuários mais militantes conversaram menos durante os minutos do jogo.
É razoável imaginar que a intensidade de atenção durante a Copa do Mundo será maior do que a que vimos durante o amistoso. Seguindo essa premissa, os dados sugerem que a Copa do Mundo abre uma janela política para as pré-campanhas. A capacidade de mobilização política será reduzida, mas ao mesmo tempo abre-se espaço para as equipes de comunicação das pré-campanhas se reorganizarem e alinharem melhor o discurso. Isso pode ajudar, principalmente, a reduzir a pressão sobre a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro, que enfrentou dificuldades na comunicação nas últimas semanas envolvendo o áudio com Vorcaro, a “tarifa do Pix” de Trump e, de forma secundária, a discussão sobre o fim da escala 6×1.
Além disso, a fronteira entre futebol e política é mantida pelo próprio eleitor, que separa os universos sem precisar de coordenação. Se algum campo buscar politizar a Copa, terá que produzir essa politização de forma deliberada, contra a inércia de uma audiência que separa intuitivamente os dois espaços. Isso apresenta riscos de redução da janela de atenção criada pela Copa e pode converter quatro semanas de atenção massiva tanto de forma positiva quanto negativa, e definir o início da corrida presidencial.
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Autor: Folha




















