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Copa do Mundo: posse de bola não é sinônimo de sucesso – 20/06/2026 – Coluna FolhaStats

Nos quadros de resumo das partidas, sempre aparece o “% de posse de bola” de cada seleção. Pode dar a impressão de que quanto maior o número, melhor o time jogou. Mas isso está longe de ser verdade. E o Brasil pode até se beneficiar dessa realidade.

Entre as dez seleções com mais chances de título segundo o modelo da Opta (França, Argentina, Espanha, Inglaterra, Alemanha, Brasil, Portugal, Estados Unidos, Noruega e Holanda), o Brasil teve a segunda menor posse de bola na estreia, com 51,4% no empate com Marrocos, à frente só da Argentina (47,8%).

No segundo jogo, diante de um frágil Haiti, a posse subiu para 56,7%. Não é tanto se compararmos, por exemplo, com a Alemanha, que chegou a 64,6% contra Curaçao (83° no ranking da Fifa, próximo ao Haiti, 87°). Os alemães venceram por 7 a 1.

Mas a própria Copa vai relativizando a importância da posse de bola. Portugal teve 75,4% contra a RD Congo e não saiu do empate em 1 a 1. A Espanha, com 74,3% diante de Cabo Verde, nem conseguiu marcar.

Se a Alemanha goleou com posse de bola acima de 60%, a França encantou contra Senegal com apenas 53,4%. Outra que brilhou, a Inglaterra teve 51,7% (mas, justiça seja feita, o adversário era a Croácia, num embate mais difícil de manter uma grande posse).

A Copa vem confirmando estudos dos últimos anos. Trabalho publicado em 2023 na revista Pedagogy of Physical Culture and Sports, que analisou as 64 partidas da Copa do Qatar, concluiu que finalização certeira e eficiência ofensiva —não posse de bola— foram mais associadas a vitórias. O efeito da posse de bola apareceu, na verdade, como indicador de equipes mal sucedidas (junto com grande número de cruzamentos e escanteios sofridos).

Por que um time escolhe jogar com muita posse de bola? Um dos principais motivos é defensivo. Se controla a bola, há menos chance de levar o gol.

Como tudo, o diferencial entre sucesso e fracasso é a execução. Em 2010, a Espanha executou com maestria o jogo com bola (66% em média) e foi campeã. Em 2014, com fórmula parecida, caiu na primeira fase.

A posse de bola costuma descrever como uma equipe joga, mas não necessariamente o quão bem joga.

Há ainda outra nuance a considerar. Estudo publicado em 2025 na revista científica Sports, com dados da Eurocopa e da Copa América de 2024, mostrou que as seleções europeias tendem a valorizar mais a posse de bola (condizente com Espanha e Portugal neste Mundial), enquanto as sul-americanas preferem transições rápidas (também condizente com os dados de Argentina e Brasil nesta Copa).

Apesar dessa diferença marcante de estilo, a posse de bola não teve relação estatisticamente significativa com o número de gols em nenhum dos dois torneios: ambos os estilos podem ser vencedores quando bem executados.

O mesmo estudo cita que a forma rápida dos sul-americanos tende a exigir mais fisicamente dos jogadores, que precisam de mais explosão e velocidade (seria parte da explicação para as lesões de Estêvão, Raphinha e até de Neymar?).

À parte o risco de lesão, esse parece ser o caminho do time de Carlo Ancelotti. A ver nos próximos jogos a efetividade desse estilo, que contra o Haiti se beneficiou de mais uma atuação decisiva de Vinicius Junior (que teve participação direta em 3 dos 4 gols da seleção nestes primeiros dois jogos, feito obtido por brasileiros neste século apenas por Rivaldo em 2002 e Elano em 2010, aponta a Opta).


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Autor: Folha

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