O varejo brasileiro terminou o primeiro semestre com 986 empresas em recuperação judicial, alta de 20,4% em um ano, segundo levantamento da RGF Associados. Os pedidos recentes de Casas Bahia e Marabraz são os exemplos mais conhecidos de uma crise que atinge empresas de diferentes segmentos e tamanhos.
Para fontes ouvidas pela Gazeta do Povo, entre os principais fatores por trás da crise está o ciclo de crédito restritivo: juros altos, crédito escasso e endividamento elevado corroeram o poder de compra das famílias e o fôlego financeiro das redes.
A 14% ao ano, a taxa básica de juros está em um nível considerado restritivo para a economia e encarece o acesso ao crédito. Para o varejo, o impacto ocorre dos dois lados do balcão: o consumidor encontra mais dificuldade para parcelar as compras, enquanto as empresas pagam mais caro para financiar estoques, capital de giro e dívidas.
Como consequência, as vendas no varejo encolhem há 14 meses seguidos, segundo a Cielo. Já o endividamento das famílias brasileiras atingiu o recorde de 82% em julho, segundo dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) divulgada pela CNC.
A recuperação judicial, entretanto, é apenas a parte visível da crise. Muitas empresas pequenas nem chegam a recorrer ao mecanismo e simplesmente fecham as portas. Segundo o levantamento, o varejo registra 686 empresas em falência e 986 em recuperação judicial, uma relação de uma falência para cada 1,4 empresa em recuperação – a maior proporção entre os grandes setores.
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De Casas Bahia a Polishop e Tok&Stok: varejistas em recuperação judicial
O cenário econômico mais crítico levou a Casas Bahia a pedir recuperação judicial no último domingo (16). O objetivo é reestruturar o passivo de R$ 17,3 bilhões, preservar o caixa e viabilizar a monetização de ativos, mantendo a continuidade das operações.
O presidente da empresa, Renato Franklin, justificou a decisão dizendo que, apesar da melhora na operação, os resultados não foram suficientes para compensar os altos custos financeiros. A situação também foi agravada pelo crédito mais restrito e pela dificuldade de captar recursos no mercado, em meio à piora do cenário econômico e geopolítico.
Quem seguiu caminho parecido foi o Grupo Toky, dono das redes Mobly e Tok&Stok. A 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais do Foro Central Cível de São Paulo deferiu o pedido em meados de junho. Com dívidas de mais de R$ 1,1 bilhão, o grupo argumentou que o cenário econômico adverso agravou sua situação financeira.
A rede de supermercados St. Marche também teve a recuperação judicial concedida no final de junho. O aperto de caixa e a redução de prazos de pagamento a fornecedores levaram a empresa a buscar a medida. Com 32 lojas e atuação no segmento de alto padrão em São Paulo, a rede tinha um passivo de R$ 188 milhões no final de 2025.
A pressão no caixa por conta dos juros altos também levou a Casa & Vídeo a pedir recuperação judicial no final de abril. A rede, sediada no Rio de Janeiro e com cerca de 300 lojas, argumenta na ação protocolada na 1ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro que enfrenta uma crise causada por fatores externos, mas que a operação continua viável.
Já a Polishop pediu recuperação judicial em maio de 2024 com passivo de R$ 395 milhões. A justificativa foi a queda na demanda por produtos domésticos voltados a faixas de renda mais alta, o encarecimento do crédito motivado pela alta da Selic e as dificuldades para importar mercadorias da China.
Redes tradicionais lidam com desafio de acompanhar o e-commerce
Segundo Cláudio Santos, sócio da Galeazzi Associados, além dos fatores macroeconômicos, a lentidão em acompanhar as novas demandas digitais do consumidor prejudicou parte das redes tradicionais.
Entre 2020 e 2025, o faturamento do comércio eletrônico brasileiro cresceu 86,3%, passando de R$ 126,45 bilhões para R$ 235,52 bilhões, segundo dados da Associação Brasileira de Inteligência Artificial e E-commerce (ABIACOMM).
Já uma pesquisa da Fecomércio-PR realizada para o Dia das Mães e o Dia dos Namorados mostrou que o varejo físico perdeu participação nas intenções de compra entre 2025 e 2026, enquanto as compras pela internet ganharam espaço.
No Dia dos Namorados, a intenção de comprar pela internet aumentou de 29,6% para 35%, enquanto o comércio de rua, considerando lojas do centro e dos bairros, recuou de 33,6% para 29,4%.
No Dia das Mães, o movimento foi semelhante. As compras pela internet cresceram 8,6%, enquanto o comércio de rua perdeu 2,6% de participação.
Para Santos, parte das redes varejistas conseguiu se adaptar ao comércio eletrônico, mas outras falharam em acompanhar a tendência. Ele aponta a Marabraz, que permaneceu dependente de uma estrutura tradicional de lojas físicas, como exemplo de uma rede que não conseguiu acompanhar a mudança.
A Casa & Vídeo foi outra a enfrentar forte pressão do comércio eletrônico. Embora as vendas digitais crescessem, respondiam por apenas 16,1% da receita total, mantendo a empresa fortemente dependente das lojas físicas.
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Autor: Gazeta do Povo








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