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Dá para confiar no sub-2h da maratona? – 01/05/2026 – Marina Izidro

“Histórico” é a palavra que mais tenho implicância no jornalismo. Banalizada, é usada para descrever momentos que não o são. Quando algo realmente é histórico, parece que perde sua força.

Quebrar a marca mágica da maratona dá ao autor do feito o merecimento de receber essa definição. Pela primeira vez na história alguém correu a distância da prova, em um evento oficial, abaixo de duas horas. O dono da façanha é o queniano Sabastian Sawe, que completou a Maratona de Londres, no domingo (26), em 1h59min30s. Meu ídolo no atletismo, Eliud Kipchoge, correu em 1h59min40s em 2019, mas foi em uma prova feita especialmente para a quebra do recorde e não valeu oficialmente.

Há décadas, os quenianos nos deixam maravilhados com sua capacidade sobre-humana de correr rápido. Muito rápido. Uma potência nas longas distâncias, com uma mistura perfeita de genética, condições geográficas ideais de treinamento, alimentação e estilo de vida.

Só que, ultimamente, este encantamento tem sido manchado por muitos casos de doping no atletismo. Eu, amante da corrida, achei incríveis o recorde mundial e o sub-2h de Sawe, mas pensei: dá para confiar nesse recorde?

Sawe nunca falhou em um teste antidoping. Deixando a culpa de lado, fui olhar os números envolvendo os quenianos e o uso de substâncias proibidas.

O vencedor da maratona de Nova Iorque em 2021, Albert Korir, foi banido por cinco anos. A atual recordista mundial no feminino, Ruth Chepngetich, por três. O ex-recordista mundial Wilson Kipsang, a campeã olímpica no Rio-2016 Jemima Sumgong, o vencedor da maratona de Londres em 2017 Daniel Wanjiru —todos suspensos por doping. A lista segue, e inclui ganhadores de Boston e Chicago, além de “coelhos” que ajudaram Kipchoge no sub-2h em 2019.

Em um país pobre e com talento de sobra, o doping se tornou um atrativo para corredores seduzidos por altas premiações e em busca de um futuro melhor. A agência antidoping do Quenia só foi criada em 2016, depois de o país quase ser banido dos Jogos do Rio. Em 2017, o órgão internacional AIU (Athletics Integrity Unity) foi criado para combater casos no atletismo.

Sawe faz algo louvável. Ele e sua equipe procuraram a AIU e pediram para que ele fosse testado o máximo possível antes da maratona de Berlim de 2025, para que ninguém duvidasse de sua performance. Estima-se que tenha sido avaliado a cada três dias, e testes frequentes continuam em 2026.

É fato também que, desde a invenção dos tênis de placa de carbono em 2016, entramos em uma nova era na maratona. Recordes mundiais despencaram —o tempo de Sawe é mais de dois minutos mais rápido do que o de Kipchoge em 2018. Nutrição, tecnologia avançaram. Se eu, mera mortal, investi em um tênis tecnológico e em géis de carboidrato para conseguir meu suado sub-4h na maratona de Londres dois anos atrás, por que um atleta profissional não usaria? É, na verdade, graças a esses competidores, que esses modelos depois chegam às prateleiras das lojas.

Uma frase que ouço muito no esporte é que “o doping sempre está à frente do antidoping”. Para nós, amantes da corrida, fica sempre a esperança de que recordes e marcas históricas sejam fruto apenas de dedicação e extremo talento. Isso, no Quênia, nunca vai faltar.


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Autor: Folha

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