“A qualidade das nossas relações determina a qualidade das nossas vidas.” A frase resume o trabalho da belga Esther Perel, 68, psicoterapeuta, escritora e apresentadora do podcast de relacionamentos “Where Should We Begin?” (Por onde devemos começar?, na tradução para o português), disponível no Spotify.
Em 2026, celebra 20 anos do livro best-seller “Sexo no Cativeiro” (Objetiva) e atuou como consultora no desenvolvimento da história e dos diálogos do filme “O Convite“, dirigido por Olivia Wilde. Participou no último dia 9 da abertura do festival de criatividade e inovação SP2B, em São Paulo.
Duas décadas depois do lançamento da obra em que trata da diminuição do desejo o casamento, ela diz que um dos cativeiros de hoje é o próprio eu —um eu que se cuida, se aprimora e se otimiza sem descanso, na ilusão de que, uma vez pronto, estará enfim apto a amar.
Essa busca solitária por autoaperfeiçoamento, observa, tem produzido o oposto do que promete. Resulta em mais solidão e insegurança, contaminado o afeto com a lógica da produtividade, em que passamos a tratar a nós mesmos e ao outro como produtos a otimizar.
A saída que ela propõe é contraintuitiva: a reconstrução da vida íntima passa pela vida coletiva. Perel alerta, sobretudo, para o resgate das experiências compartilhadas. “Em vez de marcar um jantar para conversar, convide o outro para uma experiência, como uma aula, um esporte, uma exposição ou um show.”
Passados 20 anos de “Sexo no Cativeiro”, eu queria devolver a você a sua própria metáfora: quais são os cativeiros contemporâneos dos relacionamentos hoje? Quando lancei o livro, me interessava como o desejo sobrevive à vida doméstica, aos filhos, o verbo era como “sustentar”. Hoje o verbo mudou, é “acender e reacender”, manter desperto, vivo, pulsante.
O novo cativeiro é uma vida cada vez mais produtiva e desencarnada: numa rotina mediada por telas, sem toque, a paisagem digital vem achatando nossa fisicalidade, atrofiando os sentidos e inibindo nossa habilidade de lidar com o diferente. Falta atrito, falta alteridade, não convivemos com gente suficientemente diferente de nós.
Vivemos um momento de atrofia social, pois além de diminuirmos contextos de contato perdemos profundidade no íntimo e no coletivo. E, sem profundidade, perdemos a presença, que é o que nos faz sentir vivos. Como resgatar qualidade de presença e vivacidade são meus grandes temas de trabalho atualmente.
A pesquisa “Raio-x da vida afetiva: como o brasileiro vive e o que quer do amor 2025–2026“, que conduzi com mais de mil brasileiros, mostrou que a maior violência nas relações é a presença ausente: dividimos o mesmo cômodo, mas cada um no seu celular, sem se tocar. Parceiros tornaram-se microempresas funcionais, mas sofrem exatamente por esta falta de presença, que erode o vínculo romântico. Como reconstruir a intimidade? A pergunta talvez não seja como reconstruir a intimidade, e sim como reconectar as pessoas com a própria sensação de estarem vivas.
Conhecer bem o outro não é suficiente numa rotina com cada vez mais achatamento dos sentidos e sentimentos. A suposta boa convivência é nociva, não tem intencionalidade. É o que a psicóloga Pauline Boss chamou de perda ambígua: um luto contínuo ao perceber que o outro está fisicamente presente, mas ausente.
A cena se repete: um vê TV e mexe no celular, o outro faz o mesmo; um diz algo importante, o outro responde “ahãm”. Estamos no mesmo cômodo, mas não juntos. Isso não se resolve mudando a dinâmica do casal.
Para melhorarmos as relações íntimas é preciso mudar a relação com o coletivo. Criar situações em que as pessoas sejam de novo convocadas a se entregarem umas às outras. Reunir as pessoas de novo, em grupos pequenos que convidam à atenção. E, com a atenção, vem o afeto.
Você diz que a vitalidade mora fora da esfera íntima, no encontro com o diferente, justamente o convívio que estamos perdendo. Como recuperá-lo? Já há grandes estudos sobre o poder de conversar com estranhos: todo mundo deveria conversar 15 minutos por dia com um desconhecido —no ônibus, no metrô, no avião. Se você arranca um sorriso desse estranho, o seu cortisol cai e a sua felicidade sobe.
Mas entendo que a vitalidade se resgata quando esse contato vai além da conversa, da troca de palavras. É por meio de experiências compartilhadas que nos sentimos presentes e vivos. Que tragam de volta o corpo, os sentidos. A experiência vai além do sentimento: é ação, história e ritual. Por isso meu convite é: troque o “falar com” pelo “fazer com”. Em vez de marcar um jantar para conversar, convide o outro para uma experiência, como uma aula, um esporte, uma exposição ou um show.
Você estuda os efeitos da metacrise nas relações. Nós, brasileiros, somos o povo mais ansioso do mundo, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde). Como se abrir e confiar na esfera íntima num mundo cada vez mais inseguro, imprevisível e ansiogênico? Para haver confiança numa sociedade, é preciso ter verdades e narrativas compartilhadas, mas estamos perdendo isso. Hoje há a sensação de ser manipulado por um algoritmo a ponto de você não saber se a sua decisão ainda é sua. Vejo uma imagem e não sei se é real, leio um texto e não sei quem o escreveu. Estamos o tempo todo checando a realidade —e essa necessidade crescente de certezas é onde mora a ansiedade.
Mas é preciso olhar além do indivíduo. Tratamos como problemas individuais de saúde mental o que são, na verdade, sintomas sociais. A ansiedade, a solidão, a exaustão não são apenas falhas privadas a serem medicadas ou trabalhadas na terapia. São respostas a um mundo que nos atomiza, que desfez os laços coletivos e transformou experiências que antes nos uniam em experiências que nos isolam.
Vivemos também o que se chama de metacrise, as crises que se sobrepõem e se retroalimentam, como a instabilidade econômica, a emergência climática, a enxurrada de informação, a desconfiança nas instituições. O resultado é um ambiente permanentemente ansiogênico, em que tudo parece incerto e fora do controle. Diante disso, tentamos recuperar alguma segurança medindo e otimizando cada canto da vida: o sono, o corpo, a produtividade, até os afetos. No entanto, quanto mais medimos, mais inseguros ficamos, porque transformamos os vínculos, imprevisíveis por natureza, em métricas a controlar. A ansiedade que sentimos, na maioria das vezes, não é um defeito individual: é a resposta emocional a um mundo que ficou instável, acelerado e sem chão comum.
Quando tentamos resolver com o autocuidado um problema que é social e coletivo, ficamos ainda mais sozinhos. A lógica do mundo é que está adoecida, e não há autoaperfeiçoamento que cure aquilo que só se resolve no vínculo e na mudança das dinâmicas sociais.
Um em cada quatro brasileiros já foi vítima de monitoramento abusivo pelo celular, sob o argumento de que “preciso saber de tudo para confiar”. Como se constrói a confiança no não saber e na falta de certezas? Se você precisa saber, não está confiando. Como diz a escritora Rachel Botsman, confiança é um engajamento ativo com o desconhecido. É um salto de fé. Quanto mais você vigia, mais alimenta a ideia de que não há confiança possível e de que é preciso controlar. Confiar é conseguir viver com o que você não sabe.
É possível sustentar o não saber numa sociedade que oferece cada vez mais ferramentas de controle? Se medimos até o sono e a glicose, como não cobrar das relações a mesma previsibilidade? Medir, hackear, rastrear tudo é algo muito novo e sedutor. O perigo é que glicose e relacionamento não são a mesma coisa. A resposta típica das pessoas é “quero me sentir segura”. E a minha é: segurança sem vitalidade é outra forma de restrição.
Qual é o impacto da inteligência artificial nessa busca por certezas absolutas e nas relações humanamente imperfeitas? Usar a IA como ferramenta relacional não é necessariamente ruim: pedir ajuda para escrever uma carta melhor pode evitar que você exploda. Outra coisa é quando o motivador é “não quero duvidar, não quero ter medo, não quero sentir culpa”, como se os sentimentos não fossem experiências a viver, mas ativos a administrar, medir e descartar. Estamos nos tratando cada vez mais como produtos, e isso não é só a IA: é capitalismo emocional. Importamos o vocabulário do mercado, como custo-benefício e retorno sobre investimento, para dentro do afeto. E, se eu preciso ser impecável, não consigo aceitar a imperfeição e a bagunça do outro.
Para não lidar com essa imprevisibilidade, nos voltamos para dentro e idealizamos o amor-próprio. Até que ponto o autodesenvolvimento virou uma defesa contra a conexão? É um sintoma da atomização: cada um sozinho, trabalhando em si, na esperança de que, uma vez pronto, poderá procurar alguém. O filóforo Martin Buber dizia que é na presença do outro que você se descobre. Você existe porque é visto, não como Narciso diante do próprio reflexo. E o que me choca é que isso chegou também ao Brasil. Vocês eram uma das sociedades mais relacionais que já existiram, e vê-los adoecer como as sociedades mais puritanas e atomizadas é chocante.
O contrassenso é que, por mais que se invista em “ser uma melhor versão”, estamos nos sentindo cada vez pior. O maior medo do brasileiro no amor, segundo a pesquisa Raio-x, é “não ser suficiente”. É uma conta que nunca fecha: quanto mais me aprimoro, menos suficiente me sinto. Por quê? O “não ser suficiente” é recentíssimo. É filho do hiperindividualismo, em que eu sou um produto que preciso aperfeiçoar para que você me compre. Essa mercantilização esvazia as pessoas: preciso me consertar, me esculpir até uma perfeição apolínea. E quem precisa dessa perfeição não consegue dizer “estou com medo”. Medo é não estar no controle, é “com quem posso contar?”, é “eu importo?”. E isso não se diz cercado de gente que talvez não se importe. O trauma não é só o que acontece com você, é o que acontece na ausência de uma testemunha empática.
Quando não conseguimos mostrar o medo, o reflexo vira ataque? A polarização, a mesma dos extremismos políticos, chegou ao quarto, num “eu vs. o outro” ou “nós contra eles”? Vou responder pelo micro. Existe uma dinâmica chamada dependência hostil: estou chateada, mas só me sinto melhor se você mudar —e você não vai mudar. Então fico mais brava, sentindo que a culpa é sua, e passo a depender de você para me sentir bem. Quanto mais brava fico, menos você muda; quanto menos muda, mais eu dependo. É uma das clássicas “danças da culpa”. A saída é parar de perguntar “o que o outro está fazendo comigo?” e perguntar “qual é a menor coisa que eu posso mudar nesta dança?”.
Você aponta o erro de atribuição como uma das fontes desse distanciamento e do conflito nas relações. Em que consiste? É uma dinâmica em que damos muita margem a nós mesmos e quase nenhuma aos outros. Quando eu ajo, tenho sempre um bom motivo; quando você age, é porque “todos os homens”, “todas as mulheres”. Os meus motivos são complexos; os seus, simplistas. Se você se atrasou, é porque não respeita a minha família; se eu me atrasei, foi o trânsito. Tomamos as ações do outro como prova de falta de caráter e justificamos as nossas como circunstanciais. Se invertêssemos isso, dando ao outro a mesma complexidade que reservamos a nós, já teríamos um bom ponto de partida.
Em que outras lógicas a polarização se manifesta nos vínculos? Polarização é a incapacidade de imaginar que o outro vê a realidade de forma completamente diferente da sua, que pode haver duas versões da mesma história. Ela acontece quando você pensa que, se eu te reconheço, eu me apago: só cabe um.
Nos relacionamentos, aparece na lógica de “sua história invalida a minha”. Muitas questões complexas contêm polaridades: ter ou não filhos, mudar de cidade ou ficar. Não há uma escolha certa ou resposta clara. São desafios adaptativos que exigem sustentar desejos conflitantes. O problema é que, na presença do outro, projetamos nele a parte do dilema que não queremos encarar e o acusamos de defender aquilo que parte de nós também considera. Sair disso pede maturidade para conviver com pensamentos e sentimentos contraditórios presentes em nós, no outro e nas consequências de nossas escolhas. O antídoto para a polarização não é concordar, é conviver com a diferença e fazer as pazes com o atrito.
Vivemos uma epidemia de apostas. Só em 2025, as bets drenaram R$ 62,5 bilhões das famílias brasileiras. Apostamos nos jogos, mas achamos que o amor é um jogo perdido. Como pensá-lo como um jogo em que se ganha? Linda pergunta. O amor é um risco, não é um estado permanente de entusiasmo. É uma prática, como dizia o psicanalista Erich Fromm.
Jogar na bet é se entregar ao acaso torcendo para vencer as probabilidades. Amar é outra coisa: é se machucar, ser adorado, sentir uma profundidade nova, ter o coração partido. As pessoas hoje têm medo desse risco, têm pouca experiência dele desde crianças, e o vivem como ameaça, não como aventura. Brincar é encarar o correr risco como algo divertido. E é disso que sentimos falta: brincar nas relações. Por isso acham que o amor é um jogo perigoso.
Um último conselho ao público brasileiro para construir relacionamentos melhores? Vocês tinham algo único: um vocabulário que ajudava na vida interior. A saudade, o “ficar”, as fantasias e euforias do Carnaval —estados que não eram patologizados, faziam parte da cultura e permitiam viver tudo sem que pesasse tanto. Cresci na Bélgica, e a gente ouvia música brasileira porque vocês tinham um jeito lúdico de processar a vida: o fingir ser uma coisa e ser outra, o brincar, o mostrar certas partes de si e não todas. É preciso voltar a brincar, a fazer as pazes com o risco, com a parcialidade, com as experiências e com as nossas muitas versões.
Raio-X | Esther Perel, 68
Psicoterapeuta belga radicada em Nova York, é reconhecida intenacionamelnte como uma das maiores especialistas em relacionamentos modernos, sexualidade e dinâmica de casais. É autora de livros como “Sexo no Cativeiro: Como manter a paixão nos relacionamentos” (2006) e “Casos e Casos: Repensando a infidelidade” (2017). Formou-se em Psicologia Educacional e Língua e Literatura Francesa na Universidade Hebraica de Jerusalém, conclui mestrado em Terapia de Artes Expressivas na Lesley University em Cambridge, Massachusetts (EUA), e fez pós-graduação e treinamento intensivo em Terapia de Casal e Família, passando por instituições como o Family Institute of Cambridge e o Ackerman Institute for the Family em Nova York.
Autor: Folha








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