O departamento jurídico da Fifa havia concluído em caráter sigiloso que o Congo estava escalando um jogador inelegível, segundo documentos internos e correspondências analisados pelo The New York Times e um alto dirigente diretamente envolvido no caso, que falou sob condição de anonimato para tratar de questões delicadas.
Uma infração desse tipo normalmente significa que a seleção perderá por punição qualquer partida em que o jogador tenha atuado sem condições de jogo.
O Congo precisava vencer mais uma partida, um confronto eliminatório contra a Jamaica, para chegar à Copa do Mundo pela primeira vez em 52 anos. Em silêncio, a Fifa permitiu que o jogador e a seleção continuassem na disputa. O Congo derrotou a Jamaica e garantiu sua vaga no torneio.
A Copa do Mundo de 2026 já colocou a Fifa e seu presidente, Gianni Infantino, sob intenso escrutínio. O torneio foi marcado por questionamentos sobre jogo limpo e interferência política, sobretudo depois que a entidade revogou a suspensão de um jogador dos Estados Unidos após uma ligação telefônica entre Infantino e o presidente Donald Trump.
Mais tarde, veio à tona que Infantino havia mantido negociações secretas para vender uma participação em futuros torneios a um fundo privado administrado pelo irmão de Jared Kushner, genro de Trump. O plano levou a entidade que rege o futebol europeu a ameaçar apresentar uma denúncia à Justiça criminal e suscitou dúvidas sobre o futuro de Infantino.
A análise da seleção do Congo pela Fifa ocorreu após uma denúncia sobre a elegibilidade de um jogador apresentada pela Nigéria, que havia sido derrotada pelo Congo antes do confronto contra a Jamaica.
Ao investigar a denúncia, a organização constatou que o Congo nunca havia concluído a documentação necessária para permitir que o goleiro Lionel Mpasi mudasse de filiação depois de atuar pelas seleções de base da França, segundo os documentos.
A Fifa não negou nenhuma das conclusões do Times, afirmando apenas que rejeitou o caso da Nigéria por uma questão técnica.
Em um e-mail ao Times, a Fifa afirmou que seus comitês eram “autônomos e decidiam os casos com base nos regulamentos aplicáveis e nos fatos específicos apresentados a eles”. A entidade disse que Infantino não teve participação nessas decisões.
No caso do Congo, dirigentes da Fifa elaboraram possíveis alternativas, entre elas conceder a vitória à Nigéria, aplicar multas, substituir o Congo pela Nigéria no playoff contra a Jamaica ou não tomar nenhuma medida, sob o argumento de que a Nigéria havia apresentado sua denúncia fora do prazo, mostram os documentos.
Outras correspondências sobre a investigação, também analisadas pelo Times, incluíam detalhes sobre medidas tomadas pela Fifa em casos anteriores que correspondiam a informações de conhecimento público. Um integrante do departamento jurídico da organização que não participou do caso confirmou a autenticidade dos documentos obtidos pelo Times.
Em 2016, depois que a Grécia escalou um jogador inelegível que havia representado a Austrália nas categorias de base, a Fifa agiu de forma decisiva e impôs uma derrota por 3 a 0 em uma partida contra a Turquia. Dois anos depois, a entidade alterou os resultados de dois jogos da Bolívia pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 2018 após concluir que o país havia escalado um jogador que anteriormente representara o Paraguai.
A Fifa controla o evento mais assistido do futebol, a Copa do Mundo masculina, e o torneio de 2026 gerou mais de US$ 15 bilhões (R$ 74,8 bilhões). Como entidade máxima do futebol mundial, a organização exerce enorme controle sobre o esporte.
A derrota para o Congo teve consequências sísmicas para o futebol nigeriano. Ela contribuiu para a renúncia de toda a diretoria da federação nacional de futebol.
Um desses dirigentes, o presidente da federação, Ibrahim Musa Gusau, disse ter sido informado de que a denúncia havia sido rejeitada por razões técnicas, mas não de que a Fifa concluíra que o goleiro era inelegível.
“Eles simplesmente ficaram em silêncio e não podem contar a ninguém porque sabem que isso vai provocar uma grave crise para eles”, disse ele sobre a Fifa. Gusau pediu uma investigação.
O Times analisou um documento que correspondia à descrição de Gusau sobre a resposta da entidade.
O caso do Congo também voltará a chamar atenção para os vínculos regionais de Infantino. Enquanto luta para permanecer no cargo, ele provavelmente precisará do apoio africano.
Durante seu mandato, Infantino investiu capital político e milhões de dólares de verbas de desenvolvimento nos 54 países da região. A expectativa é que a maioria deles apoie Infantino na eleição presidencial do próximo ano. A Fifa tem 211 membros em todo o mundo, e cada um possui um voto; portanto, conquistar o eleitorado africano pode ser crucial.
Na época em que a Fifa analisava a elegibilidade do jogador, Véron Mosengo-Omba, aliado de Infantino, preparava sua candidatura à presidência da federação congolesa de futebol. Dois meses depois, em meio à euforia pela participação do Congo na Copa do Mundo, Mosengo-Omba foi o único candidato e acabou eleito presidente da federação. Outros oito concorrentes haviam desistido ou sido excluídos após mudanças nas regras de elegibilidade.
Prince Zelkifli Rahman Ngoufonja, ex-dirigente camaronês da Fifa conhecido como Prince Zul, afirmou que a relação entre Infantino e Mosengo-Omba suscitava dúvidas. “Se a organização tivesse tirado o Congo da Copa do Mundo”, disse Prince Zul, as perspectivas do aliado de Infantino “poderiam ter sido prejudicadas”.
Mosengo-Omba disse que não tinha conhecimento das conclusões da entidade.
A Jamaica, seleção derrotada pelo Congo na partida que lhe garantiu uma vaga na Copa do Mundo, não respondeu a um pedido de comentário. A Concacaf, responsável pelo futebol no Caribe e na América do Norte, manifestou preocupação com o processo.
“Quaisquer preocupações relativas à elegibilidade de jogadores, especialmente aquelas que possam afetar a integridade de uma competição ou os interesses de uma de nossas associações-membro, precisam ser minuciosamente analisadas e tratadas”, afirmou a entidade em um comunicado.
Infantino se reunirá nesta semana com dirigentes do futebol africano em Cabo Verde, onde deve tentar consolidar apoio político para a eleição presidencial da Fifa.
“Infantino precisa da África para sobreviver”, disse Prince Zul. “Ele não pode se dar ao luxo de perder membros na África.”
Autor: Folha








.gif)












