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Fórmula eleitoral baseada em estímulos dá sinais de desgaste

A fórmula eleitoral historicamente utilizada pelo Partido dos Trabalhadores começa a dar sinais de esgotamento. Desde 2002, a legenda estruturou sua permanência no poder sobre uma combinação de ampliação de benefícios sociais, expansão do crédito via bancos públicos, desonerações tributárias, valorização real do salário mínimo e maior presença do Estado na economia.

Sustentado por programas como Bolsa Família e Minha Casa Minha Vida, o modelo garantiu ao PT cinco vitórias nas seis eleições presidenciais realizadas nas últimas duas décadas — Luiz Inácio Lula da Silva venceu em 2002, 2006 e 2022, enquanto Dilma Rousseff foi eleita em 2010 e 2014. Ao todo, o partido governou o país por 20 dos últimos 24 anos.

A engrenagem de reeleição do terceiro mandato de Lula já foi acionada e opera em ritmo acelerado por meio de uma nova rodada de benesses para segmentos variados (veja adiante). A dúvida, porém, é se a estratégia ainda produz os mesmos efeitos políticos do passado. Especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo acreditam que não.

Os sinais de desgaste aparecem na queda da popularidade do presidente e nos elevados índices de rejeição, mesmo em um cenário no qual indicadores econômicos seguem sustentados por expansão fiscal, aumento de gastos públicos e incentivos ao consumo.

Ainda assim, após o desgaste provocado pelo áudio envolvendo o senador Flávio Bolsonaro no caso Banco Master, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva segue enfrentando cenário eleitoral apertado e elevada rejeição.

Pesquisa BTG/Nexus realizada entre 22 e 24 de maio de 2026, mostrou Lula com 47% das intenções de voto em um eventual segundo turno, contra 43% de Flávio Bolsonaro, dentro da margem de erro. O levantamento também apontou rejeição de 47% ao petista — percentual de eleitores que afirmam que não votariam nele “de jeito nenhum”. *

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Utopia de retrovisor: a “retropia” do lulismo

Na avaliação dos analistas, a fórmula baseada em crédito, subsídios e transferência de renda já não entrega o mesmo retorno eleitoral de décadas anteriores. O enfraquecimento político do governo traduz a dificuldade do lulismo em apresentar um novo horizonte de desenvolvimento econômico e mobilidade social.

O cientista político Leonardo Barreto, da Think Policy, define a lógica petista como uma “perspectiva pecuniária da democracia”: uma engrenagem baseada na distribuição de recursos públicos, subsídios e benefícios para grupos específicos em troca de fidelidade eleitoral.

“Trata-se de uma máquina de reeleição que opera por meio da construção de clientelas políticas permanentes”, afirma. Isso inclui desde setores empresariais beneficiados por crédito subsidiado até motoristas de aplicativo, categorias profissionais e segmentos alcançados por isenções fiscais e programas sociais.

Segundo Barreto, a fórmula perdeu capacidade de oferecer perspectiva de futuro. “Ela cria lealdade, cria fidelidade, mas não tem novidade”, diz. Para ele, o PT vive hoje uma “retropia”, uma espécie de “utopia de retrovisor”. “O que o partido diz é: você já foi feliz e nós vamos devolver essa felicidade.”

O Brasil mudou

Para Alexandre Manoel, da Global Intelligence and Analytics, o problema central é que o Brasil mudou profundamente do ponto de vista econômico, social, institucional e cultural.

A sociedade se tornou mais descentralizada, conectada e orientada à geração de renda individual. Ao mesmo tempo, internet e redes sociais desmontaram a antiga concentração de poder sobre a informação e a formação de narrativas públicas.

“Hoje, tudo está pulverizado nas redes sociais, em um ambiente de crítica permanente, instantânea e descentralizada, o que dificulta a construção de hegemonias políticas longas como as dos anos 2000”, destaca.

A expansão da economia de plataformas — como Uber, iFood e Airbnb — reduziu o custo de entrada para o trabalho autônomo. Também fortaleceu uma lógica mais empreendedora e menos dependente das estruturas tradicionais do mercado de trabalho. “Essa realidade praticamente não existia durante Lula 1 e Lula 2”, diz.

Há ainda uma mudança geracional. O eleitor de 35 anos hoje tinha apenas 15 no fim do primeiro mandato de Lula. “Uma parcela relevante do eleitorado atual não viveu conscientemente o ciclo emocional de ascensão e otimismo daquele período. Essa memória afetiva envelheceu junto com a geração que a experimentou.”

Lula 3 dobra a aposta

Sem compreender plenamente essa mudança — ou sem encontrar alternativa — o governo Lula reagiu à perda de popularidade aprofundando justamente o modelo que apresenta sinais de desgaste.

Relatórios de instituições financeiras apontam uma nova rodada de medidas de forte apelo popular somando R$ 140 bilhões com vistas à reeleição. Na conta estão programas como o “Desenrola 2.0”, as facilidades para o consignado e os programas de crédito para a aquisição de caminhões.

Também estão contabilizadas a extinção da chamada “taxa das blusinhas”, com impacto estimado em R$ 1,2 bilhão entre maio e outubro de 2026, e a subvenção no preço da gasolina, cujo custo projetado é de R$ 1,22 bilhão por mês.

Só o pacote voltado à contenção artificial dos preços dos combustíveis já acumula custo bruto estimado em R$ 35,14 bilhões, segundo cálculos da Warren Investimentos.

A mais recente iniciativa foi um programa de crédito de até R$ 30 bilhões para que taxistas e motoristas de aplicativo financiem a compra de veículos novos a juros mais baixos, o Move Aplicativos, lançado em maio.

“É como insistir em um antibiótico ao qual a doença vai ficando resistente. Em vez de trocar o remédio, o governo aumenta a dose”, resume Barreto.

O fantasma de 2014 assombra

Para o economista Samuel Pessoa, do FGV Ibre, a estratégia revive o modelo adotado nos anos finais do governo Dilma Rousseff. Naquele período, subsídios, expansão fiscal, crédito direcionado e represamento de preços foram utilizados para sustentar consumo e popularidade em meio à desaceleração econômica.

O resultado foi a recessão de 2015 e 2016 — a maior da história recente do país — quando o PIB acumulou retração próxima de 7%.

Pessoa avalia que a ausência de ganhos consistentes de produtividade continua sendo a principal fragilidade estrutural do modelo econômico associado ao lulopetismo. “Sem aumento sustentado da capacidade de crescimento da economia, a expansão do consumo financiada por gasto público e crédito tende a encontrar limites fiscais cada vez mais severos.”

O economista alerta para o avanço da dívida pública — que subiu mais de oito pontos percentuais, passando de 71,2% do PIB em 2022 para os atuais 79,2% do PIB, segundo dados do Banco Central — e para a rigidez crescente das contas da União.

Em estudo recente, ele estima que regras de reajustes automáticos retomadas ou ampliadas no terceiro mandato de Lula provocarão aumento acumulado de R$ 1,397 trilhão nos gastos federais entre 2027 e 2034.

Na avaliação dele, caso a campanha de 2026 seja marcada por promessas simultâneas de expansão de gastos e redução de impostos sem fontes claras de financiamento, o país poderá reviver um cenário semelhante ao de 2014. Naquele momento, Dilma rejeitou o ajuste fiscal durante a campanha e acabou adotando medidas semelhantes após a eleição, episódio classificado por críticos como um “estelionato eleitoral”.

Barreto destaca que o problema é agravado pela incapacidade do PT de fazer uma autocrítica sobre a crise do governo Dilma Rousseff. Segundo ele, a leitura predominante dentro do partido é a de que o erro não esteve na fórmula econômica, mas na condução política da ex-presidente.

“O próprio Lula da Silva passou a tratar a moderação econômica adotada em 2002 como um equívoco que teria enfraquecido a esquerda, enxergando a responsabilidade fiscal como uma espécie de ‘armadilha’ da qual o governo deveria se libertar”, lembra. “Isso assusta porque aquela política ajudou justamente a dar estabilidade e sustentação política ao governo”, diz.

O vazio enfrentado pela oposição

Apesar do desgaste do modelo petista, Barreto avalia que a oposição ainda não conseguiu preencher o vazio de expectativa. “Derrotar o PT exige mais do que rejeição ao lulismo”, diz. “É preciso vender um sonho.”

Para ele, o adversário com maiores chances, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), ainda depende excessivamente do capital político do ex-presidente Jair Bolsonaro. “Ele ainda não conseguiu construir uma narrativa própria de futuro”, comenta.

Alexandre Manoel avalia que o candidato competitivo talvez não seja alguém capaz de gerar grande encantamento coletivo, mas uma liderança que transmita estabilidade, moderação emocional, esperança prática de mobilidade social e sensação de proteção diante de um ambiente percebido como caótico.

Ele afirma ainda que o crescimento evangélico — hoje próximo de 27% da população — alterou profundamente a identidade social brasileira. “Religião, valores familiares e percepção moral passaram a ocupar um espaço muito maior na formação das preferências políticas do eleitor mediano.”

Para Manoel, a dificuldade do PT em reverter a impopularidade reflete uma transformação mais profunda no próprio funcionamento da democracia contemporânea. “Os polos políticos conseguem mobilizar nichos com eficiência, mas têm enorme dificuldade para construir uma maioria emocional ampla, coesa e relativamente estável”, afirma.

“Neste cenário de hiperpolarização, é muito mais difícil para qualquer liderança conquistar mentes ou corações dos eleitores brasileiros.”

Metodologia da pesquisa Nexus/BTG Pactual: 2.045 entrevistados pelo instituto Nexus entre os dias 22 e 24 de maio de 2026. A pesquisa foi contratada pelo Banco BTG Pactual. Nível de confiança: 95%. Margem de erro: 2 pontos percentuais. Registro no TSE nº BR-04193/2026.

Autor: Gazeta do Povo

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