San Francisco e Londres
|Financial Times
Os sete cofundadores bilionários da Anthropic devem assumir o controle conjunto de uma das maiores empresas do mundo após a aguardada abertura de capital da companhia, em um teste para saber se crenças compartilhadas e laços pessoais resistirão às pressões do mercado acionário.
A empresa de inteligência artificial divulgou na segunda-feira (26) seu prospecto para o IPO (Oferta Pública Inicial de Ações), revelando que sete executivos —o presidente-executivo Dario Amodei e a presidente Daniela Amodei, além de Tom Brown, Jack Clark, Jared Kaplan, Sam McCandlish e Christopher Olah— receberão juntos uma classe especial de ações que lhes dará 50,1% do poder de voto.

Logo da Anthropic é exibido no Moscone Center durante a conferência de tecnologia Dreamforce 2026, em San Francisco, Califórnia (EUA)
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Carlos Barria – 25.set.26/Reuters
A medida significa que os acionistas comuns terão praticamente nenhum controle sobre as decisões da Anthropic. Em vez disso, os investidores terão de apostar em um grupo descrito no prospecto S-1 como “guardiões de nossa missão”. O documento destacou a permanência “incomum” dos sete fundadores, em uma crítica sutil à rival OpenAI, de onde saiu a maioria dos cofundadores.
“A equipe fundadora da Anthropic tem uma visão e uma cultura incrivelmente unificadas, algo bastante raro entre os laboratórios de IA de fronteira”, disse Jenny Xiao, ex-pesquisadora da OpenAI e sócia da Leonis Capital.
“Isso é bastante tranquilizador para os investidores porque, embora a empresa já esteja bem estabelecida, a rotatividade da liderança ainda leva à perda de conhecimento institucional e prejudica a coerência cultural.”
Embora a avaliação da empresa no mercado acionário determine o patrimônio líquido dos cofundadores, as participações de cada um foram estimadas em até US$ 15,5 bilhões (R$ 82,9 bilhões) após a última rodada de captação da Anthropic, em maio, que avaliou a empresa em US$ 965 bilhões (R$ 5,16 trilhões). Os sete se comprometeram a doar 80% de suas fortunas para instituições de caridade.
Os sete cofundadores trabalharam juntos na OpenAI até dezembro de 2020, quando deixaram a empresa para criar seu próprio laboratório. Uma convicção compartilhada os impulsionou: os sistemas de IA estavam evoluindo rapidamente, e sua implementação exigia um caminho mais responsável.
“As coisas nunca mais vão voltar a ser tranquilas”, disse Amodei em uma das primeiras reuniões da empresa.
Ele reuniu os sete para se separarem e criarem sua própria organização. A ideia foi sugerida inicialmente por Kaplan, amigo dos tempos da pós-graduação, segundo pessoas familiarizadas com o assunto. Amodei havia trabalhado anteriormente com Brown e Olah no Google.
Os primeiros trabalhos de Kaplan na OpenAI incluíram pesquisas com McCandlish e Amodei sobre as chamadas “leis de escala”, que descrevem como as capacidades dos modelos de IA aumentam com a quantidade de dados e o poder computacional. Essas pesquisas moldaram a abordagem atual do setor de inteligência artificial para o desenvolvimento de modelos.
Daniela Amodei, que trabalhou com segurança e políticas de IA na OpenAI, e Clark, ex-jornalista da Bloomberg que atuava nas áreas de políticas e comunicação da OpenAI, também deixaram a empresa para fundar a Anthropic.
“Nós sete realmente sentíamos que tínhamos nossa própria visão e queríamos simplesmente colocá-la em prática à nossa maneira, em outro lugar, porque haveria menos atrito”, disse Daniela Amodei ao Financial Times no início deste ano.
Os cofundadores chegaram a questionar se deveriam criar uma empresa ou uma organização inspirada no Cern, o renomado centro de pesquisa em física da Suíça, segundo pessoas familiarizadas com o assunto. Muitos integrantes do grupo manifestaram dúvidas sobre a criação de um empreendimento com fins lucrativos, acrescentaram as fontes.
Por fim, reconheceram a necessidade de levantar enormes quantias de capital para operar modelos de IA e optaram por criar uma public benefit corporation, estrutura empresarial que exige considerar o impacto da companhia sobre a sociedade, além do retorno aos acionistas.
Os cofundadores continuam exercendo grande influência na Anthropic e mantêm relações pessoais estreitas, segundo pessoas próximas a eles. O grupo ainda se reúne regularmente e compartilha aprendizados e impressões em um mesmo restaurante chinês de San Francisco que frequenta há anos. Eles também têm outros pontos em comum: vários tiveram filhos desde a fundação da empresa, e muitos são ou já foram vegetarianos.
Os irmãos Amodei estão à frente da Anthropic e dividem as principais responsabilidades. Dario define a visão da empresa, inclusive por meio de longos ensaios públicos que orientam sua atuação, e se aprofunda nas pesquisas. Ele tem apenas um subordinado direto: seu chefe de gabinete.
Daniela, por sua vez, administra a organização no dia a dia. Ela supervisiona os demais integrantes da equipe executiva e as operações, que abrangem pesquisa, engenharia, políticas públicas e comunicação. Internamente, é vista como um contraponto adequado ao irmão, com melhores “habilidades interpessoais” e inteligência emocional, segundo várias pessoas familiarizadas com a relação entre os dois.
Os sete cofundadores possuem aproximadamente o mesmo número de ações, segundo o documento S-1, e todos mantêm funções executivas importantes. Clark assumiu um papel público na área de políticas de IA e se autodenomina uma “Wikipédia da IA”. Ele usa sua experiência como ex-jornalista para traduzir trabalhos técnicos complexos e questões éticas delicadas sobre inteligência artificial para autoridades governamentais e o público.
Olah, responsável pela pesquisa em interpretabilidade —área que busca compreender como os sistemas de IA funcionam internamente— e pelo trabalho científico que sustenta a tecnologia, discursou recentemente no Vaticano durante a apresentação da encíclica sobre inteligência artificial do papa Leão 14. Na carta, de grande influência, o pontífice pediu que a IA fosse “desarmada” por meio de regulamentação e de limites ao uso da tecnologia na guerra.
Brown, diretor de computação da Anthropic, ajuda a negociar o acesso à capacidade computacional e é conhecido por ter restabelecido as relações entre a empresa e o governo Trump em meio a restrições impostas aos modelos da companhia. A intervenção ocorreu depois que conversas com o governo foram prejudicadas por um conflito de personalidade entre Dario Amodei e Emil Michael, funcionário do Pentágono.
Benjamin Mann, que lidera o trabalho experimental na Anthropic, foi a oitava pessoa a ingressar na empresa e costuma ser descrito como cofundador, mas não integra o grupo com poder de voto, segundo o documento S-1.
Os sete cofundadores definirão o futuro da empresa. No topo da estrutura de governança incomum da Anthropic está um fundo chamado Long-Term Benefit Trust (fundo para benefícios de longo prazo), que escolhe seus próprios integrantes e, em geral, tem poder para eleger e destituir quatro dos sete membros do conselho de administração.
O controle do fundo sobre a quarta cadeira do conselho —que tem voto de desempate— é limitado por uma exigência de que o comitê de indicações do conselho, do qual Daniela Amodei faz parte, concorde com suas decisões. Dario e Daniela, por sua vez, não podem ser destituídos do conselho da Anthropic pelo fundo.
O documento S-1 afirma que os cofundadores formarão uma sociedade de responsabilidade limitada, chamada Founder LLC, que, na prática, terá os votos necessários para nomear três membros do conselho da Anthropic.
A participação de controle também permitirá que eles tenham a palavra decisiva em todas as decisões importantes, como futuras aquisições. Dentro da Founder LLC, cada cofundador terá direito a um voto, e a maioria será necessária para aprovar a maior parte das decisões.
Essas regras exigem que os cofundadores mantenham a união para que a empresa funcione bem.
“Eles podem compartilhar o compromisso com uma IA segura, mas ainda assim discordar sobre quando lançar um modelo, quanto gastar ou em quais mercados entrar”, disse Song Ma, professor de finanças e empreendedorismo da Escola de Administração de Yale.
“Essas diferenças teriam consequências tanto para a gestão quanto para o controle da empresa. A maneira como essas pessoas lidarem com suas divergências internas será extremamente importante à medida que as opiniões do público em geral sobre a IA começarem a divergir.”
Autor: Folha








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