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Homem que quase matou pai durante surto conta sua história – 20/04/2026 – Equilíbrio e Saúde

Quando Cohen Miles-Rath entra na casa do pai, seu histórico de psicose está ali, bem diante dele.

O lugar onde ele estava quando recebeu uma mensagem enigmática no celular continua lá: “o diabo havia entrado no corpo de seu pai”. Também continua lá a gaveta onde ele viu uma faca com cabo branco.

Ainda vê o chão onde, enquanto lutavam pela faca, Cohen arrancou com uma mordida parte do lóbulo da orelha do pai, e o sangue espirrou sobre os dois. Ele ainda se lembra do ponto onde, imobilizado no chão, Cohen ergueu a faca e golpeou descontroladamente a garganta do pai.

A violência durou segundos, mas mudou toda a sua vida. Com vozes ainda ecoando em sua cabeça, Cohen se viu na cadeia, enfrentando acusações de tentativa de homicídio e dano criminal, crimes puníveis com até dez anos de prisão. Atordoado e sangrando, seu pai havia prestado queixa e obtido uma ordem judicial contra ele.

Mas Cohen não o matou. Nos anos que se seguiram, ele teve a sensação de que havia caminhado até a beira de um abismo. Cerca de 300 vezes por ano nos Estados Unidos, um filho mata um dos pais, representando aproximadamente 2% de todos os homicídios.

Uma grande parte desses casos envolve pessoas como Cohen: homens jovens com doenças mentais graves que moram com os pais. Quando os sintomas crescentes de psicose tornam a escola ou o trabalho impossíveis, os pais são o último recurso de apoio. Delírios paranoicos podem cruelmente inverter essa lógica, voltando as pessoas contra a figura mais próxima delas.

Cohen se encaixava nessa categoria; ele adorava o pai. Aos 11 anos, havia pedido para sair da casa da mãe e ir morar com seu pai, Randy, em Cohocton, Nova York. Pelo filho, Randy tornou-se líder dos escoteiros e irradiava orgulho da arquibancada em cada competição de atletismo de Cohen.

Na cidade de menos de mil habitantes onde viviam, a família virou manchete de tabloides —”Homem arranca orelha do pai com mordida durante ataque com faca”, dizia uma. Na cadeia, as alucinações de Cohen se intensificaram em terrores, e ele perdeu o momento de sua formatura de faculdade.

O que pesaria sobre ele por anos depois, muito tempo após a psicose ter recuado, era se seu pai poderia perdoá-lo.

“Eu ainda o havia atacado”, Cohen diz. “Ainda eram minhas mãos na faca. Era eu quem estava fazendo aquilo, certo? Tipo, eu me lembro do momento. Era eu. E não era eu.”

O rasgar do véu

Crimes envolvendo pessoas em surto psicótico são cerca de 4% nos EUA, segundo pesquisadores — e a grande maioria das pessoas em psicose nunca é violenta. Mas casos como o de Cohen são o tipo de crime que os jornais cobrem: inexplicáveis, horripilantes em sua subitaneidade. Às vezes são aleatórios; um passageiro é empurrado para os trilhos do metrô. Mas frequentemente ocorrem dentro de seus lares, como no caso de Nick Reiner, que foi acusado de esfaquear até a morte seus pais no início deste ano.

Em seu livro de memórias, recebido no início do ano, Cohen narra a espiral de delírios e alucinações que o levou a agredir o pai. Como, eu me perguntava, seu estado poderia ter se deteriorado tão gravemente quando ele estava cercado de pessoas que o amavam? E depois, seria possível reatar o relacionamento deles?

A história de Cohen começou com uma decepção comum em seu último ano na SUNY College em Geneseo: uma lesão havia encerrado sua carreira como corredor de elite. Livre daquela vida regrada, Cohen começou a fumar maconha diariamente. Naquela primavera, ele sentiu algo mudando no mundo; tudo cintilava diante dele. Ele vagava pelo campus, seus sentidos extraordinariamente aguçados.

Sinais começaram a saltar para ele na forma de cores; vermelho significava perigo, azul significava segurança. Sentado em sua sala de estudos humanos, ele viu —ou pensou ter visto— seu professor subir ao pódio e anunciar que ele, Cohen, era um profeta.

Cohen estava experimentando psicose, a ruptura com a realidade que o psicólogo Carl Jung descreveu como um “rasgar do véu”. Alguns cientistas acreditam que esses sintomas emergem de mudanças no neurotransmissor dopamina, que rotula experiências sensoriais como extraordinariamente vívidas e significativas. Alucinações, segundo essa teoria, ocorrem quando o cérebro rotula erroneamente fenômenos gerados internamente —digamos, uma voz interna— como reais, vindos do mundo exterior. Delírios, o sintoma mais comum de psicose, podem resultar quando o cérebro identifica coisas triviais —digamos, um carro preto— como intensamente significativas, pistas para uma história momentosa e subjacente.

A mente de Cohen estava acelerada; ele sentia que o momento que o definiria para sempre havia chegado.

“Eu senti como se tivesse me livrado completamente da minha identidade”, ele disse. “Como se eu nem fosse mais Cohen. Eu era esse ser separado que sabia de todas as coisas.” Ele fez uma pausa, procurando palavras. “É difícil descrever como é, mas é como se você fosse Deus.”

Ele olhou para o celular e viu um desenho animado, um garoto esmagando a cabeça de outro garoto. Cohen sentiu que uma verdade havia se revelado para ele: O diabo estava dentro de seu pai. Ele andava de um lado para o outro na sala. “Eu não quero matá-lo”, disse em voz alta, para ninguém. “Eu amo meu pai. Eu não posso matá-lo.” Ele foi até a cozinha, abriu uma gaveta e pegou uma faca.

‘Ele vai te matar’

Aos 52 anos, Randy era fisicamente forte e pesava 22 quilos a mais que seu filho atleta.

Ao ver a faca, ele gritou para Cohen parar e percebeu que não havia resposta. Os olhos do filho pareciam estranhos, grandes e negros, Randy lembrou.

Randy avançou contra Cohen e os dois homens caíram no chão. Randy agarrou a lâmina, que penetrou em sua mão, atingindo o osso. Os registros policiais deixam claro o quão perto foi. “Eu não queria matá-lo, mas algo ficava me dizendo para matá-lo”, Cohen disse aos policiais. “Ele me dominou e eu não consegui fazer isso.”

Inundado de adrenalina, Randy se libertou e correu para fora de casa. Ele voltou e encontrou Cohen algemado, sendo conduzido para uma viatura policial. Quando um detetive o interrogou naquela tarde, ele o alertou para não baixar a guarda. “Ele disse: eu nem o deixaria voltar para casa”, Randy contou. “Ele vai te matar, foi isso que me disseram. Eu pensei: o quê?”

Quando Cohen foi solto da cadeia, um mês depois, ele sabia que tinha sorte. Na cadeia, um psiquiatra havia prescrito Zyprexa, um antipsicótico, e as vozes se aquietaram. Randy havia retirado as acusações de agressão, e o defensor público aconselhou Cohen a aceitar um acordo que incluía um ano de liberdade condicional e tratamento obrigatório com testes de drogas.

Mas ele havia sido expulso da faculdade. Conseguir um trabalho seria difícil pelo seu histórico. Todos na cidade pareciam saber o que havia acontecido entre eles; os outros presos o chamavam de “Mordedor”. E ele não sabia como seguir em frente sem Randy em sua vida. Ainda havia uma ordem judicial em vigor, e não havia possibilidade de morarem juntos.

Era assim que Cohen estava —incerto, desolado— quando viu Randy parado no estacionamento do fórum, esperando por ele, sorrindo.

Randy abriu os braços, e os dois homens se abraçaram.

“Me desculpa, pai”, Cohen disse a ele.

“Não se preocupe com isso, filho”, foi a resposta. “Eu te amo.”

O longo caminho de volta

No mês passado, quase dez anos após a agressão, Randy e Cohen falaram sobre o episódio na cidade deles, em Cohocton.

Cohen havia se tornado pai recentemente, e Randy brincava sobre sua paternidade excessivamente preocupada. Aos 32 anos, Cohen agora é assistente social e supervisiona programas de prevenção ao suicídio para o Escritório de Saúde Mental de Nova York. Seu cabelo está ficando grisalho. Randy se aposentou.

Sentado na sala onde tudo aconteceu, Randy explicou: ele não havia percebido que seu filho estava psicótico. Ele tinha ouvido os discursos de Cohen sobre a teoria da relatividade de Einstein, seu medo de que o sol estivesse liquefazendo rochas nas profundezas da Terra. Mas Randy era um cara de trabalho braçal. Cohen era um intelectual, a primeira pessoa de sua família a ir para a faculdade.

Alguns sinais, porém, já estavam lá. Um mês antes do ataque, depois de encurralar um professor para compartilhar suas ideias extasiadas, Cohen foi detido pela polícia local e internado em um hospital psiquiátrico por cinco dias para observação.

Mas Randy era cético em relação à psiquiatria. Sua atitude, disse ele, era “mais do tipo levante a cabeça e faça o que tem que fazer”. No caminho de volta do hospital, Cohen admitiu que havia mentido sobre seus sintomas para sair. Os dois discutiram se Cohen deveria tomar a medicação antipsicótica que lhe havia sido prescrita e decidiram que não era necessário.

Agora Randy sabia que essas decisões tinham sido catastróficas. Ele não culpava Cohen; o que o impeliu à violência, disse-me ele, foi uma força externa.

“Aquilo estava fora dele”, disse.

Finalmente, depois de seis meses, Randy concordou que Cohen poderia voltar para casa.

O peso

Uma das maneiras pelas quais Cohen tentou fazer as pazes foi falando o máximo possível sobre como é se perder na psicose. Ele fala para plateias. Responde a perguntas de pais preocupados. Ele se tornou parte de grupos de famílias que tentam colocar os pedaços de volta após um episódio de violência resultante de doença mental.

Essa responsabilidade é especialmente grave porque ele não toma mais medicação antipsicótica. Ao longo de um ano após sua saída da prisão, sob a supervisão de um enfermeiro, ele reduziu muito lentamente sua dose de medicação antipsicótica até zero. Parou de usar Cannabis, que acredita ter contribuído para seu surto. Ele compara sua doença mental ao diabetes ou ao câncer, uma condição crônica que requer vigilância constante.

Ele conheceu sua mulher, Elizabeth Finger, no Facebook Dating. No terceiro encontro, quando a deixou em seu carro, ele se virou para ela e disse que precisava contar sobre uma crise de saúde mental pela qual havia passado sete anos antes. Quando terminou, pediu que ela pensasse seriamente se queria continuar vendo-o.

“Ele disse que eu encontraria algumas coisas no Google”, disse ela. “E com certeza encontrei.”

Elizabeth foi aconselhada por amigos a terminar o relacionamento, pois alguém diagnosticado com transtorno esquizoafetivo nunca conseguirá ter uma vida estável, lhe disseram. Mas conforme os meses passavam, Elizabeth percebeu que confiava em Cohen, em parte porque ele era tão gravemente sério sobre o que havia acontecido.

Ambos estão dispostos a correr esse risco. Ele observa atentamente os sinais, que tendem a aparecer quando está privado de sono ou sob estresse. Ele tem planos preparados —cochilos, linhas de crise, medicação.

Mas a vida segue em frente, com ou sem plano. A filha deles nasceu no início do ano. Enquanto se preparavam para deixar o hospital, Cohen disse à enfermeira que estava apreensivo sobre o retorno de sua psicose, e ela foi calorosa e encorajadora — é raro um pai ser aberto o suficiente para perguntar sobre seus sintomas. Ela imprimiu uma lista de números de linhas de apoio e grupos de suporte.

Autor: Folha

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