O preconceito e a falta de informação têm afetado, de forma negativa, a saúde sexual e reprodutiva das mulheres lésbicas no Brasil. Dados da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia indicam que apenas 47% das mulheres que fazem sexo com mulheres realizam consultas ginecológicas anualmente.
Segundo Relatório Técnico da Agenda Mais SUS de 2023, 40% das mulheres lésbicas que buscam serviços de saúde optam por não revelar ao médico sua orientação sexual. Dentre as que revelam, 28% relatam que recebem um atendimento médico acelerado e 17% afirmam que, ao saberem da orientação sexual da paciente, os médicos não solicitam exames que elas consideram como necessários ou importantes.
Muitas vezes, os profissionais de saúde agem movidos pela falta de informação, imaginando que os comportamentos sexuais deste grupo excluem a possibilidade da ocorrência de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs).
Porém, um artigo publicado recentemente na revista Scientific Reports aponta que mulheres que se relacionam sexualmente com outras mulheres podem apresentar uma microbiota vaginal fora de equilíbrio quando comparadas àquelas que se envolvem exclusivamente com homens. Essas diferenças indicam maiores riscos para a saúde sexual e reprodutiva e reforçam a necessidade de acompanhamentos de saúde regulares.
Os resultados são oriundos de um projeto que vem sendo realizado há 12 anos por pesquisadoras do Departamento de Enfermagem da Faculdade de Medicina de Botucatu da Unesp (FMB) em parceria com o Departamento de Patologia Básica da Universidade Federal do Paraná. O estudo, conduzido inteiramente por mulheres, é intitulado “Cuidando da saúde da mulher que faz sexo com mulher” e teve apoio do Centro de Saúde Escola (CSE), unidade auxiliar da FMB.
Riscos para a saúde sexual e reprodutiva das mulheres
Durante o estudo, foram coletadas amostras vaginais de 109 participantes: metade mulheres que tiveram relações sexuais apenas com mulheres (54) e a outra parte de mulheres que tiveram relações sexuais apenas com homens (55). Cerca de 90% das voluntárias estavam abaixo dos 40 anos de idade no momento da inscrição. Além disso, ambos os grupos eram homogêneos numa lista de quesitos que incluía etnia, renda familiar e outros fatores.
As cientistas utilizaram na pesquisa o sequenciamento do gene do RNA ribossômico 16S (rRNA), um método considerado padrão-ouro para identificar e diferenciar bactérias. Há diversos estudos que utilizam tal ferramenta molecular para avaliar a microbiota vaginal, mas poucos se concentraram na população específica de mulheres que fazem sexo com mulheres. E quando se leva em conta a população de mulheres que relataram envolvimentos exclusivamente femininos, o número de estudos conhecidos é ainda menor.
As análises do material coletado não evidenciaram diferenças significativas na incidência de ISTs, como HPV, HIV, clamídia e candidíases vaginais entre os dois grupos. Por outro lado, as pesquisadoras constataram, em cerca de 40% das mulheres que se relacionam com outras mulheres, um problema denominado vaginose bacteriana, que se caracteriza pelo desequilíbrio da microbiota vaginal. No grupo das mulheres que se relacionam com homens, o percentual de pessoas afetadas foi apenas de 14%.
A enfermeira e pesquisadora da FMB Mariana Alice de Oliveira Ignácio, que é uma das autoras do artigo, explica que uma microbiota vaginal considerada saudável, em geral, apresenta predominância dos Lactobacillus sp. Estas bactérias são consideradas benéficas produtoras de peróxido de hidrogênio, que inibem patógenos e auxiliam na prevenção de infecções. “Quando fatores causam o desbalanço dessa microbiota e a queda ou até extinção desses lactobacilos, podem ocorrer prejuízos para a saúde sexual e reprodutiva da mulher”, explica ela.
Para qualquer mulher cisgênero, a alteração na microbiota pode resultar em risco aumentado para ISTs, doença inflamatória pélvica (DIP), parto prematuro e ruptura das membranas amnióticas antes do início do trabalho de parto (RPM). Além disso, a chamada vaginose bacteriana costuma vir acompanhada de odor desagradável e aumento do corrimento vaginal, o que também impacta no bem-estar físico e psicológico das mulheres.
“Esse foi um grande achado da pesquisa, que corrobora com artigos já produzidos internacionalmente que mostram que mulheres que se relacionam com outras mulheres apresentam essa alteração de microbiota com frequência”, diz Ignácio. Ainda não existem, no entanto, estudos que justifiquem o desequilíbrio dentro do grupo.
Sem focar na causa, as cientistas procuraram entender ainda quais fatores poderiam estar associados à maior ocorrência de vaginose bacteriana em mulheres que se relacionam com mulheres.
Os fatores mapeados incluem o uso de brinquedos sexuais e também a baixa renda familiar; este último pode estar associado a um menor acesso aos serviços de saúde.
“O estudo mostra a importância de que os profissionais de saúde dediquem uma atenção especial para as mulheres que se relacionam com mulheres, porque esse grupo pode apresentar alterações que às vezes passam despercebidas durante as consultas, devido ao desconhecimento destes fatores de risco”, diz Ignácio. Ela reitera que esse artigo é apenas o primeiro dentre uma série de resultados que o grupo pretende divulgar com base nos estudos realizados na última década.
Autor: Folha








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