“Foi sofrido, foi doído e faz parte. A nossa seleção é espetacular e a concorrência é muito grande. Obrigado de coração pela torcida. E torçamos muito pelo hexa.”
Após não ouvir seu nome entre os 26 convocados por Tite para a Copa do Mundo de 2022, no Qatar, o atacante paraibano Matheus Cunha publicou um vídeo em suas redes sociais sem medo de esconder a frustração.
Na época com pouco espaço no Atlético de Madrid de Diego Simeone, onde havia chegado após a conquista do ouro nos Jogos de Tóquio, o brasileiro até chegou a ser chamado para os últimos amistosos pré-Copa, mas acabou preterido na lista final.
O time foi eliminado nas quartas de final, pela Croácia, na disputa de pênaltis, após empate em 1 a 1 no tempo regulamentar, com Rodrygo e Marquinhos desperdiçando suas cobranças.
O atacante de 27 anos natural de João Pessoa —que começou a carreira profissional já no exterior, no pequeno Sion, da Suíça— reconheceria mais tarde que atravessou uma fase “depressiva” naquele momento da carreira.
“Foi o primeiro grande baque para a minha saúde [mental]”, afirmou Cunha em entrevista ao programa BBC Football Focus, no início de 2025.
“Ser brasileiro e pensar na Copa do Mundo, é tudo para nós. Se você conquista essa chance de jogar, deixa todo mundo mais orgulhoso do que o normal. Quando você não está lá, você sente que fez tudo em vão. Foi meio que como uma depressão. Quando cheguei em casa, chorei e desabafei todas as minhas emoções com as pessoas que realmente se importam comigo”, acrescentou o atacante.
Apesar do momento difícil dentro e fora de campo, as coisas estavam prestes a mudar para ele.
Logo após o Mundial no Qatar, em busca de mais tempo de jogo, Matheus Cunha foi emprestado ao Wolverhampton Wanderers, que brigava contra o rebaixamento na Premier League.
No clube do centro-oeste da Inglaterra, o atacante teve um início claudicante sob o comando do técnico espanhol Julen Lopetegui, sem conseguir se firmar entre os titulares e com apenas dois gols nas primeiras 20 partidas.
Contudo, se reinventou sob o comando do treinador Gary O’Neil, contratado em agosto de 2023.
Com o jovem técnico inglês de 43 anos, que antes dos Wolves havia tido apenas um trabalho anterior no comando do Bournemouth, Cunha assumiu um novo posicionamento dentro do time.
O atacante brasileiro passou a jogar com mais mobilidade, muitas vezes recuando quase até o meio de campo para receber a bola e conduzir a transição ao gol adversário.
Além de finalizar, também tornou-se um dos principais armadores da equipe, em um esquema tático que tirava proveito de todo seu potencial, mas que nem sempre havia sido identificado e aproveitado pelos treinadores.
Na temporada 2023/24, Matheus Cunha viveu a melhor fase de sua carreira. Anotou 14 gols e distribuiu 8 assistências em 36 partidas pelo Wolverhampton.
“Estou muito feliz pelo momento individual. Os excelentes números alcançados também estão relacionados ao meu posicionamento em campo”, disse o atacante na ocasião.
“Me sinto muito à vontade jogando na função escolhida pelo treinador. Acredito que, vindo de trás, consigo apresentar o meu melhor futebol.”
Segundo o jogador, a boa fase no clube inglês ajudou-o a recuperar a alegria de calçar as chuteiras e entrar em campo.
“Às vezes, tudo o que queremos na vida é carinho”, disse o brasileiro em entrevista ao The Guardian, em março de 2025, quando suas atuações recentes já apontavam para um iminente transferência para o Manchester United.
“As pessoas acham que temos tudo, mas também somos seres humanos. Precisamos de um pouco de compreensão, temos nossas dificuldades. Os Wolves e os torcedores me devolveram essa alegria. O status que tenho hoje, o jogador que sou agora e a felicidade que sinto, é por causa deles. Sou muito grato.”
Em junho de 2025, o brasileiro foi anunciado como reforço dos Red Devils, em um negócio de £ 62,5 milhões (R$ 420 milhões), a maior venda da história do Wolverhampton.
O desempenho destacado na Premier League já havia garantido seu retorno à seleção brasileira, ainda sob o comando de Dorival Júnior. Com a contratação de Carlo Ancelotti, se firmou de vez na equipe.
Em dez partidas do italiano no comando, Matheus Cunha não esteve presente apenas nos dois últimos duelos das Eliminatórias, contra Chile e Bolívia, devido a uma lesão na coxa.
Entrou em campo nos outros oito jogos, sendo utilizado em diferentes posições por Ancelotti —ora como um falso 9, ora como um segundo atacante, e até como um meia-atacante, preservando sua liberdade de movimentação no entorno da grande área.
Com dez gols e duas assistências em sua temporada de estreia no United, Matheus Cunha chega à Copa do Mundo com a versatilidade para atuar em diferentes posições dentro de campo tão apreciada por Ancelotti.
“Meu segundo ciclo de seleção está muito mais parecido com o que jogo no clube, com muito mais flutuações entrelinhas e em muitos momentos jogando como um meia. Estou muito feliz com tudo que vem acontecendo comigo”, afirmou Cunha em entrevista na Granja Comary, em Teresópolis, na sexta-feira (29).
“Espero que tudo seja bem-sucedido e que eu possa dar meu melhor nessas funções que estou mais habituado a fazer”, acrescentou o atacante.
Autor: Folha








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