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Meu irmão viveu e morreu em seu próprio mundo – 24/07/2026 – Morte Sem Tabu

Por volta dos 16 anos de idade, meu irmão se fechou no quarto. Tinha decidido que agora aquele seria seu mundo: estantes e pilhas de livros em quadrinhos, uma cama e algumas roupas jogadas, cercados por quatro paredes e uma porta obstinada em resistir aos mais fortes chutes e socos. O portal em que se abrigava era atravessado apenas por idas rápidas ao banheiro ou pratos de comida deixados na porta.

Eu nunca soube muito bem o espaço que ocupava no mundo dele, talvez porque esse espaço mesmo passasse por constantes redefinições. Meu irmão ia e vinha, entre nosso mundo e o mundo dele, como quem entra e sai de casa. Minha memória me decepciona, acho que escolheu apagar os momentos mais difíceis, mas ainda sei que ele me preservava mesmo quando a esquizofrenia o deixava mais violento.

Quando saiu do quarto, o mundo dele se apoderou do nosso, a fronteira ficou mais tênue. A geladeira guardava comida infiltrada pelo remédio, sem que ele soubesse. As ameaças violentas, contra si e contra os outros, impunham um toque de recolher a cada um em seu próprio quarto. Fechado no meu, via minha casa se converter em pequenos mundos isolados, que se cruzavam apenas nos momentos inevitáveis do cotidiano.

Em certa fase, ele voltou a conversar. Lembro que voltava da universidade por volta de meia-noite e ele me esperava na sala, para assistir TV e discutir algum tema do dia. Já há alguns anos sem sair de casa, tinha perdido todo o contato com sua geração, não tinha amigos, nunca tinha namorado. Suas conversas eram sempre uma busca por conhecer o mundo que tinha abandonado: queria saber minhas opiniões sobre homossexualidade, aborto, política, as notícias do dia, como era a universidade. No seu íntimo, acho que desejava fazer parte do nosso mundo, por mais que fugisse dele sempre que podia.

Nos últimos anos, com a esquizofrenia já plenamente desenvolvida e estabilizada pelo tratamento psiquiátrico, meu irmão viveu ao mesmo tempo o ápice de seu processo criativo e a intensidade dos surtos psicóticos e crises de ansiedade. Passava os dias no computador escrevendo, e as mesmas ideias que guiavam seus roteiros perturbavam sua mente a ponto de destruí-lo. Seu mundo tinha ficado intenso demais para ele mesmo, e se entregava a ele como o artista que não pode mais se separar de sua criação.

Os momentos de lucidez e criatividade se alternavam a delírios e fantasias não realizáveis que o frustravam. Nos dias mais agudos, duvidava se o que seus olhos viam era mesmo real. Os cenários que imaginava nas suas criações conformavam seu próprio mundo, e nem sempre era possível diferenciá-los do mundo físico que habitava. Todos os esforços para trazê-lo ao nosso mundo apenas o viam criar novos sintomas que expressavam a euforia e o descontrole de seu próprio mundo.

Mas a estabilização da doença também lhe permitiu entrar um pouco mais em nosso mundo. Teve seus desejos adolescentes com uma década de atraso, gostava de festas de aniversário, tentou algumas vezes conhecer lugares novos. Sua nova personalidade mais aberta e generosa o fez adorado por todos à sua volta, e estabelecia com cada um uma forma particular de vínculo, uma relação específica de seu mundo com o nosso. Tirava sarro de si mesmo e dos outros, e viu no humor um canal mais curto para alcançar os demais.

No dia 19 de maio, meu celular tocou por volta do meio-dia. Meu irmão tinha parado de respirar, não se sabe por quanto tempo, mas os socorristas o tinham ressuscitado. Durante os 27 dias no hospital, ele não abriu os olhos. Os exames mostravam um corpo saudável, comandado por um cérebro cuja atividade decrescia a cada dia. Nos eletroencefalogramas, as ondas paravam de bater. Assim como havia vivido, ele também queria morrer em seu próprio mundo.

Nas semanas anteriores, ele dizia que estava cansado do sofrimento da doença. Queria viver em outro mundo. Ele não me disse, mas eu o imagino em um parque, sentado em um banco, lendo uma aventura de Asterix, ouvindo algum dos seus rocks favoritos, tomando sorvete. Acho que o paraíso para ele seria alguma coisa próxima disso, e eu escolho acreditar que é para lá que vamos depois de morrer. Imagino-o sentado no banco, esperando o dia em que Woody Allen chegará e ele poderá enfim confrontá-lo por nunca ter respondido suas propostas de colaboração.

Descobri que perder um irmão é uma experiência de deslocamento do tempo. O futuro era, para mim, assombrado pelas preocupações do cuidado de alguém que dependeria de mim para sempre. Hoje sei que falarei dele como alguém no passado, e essa ideia me perturba o sono. Quem será meu irmão no futuro? Será aquilo que falarmos dele, o que ainda falarmos dele quando as lembranças começarem a esmorecer. Não consigo me lembrar da última vez que falei com ele, não consigo me lembrar de nenhuma conversa específica com ele. Talvez seja o trauma do momento, mas sinto que estou suspenso no tempo: não existe mais uma divisão entre passado, presente e futuro, mas apenas um tempo em passagem, me levando contra a minha vontade para esse futuro que ainda não consigo imaginar, mas que um dia chegará. Talvez quisesse que o tempo parasse.

Quando escreveu sobre as crianças que nascem “longe da árvore”, em seu célebre livro, o psicólogo americano Andrew Solomon se perguntava se as famílias que entrevistava teriam escolhido ter outro filho, diferente do que conheciam, mas sem as perturbações das doenças ou deficiências que o acometiam. Descobriu que não: a pessoa passa a ser a pessoa e sua doença, não existe fora dela, por mais dura que seja a vida dos familiares encarregados de seu cuidado. Só consigo pensar em meu irmão como parte de sua eufórica vida frustrada de artista.

Agora, logado em seu computador, navego pelos arquivos que ele deixou: ideias escritas na euforia do seu pensamento, outras mais arredondadas, tirinhas, desenhos, words com livros inteiros, dois filmes de curta-metragem. Clico no primeiro arquivo, de nome “Elixir”. É um cartum, com dois homens tracejados em torno de uma poção. O primeiro diz: “Eis o elixir da vida eterna”, ao que o segundo responde: “Se eu misturar tinta nele, serei imortalizado por minhas pinturas?”. Penso que meu irmão gostaria de ser lembrado pelas suas criações: é o nosso acesso a seu mundo que já não existe mais.


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Autor: Folha

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