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Neandertais caçaram elefante e o esquartejaram, diz estudo – 29/04/2026 – Ciência

Quando um esqueleto de elefante de 125 mil anos, perfurado por uma lança de madeira, foi descoberto na Alemanha em 1948, presumiu-se que os neandertais que habitavam a Europa naquela época não eram sofisticados o suficiente para caçar um animal tão imponente.

Algumas pessoas argumentaram que a lança encontrada junto aos ossos no leito do lago de Lehringen provavelmente havia sido depositada ali em um acaso geológico, não por mãos humanas. E pelos 78 anos seguintes, os restos mortais foram tratados mais como uma curiosidade do que como uma descoberta revolucionária.

Mas uma reavaliação do material, descrita em um artigo publicado no mês passado na revista Nature, conta uma história diferente: o esqueleto apresenta marcas distintas de ferramentas, sinais inconfundíveis de um abate calculado.

O novo estudo propõe que os pesquisadores originais que estudaram o chamado elefante de Lehringen partiram da premissa equivocada de que qualquer sinal de abate havia sido apagado do espécime.

Foi um caso clássico de descuido científico, na avaliação do cientista Ivo Verheijen. “Ninguém encontrou nada porque ninguém estava realmente procurando”, afirmou ele, que é autor principal do novo estudo e ligado ao Escritório Estadual de Patrimônio Cultural da Baixa Saxônia, em Hanôver, na Alemanha.

O abate de um enorme elefante de presas retas —o maior mamífero terrestre de sua época— oferece prova de que os neandertais estavam longe de ser seres simples e oportunistas. As descobertas mostram que esses humanos primitivos usavam trabalho em equipe coordenado para caçar animais de grande porte 75 mil anos antes de o Homo sapiens chegar à Europa.

O arqueólogo Thomas Terberger, que também trabalha no escritório estadual da Baixa Saxônia e colaborou no projeto, disse que as evidências destacam um elemento fundamental para a compreensão dos neandertais: eles deviam ter um planejamento cuidadoso e conhecimento profundo da paisagem.

A escavação da carcaça, décadas atrás, foi uma bagunça desde o início. Foi iniciada por mineradores, que cortavam as camadas de sedimento a golpes. Isso só mudou quando um diretor de uma escola local, que virou arqueólogo amador, apareceu no local.

Com ossos embolsados por trabalhadores e sem registros fotográficos, a descoberta foi enterrada novamente por sete anos de litígio envolvendo os direitos à relíquia. Esquecidos em caixas de papelão no sótão de um pequeno museu na vizinha Verden, os restos —ou pelo menos os restos dos restos— ficaram acumulando poeira.

No ano passado, Verheijen examinou mais de perto as caixas. Ele notou que o elefante mostrava sinais de ter sido sistematicamente desmembrado pelos caçadores antigos. “Algumas das marcas de corte eram inconfundíveis.”

Sua investigação indicou que o elefante era um macho de cerca de 30 anos, medindo talvez 4 metros até a altura dos ombros. Ele provavelmente foi escolhido como alvo porque oferecia uma opção de presa mais segura e isolada.

Uma lança de 2,4 metros alojada entre as costelas da criatura sugeriu uma cena de combate corpo a corpo de alto risco, segundo Verheijen. Diferentemente de um dardo leve feito para lançamento à distância, o ponto de equilíbrio específico da arma indicou que ela fora projetada para ser empunhada e cravada com força.

Terberger inferiu que os neandertais se engajaram em um confronto ousado com a presa. Ele imaginou um cenário em que caçadores perseguiram o elefante ferido até um lago, onde seu colapso prendeu a lança ao chão.

Marcas de corte na carcaça, particularmente dentro da cavidade torácica, revelaram que os neandertais realizaram um esquartejamento anatômico deliberado. As marcas de incisão precisas e padronizadas, que indicam a extração sistemática de órgãos internos e tecidos de alto valor, são consistentes demais para serem aleatórias ou naturais.

Essas conclusões, que apontam para uma empreitada controlada e trabalhosa, sugerem que nossos parentes mais próximos tinham planejamento estratégico e podem ter vivido em grupos sociais maiores, capazes de abater as maiores presas.

Observar as marcas de ferramentas precisas e deliberadas, feitas há 125 mil anos, permitiu aos pesquisadores reformular a visão sobre os ancestrais pré-históricos dos humanos e aprofundar a compreensão de suas vidas. Não é pouca coisa para os ossos de um único elefante.

Autor: Folha

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