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O México me ensinou que a morte é um caminho com volta – 02/11/2026 – Morte Sem Tabu

Desde quando cheguei à Cidade do México, em julho, me perguntava: como será o Día de Muertos? Com a data se aproximando, notava uma alegria imensa das pessoas ao saberem que eu viveria esse que, logo aprendi, não era um dia, mas uma temporada.

Eu tinha muitas dúvidas. O que é, realmente, a tradição? O filme da Disney é ou não fiel aos ritos? A morte atravessa de forma profunda a minha vida e eu queria saber se morar aqui mudaria a forma de entendê-la.

Embora se chame Día de Muertos, a tradição vai muito além de uma só data. São semanas e, por vezes meses, de dedicação aos mortos. Todo mundo tem os seus. Se diz, inclusive, com todas as letras: Mis muertos.

Em português, a tradução literal para “meus mortos” não é usual. No México, a morte vem com o pronome “meu”, em um gesto revelador de proximidade. Também dizem mis defuntitos, no diminutivo. Pela língua, você e a morte já se tornam íntimos.

O desejo de entender como se celebra, e não se lamenta, me levou a conversar com pessoas de diferentes lugares. Uma palavra saltava em suas falas: convivência. “Existe uma relação entre os vivos e os mortos, uma convivência”, diz Sebastiano Pablo Gomez, de 73 anos, nascido no povo de Santa María Alotepec, em Oaxaca.

Em seu altar, não podem faltar os tamales de feijão [prato tradicional embrulhado em folha de milho], o café, a abóbora, o mezcal [bebida feita de agave], e a comida preferida dos seres queridos. Cada povo, comunidade e família tem seus próprios costumes — aprendi isso ao conversar com as pessoas.

Em seu povo, deve-se, obrigatoriamente, tomar um banho antes da madrugada do dia 2 e vestir uma roupa de preferência nova. Depois, uma pessoa da família sai para buscar as almas para o jantar, enquanto os outros membros esperam em casa, com a comida pronta. “Eles comem primeiro e depois a gente”, explica. No dia seguinte, vai-se de casa em casa, repartindo a comida. O México coletiviza a morte.

Uma semana antes, um grupo de rezadeiras visita as casas do povoado com um sino. As famílias falam o nome dos familiares e, eles, mesmo sem os conhecerem, cantam junto pelas almas. “É uma alegria, um dia para recordar e reconciliar, por isso a gente dança. É uma felicidade única uma vez ao ano”, conta. Em seu altar, ele e os filhos colocam a foto da esposa, falecida há três anos.

“Quando chega outubro, a gente já se prepara, compra os ingredientes. Por mais simples que sejam as pessoas, elas guardam o dinheiro que têm para a oferenda”, conta ele, que é de origem Mixe, um dos 68 povos indígenas do país. Conhecer mais a fundo a cosmovisão mexicana sobre morte é reconhecer as raízes indígenas da região. “Dizemos que jamais fomos conquistados pelos espanhóis.”

Celebrar a morte com cor e festa é uma continuidade e também uma resistência histórica à cosmovisão eurocêntrica, que costuma pedir o silêncio e a ausência de cor para falar do fim da vida. Para Cilintli, de 53 anos, o tempo de celebrar a memória dos que se foram começa em 29 de setembro, quando se dança e se erguem cruzes de Pericón [planta medicinal] na porta das casas.

Em San Juanico Nextipac, na Cidade do México, o calendário anual tem 18 meses. “O tempo dos mortos coincide com o momento de repouso da terra, quando ela fica velhinha. Por isso vêm as flores amarelas e o frio”, explica a curandeira e parteira. “Nós celebramos os mortos durante 2 meses, e não 2 dias.”

Em sua casa, o altar já está posto. Uma variedade de ervas e flores repousa sobre o chão. Ali, também estão esculturas de barro das 12 energias femininas, pré-hispânicas. A morte, para seu povo, é quando o Teo, energia vital, se apaga. Por isso, nas oferendas e nos cemitérios, se acendem velas. O fogo convoca a presença.

Os altares exalam o cheiro das comidas preparadas, das ervas e do Copal, uma espécie de incenso tradicional. “Esse é o momento do ano em que se permite que os mortos entrem e eles se alimentam do cheiro”. Na família de Cilintli, o altar é chamado de mesa de doces. “Para mim, é a melhor época do ano. A gente convive de forma alegre. Nunca esquecemos da nossa ancestralidade.”

A 80 km dali, em Tepoztlán, encontro um senhor conhecido por ser o guardião das memórias do povo. Aos 70 anos, Elias Navarrete abre a porta da casa e logo começa a contar que, desde criança, participa das oferendas da família. Esse é um ano ainda mais especial. É a primeira vez que homenageia a esposa de toda a vida, falecida há dois anos. Segundo a tradição, no primeiro ano de falecimento não se coloca oferenda, porque a alma ainda não está pronta.

Ele espera os mortos com dois tipos de mole [comida de origem indígena com mais de dez condimentos], chayotes [vegetal da região], tamales, arroz com leite, e frutas variadas. Na madrugada do dia 2, cantam toda a noite, sob o alumiar das ruas e panteões. “Você pode chamar um grupo de músicos e cantar as canções que a pessoa gostava.”

Embora cada família prepare a seu modo a data, existe uma presença comum: a flor de Cempasúchil. De cor alaranjada, ela preenche ruas, portas e altares e anuncia que o Día de Muertos chegou. No Mercado Jamaica, na capital, Aurélia Tlapaya, de 52 anos, conta que o preparo começa cinco meses antes. A primeira semente vai para a terra em 5 de junho. Depois de semanas intensas de venda da flor, ela regressa à Puebla, para montar o próprio altar. “Volto para casa, tenho que esperar nossos muertitos“, diz, em meio à multidão transeunte.

Escutando-os, entendi que a fronteira entre quem já foi e quem ainda está não é tão dividida assim. Se, em muitos lugares, o falecimento é um caminho sem volta, no México não. Inclusive, põem pétalas de Cempasúchil no chão de casa, em direção à porta, para que o morto saiba como chegar.

Cada altar traz uma mensagem pessoal, mas também ancestral, que sopra dizendo: é possível olhar o fim com amorosidade. O México tem me ensinado que a morte não é algo que se deve temer, e, sim, com que se deve conviver. De preferência, com cor e sabor.

Autor: Folha

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