quarta-feira, junho 3, 2026
10.1 C
Pinhais

Tarifa dos EUA sobre o Brasil: impactos e riscos econômicos

O governo dos Estados Unidos colocou o setor produtivo brasileiro em alerta máximo. O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) propôs, nesta segunda (1º), a aplicação de uma sobretaxa de 25% sobre uma lista estratégica de produtos importados da nação. A decisão final está marcada para 15 de julho.

Analistas consultados pela Gazeta do Povo apontam que o impacto no Brasil tende a ser limitado em um primeiro momento, mas a capilaridade setorial é profunda.

Os Estados Unidos são o destino de 10,8% do total das exportações brasileiras. A indústria de transformação viu suas vendas para os EUA caírem 4,2% em 2025, totalizando US$ 30,2 bilhões, segundo dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

A medida baseia-se na Seção 301 da Lei de Comércio americana de 1974, que permite sanções unilaterais contra práticas comerciais consideradas injustas. A alíquota efetiva média sobre as exportações subirá de 12,2% para 18,5%.

VEJA TAMBÉM:

  • Flávio anuncia denúncia no STF por Lula sugerir seu enforcamento por “traição” à Pátria

  • Direita busca afastar responsabilidade por tarifaço de Trump e atribui crise comercial ao governo Lula

    Flávio e PL articulam estratégia para se desvincular do tarifaço após ataques de Lula

Quem fica de fora e quem enfrenta o golpe

Cerca de 75% das exportações brasileiras para os EUA (US$ 28,3 bilhões em 2025) ficaram de fora da abrangência da medida, segundo a economista Luiza Pinese, da XP Investimentos. A isenção protege a espinha dorsal das commodities: petróleo bruto, celulose, minério de ferro, café, carne bovina e suco de laranja e inclui aviões comerciais.

Os 25% restantes da pauta exportadora bilateral — aproximadamente US$ 9,5 bilhões — enfrentarão a barreira tarifária. A lista inclui máquinas pesadas (tratores, niveladoras), transformadores elétricos, madeira, granito trabalhado e etanol.

O choque de incerteza: assimetria setorial e contaminação em cascata

Quando o preço sobe, a demanda cai. Se o exportador não consegue repassar o aumento para o cliente americano, absorve o prejuízo. Ele concede descontos, comprime sua margem de lucro e perde participação de mercado.

“O efeito líquido sobre o PIB pode ser menor do que o impacto bruto sobre as exportações, mas maior do que o investidor inicialmente imagina por causa da interação entre margem, câmbio e confiança”, explica Roberto Simioni, economista-chefe da Blue3 Investimentos.

Setores industriais com contratos rígidos de longo prazo e certificações técnicas não conseguem redirecionar seus produtos rapidamente para a Ásia ou Europa. Eles ficam reféns da medida.

A CNI já registra quedas severas que antecedem essa nova imposição. Em 2025, a indústria de metal viu suas vendas para os EUA despencarem 31,6%. A madeira caiu 20%, celulose e papel recuaram 19,9%, e veículos automotores perderam 17,6%.

O efeito se espalha via cadeias de valor. Se a sobretaxa atinge bens intermediários, empresas brasileiras menores que fornecem peças, embalagens e serviços para as grandes exportadoras sentem o baque. Empresas que não vendem um único parafuso para o exterior sofrem por causa da queda na demanda por fretes logísticos, seguros e crédito.

O vetor macroeconômico: câmbio, inflação e a curva de juros

O aumento das barreiras comerciais americanas pode levar à desvalorização imediata do real frente ao dólar. A moeda americana mais cara influencia a estrutura de custos do país. Bens importados, máquinas, peças de tecnologia e fertilizantes sobem de preço.

Com a inflação em alta, o BC perde margem de manobra. Para combater a inflação importada, a autoridade monetária é forçada a manter a Selic restritiva ou até elevá-la. Juros mais altos encarecem o crédito para as empresas expandirem, travam o consumo das famílias e sufocam o crescimento econômico.

Sara Paixão, analista de Macroeconomia da InvestSmart XP, avalia que os efeitos podem ser mais limitados. “A medida conta com uma extensa lista de exceções, que inclui carnes, frutas, cereais e café, o que reduz os impactos sobre os setores exportadores brasileiros. Porém, representa mais um ponto de desgaste na relação bilateral entre Brasil e Estados Unidos.”

Para o consumidor e o empresário: se o real desvaloriza e a inflação sobe, o crédito fica mais caro. Financiamentos de casa, carro e capital de giro para a empresa ficam fora do alcance de muitos.

Insegurança jurídica: quando a política interfere no mercado livre

O aspecto mais sensível e perigoso da medida é sua justificativa. O USTR não está punindo a nação apenas por práticas comerciais como dumping ou subsídios estatais. A investigação, aberta em julho de 2025, mira escolhas regulatórias e institucionais internas.

O governo americano citou explicitamente como “ameaças”:

  • O avanço do comércio digital e do Pix, que Trump acusa de prejudicar empresas financeiras americanas.
  • Ações judiciais contra empresas americanas de mídia social.
  • Políticas ambientais, alegando falhas no combate ao desmatamento ilegal.
  • Medidas insuficientes no combate à corrupção e na proteção da propriedade intelectual.
  • Falta de reciprocidade tarifária no comércio de etanol.

O Pix merece atenção especial. O USTR acusa o governo brasileiro de prejudicar empresas americanas de pagamento eletrônico para favorecer seu “campeão nacional”. O argumento técnico é que o Banco Central atua com duplo papel: é, ao mesmo tempo, regulador do sistema financeiro e proprietário/operador do Pix.

O relatório destaca imposições regulatórias que, na visão do USTR, configuram intervenção estatal: obrigatoriedade de adesão para instituições acima de determinado porte, exibição forçada na tela principal dos aplicativos e controle de preços. Trump acusa o país de intervencionismo estatal no Pix, enquanto sua própria administração impõe barreiras protecionistas.

A resposta oficial do Brasil: defesa técnica e crítica ao protecionismo

O governo brasileiro manifestou indignação com a conclusão preliminar do USTR. Em comunicado, o Itamaraty destacou que a investigação teve início “por provocação da família Bolsonaro” e está “associada à tentativa de ingerência em temas internos do nosso país”.

O governo rebateu as alegações americanas. Os EUA acumularam US$ 424,5 bilhões em superávit de bens e serviços com o país nos últimos 15 anos (2011-2025). Só em 2025, o superávit comercial de bens dos EUA totalizou US$ 14,46 bilhões. Considerando bens e serviços, a cifra sobe a US$ 40,52 bilhões.

Segundo dados oficiais, 76% das importações originárias dos Estados Unidos entraram sem pagar imposto de importação. Oito dos dez principais produtos importados dos EUA tiveram alíquota efetiva zero, incluindo petróleo e derivados, aeronaves, gás natural e carvão. A alíquota média efetivamente cobrada dos produtos norte-americanos foi de apenas 3,1%.

“Entendemos que essa proposta de taxação é totalmente descabível”, pontuou o vice-presidente Geraldo Alckmin após reunião com os ministros Dario Durigan (Fazenda) e Márcio Elias Rosa (Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços).

O deputado Luiz Philippe de Orleans e Bragança, presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, oferece outra perspectiva.

“O novo tarifaço do Trump prejudica as empresas brasileiras. Claro que ele cria uma justificativa de punição para outros temas, não somente comerciais, mas de censura. No entanto, prejudica o empresariado brasileiro, que já é prejudicado pelo governo brasileiro”, disse o parlamentar.

A janela de negociação: diplomacia em movimento

Apesar da tempestade armada, a porta não está completamente fechada. A medida, por enquanto, é uma proposta técnica que passará por análise pública.

O presidente da Amcham Brasil, Abrão Neto, diz que é preciso acalmar as expectativas apocalípticas: “O relatório não é final e reforça que ainda há tempo para evitar a adoção de novas tarifas. O setor empresarial espera que os dois governos intensifiquem seus esforços nas próximas semanas e alcancem uma solução que enderece as questões em discussão.”

O próprio relatório da Seção 301 reconheceu avanços no diálogo diplomático após o encontro entre os presidentes do Brasil e dos Estados Unidos em 7 de maio de 2026.

Conforme acordado pelos presidentes Lula e Trump, estão em curso negociações tarifárias entre os dois países em busca de soluções que resultem no encerramento da investigação, previsto para 15 de julho, sem imposição de medidas contra a nação.

A Amcham adverte que o país deve entrar no radar de uma segunda investigação da Seção 301, focada em produtos elaborados com trabalho forçado, que ameaça cerca de 60 países. Esse acúmulo de investigações torna “ainda mais relevante buscar uma solução negociada”, evitando que as exportações brasileiras fiquem em desvantagem comparada a concorrentes internacionais.

Autor: Gazeta do Povo

Destaques da Semana

Temas

Siga-nos

Conheça Nosso Guia de Compras

spot_img

Artigos Relacionados

Categorias mais Procuradas