Enquanto é retratado com frequência como vilão da inflação, o tomate deixou de ser um bom negócio para boa parte dos produtores brasileiros — muitos fecharam as portas ou abandonaram a cultura nos últimos anos. É nesse cenário que volta, em 2027, o concurso “Melhor tomate de mesa do Brasil”, criado para recompensar quem investe em genética, manejo e qualidade do fruto.
A expectativa dos organizadores é reunir mais de 60 amostras de produtores de diferentes regiões do país, avaliadas por análises físico-químicas e por um painel sensorial. O legume tem variedades como minicaqui, beef-steak, cereja, caqui-vini e cereja-amarelo e pertence a família das solanáceas, com procedência da América Central.
O Brasil se firmou entre os 10 maiores produtores do tomate no mundo, com ênfase da produção nas regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste. O estado de Goiás é o maior produtor do país, tendo registrado em 2024 uma safra de 1,4 milhão de toneladas, que representa 31,4% da produção nacional.
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Volatilidade nos preços interfere na cadeia produtiva
Entre os desafios enfrentados pelo mercado desse hortifruti é a sua alta volatilidade, com preços que variam conforme a oferta, a demanda e os fatores climáticos. Sua produção se divide entre os tomates para o consumo in natura e o tomate industrial direcionado aos molhos, extratos e polpas.
Do lado do produtor, há desafios para manter a rentabilidade frente a custos crescentes, alta incidência de pragas e doenças. “Isso faz com que em determinados momentos os preços atinjam patamares bem altos, porém não é comentado pela mídia quando esses preços ficam, muitas vezes por um longo tempo, em patamares abaixo dos custos de produção, resultando em severos prejuízos aos produtores, cenário observado com frequência desde meados de 2024”, aponta João Paulo Bernardes Deleo, pesquisador de Hortaliças do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Esalq/USP (Universidade de São Paulo).
O especialista contextualiza que, desde março, os preços do tomate estão em níveis acima dos custos de produção, porém iniciam um período de queda, típico do segundo semestre. “Pela redução de área cultivada, acredito que na maior parte desse segundo semestre os valores se sustentam acima dos custos de produção, porém pode haver períodos de maior concentração da oferta, em que os preços tenham quedas mais acentuadas, e sejam negociados a valores menores”, diz Deleo.
Ele classifica o produtor de tomate como um perfil corajoso, em assumir tamanho risco em uma cultura rentável. “Muitos cresceram e construíram seu patrimônio a partir da tomaticultura. Mas outros quebraram também, e perderam seu patrimônio. Os desafios são muitos, e começam como uma boa gestão da produção e da comercialização, mas vão além da dependência individual de cada produtor”, lembra.
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Incentivo ao produtor e valorização do setor
A busca pela melhora na produção está interligada com a proposta de desenvolvimento da cultura do tomate por Andrés da Silva, sócio-fundador da empresa Eacea, especializada em projetos de cultivo protegido de média e alta produtividade. Daí surgiu o concurso “Melhor tomate de mesa do Brasil”, realizado em 2015.
“Os consumidores são ávidos por produtos de qualidade, com sabor, garantia de origem e comprovadamente seguros para a alimentação das famílias. Nosso objetivo é incentivar o produtor a melhorar a qualidade de seus tomates, investir em marketing, tecnologia e valorizar toda a cadeia produtiva do legume”, diz ele.
Silva trabalhou no Canadá, EUA e México em cultivo de tomates e observou a valorização do produtor. “Voltando para o Brasil em 2010, junto com a minha sócia canadense, Véronique Garon, quisemos criar este evento para incentivar os produtores que primam pela qualidade. O melhor tomate não é somente a melhor genética, mas sim o resultado de um trabalho contínuo do produtor”, defende.
A primeira edição do evento contou com a participação de 20 produtores de São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo e do Paraná, que se inscreveram em três categorias de tomate: redondo, italiano e uva. “Além da degustação, fazemos análises físico, químicas, calculamos o índice de sabor de cada amostra”, conta Silva.
Um dos participantes do primeiro concurso se prepara para a nova rodada de avaliação dos tomates de mesa. Gerente técnico de Produção e Comercialização de FLV My Sweet Salad, Davi Nunes tem a meta de ser classificado entre os três primeiros colocados nas categorias italiano e uva. “Quanto mais o elo da produção for capaz de oferecer tomates de qualidade aos consumidores brasileiros, mais eles entenderão o que é um bom tomate para cobrar do varejo”, diz ele.
A edição de 2027 do concurso “Melhor tomate de mesa do Brasil” prevê uma nova categoria, a gourmet, na qual serão elencadas as novidades que estão chegando ao mercado, como os tomates coloridos, rama e os engomados. Também é esperado que haja premiação para o produtor mais jovem, para a participação feminina, para o melhor sistema de rastreabilidade e ao produtor que se destacar pelo manejo sustentável da produção.

O evento terá uma comissão avaliadora composta pelo Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital-APta), da Secretaria de Agricultura e do Abastecimento do Estado de São Paulo. “Serão prêmios para a revelação do ano, o mais saboroso e o mais diferenciado. Esta categoria contará com a participação de 60 consumidores, que avaliarão o impacto das características de aparência, sabor e textura conforme suas percepções”, conta Silva.
A comissão organizadora enviará as amostras finalistas de cada categoria para um laboratório externo na realização de análises de resíduos químicos e bioquímicos. Caso a amostra não se enquadre nos limites estabelecidos pela legislação vigente, o produtor será desclassificado.
Autor: Gazeta do Povo








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