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Traição: por que é difícil deixar o parceiro – 30/05/2026 – Equilíbrio

Um leitor do The New York Times envia um relato à terapeuta Lori Gottlieb: “Meu marido, com quem estou casada há dez anos, foi infiel em quatro ocasiões. Essas traições se estenderam por vários anos, mas com contato esporádico. Após a primeira revelação, fiquei arrasada, mas conseguia ver uma saída.

“A descoberta mais recente aconteceu há dois anos, pouco depois da chegada do nosso tão esperado segundo filho. Arrasada pela dor, pelos hormônios do pós-parto e pela privação de sono, decidi, mais uma vez, ficar, mas não sinto mais nenhuma convicção sobre nosso relacionamento. Sei que deveria ir embora; qualquer medo de ficar sozinha ou do impacto sobre meus filhos silenciou diante da minha crescente certeza de que deixá-lo é a coisa certa a fazer.

“E, no entanto, ainda estou aqui. Cresci me sentindo incompreendida e achando que o amor era condicionado às minhas notas e a ser boazinha. Minha mãe cresceu vivenciando traumas horríveis, que nunca foram tratados; meu pai é emocionalmente atrofiado. Meu pai traiu minha mãe e depois a deixou pela mulher que agora é sua segunda esposa.

“Quero ser sacudida e acordada, sair da inércia e entrar em uma nova vida.”

Lori Gottlieb responde: Entendo por que você está confusa com a distância entre o que acredita ser o melhor curso de ação (ir embora) e o que está realmente fazendo (ficando). O que está mantendo você presa na inércia é o seguinte: você não está apenas lutando para decidir se deve deixar seu casamento; está lutando para decidir se deve deixar o que sempre pareceu ser seu lar, muito antes de conhecer seu marido.

Nossas experiências de amor são formadas na infância. O que pode ser menos aparente é por que você repetiria algo que lhe causou dor. Não seria lógico que, se você se sentiu insegura, incompreendida e amada condicionalmente quando criança, fizesse de tudo para encontrar um parceiro com quem pudesse criar um tipo diferente de relacionamento amoroso?

O problema é que existe uma parte em muitos de nós, fora da nossa consciência, que é inexoravelmente atraída pelo familiar. Não é coincidência que pessoas que tiveram pais raivosos frequentemente acabem escolhendo parceiros raivosos ou aquelas que cresceram com traição acabam escolhendo parceiros com tendência a trair também.

Por que as pessoas fariam isso consigo mesmas? Porque a atração por aquela sensação do familiar torna difícil separar o que elas querem como adultas do que vivenciaram quando crianças.

O psicoterapeuta Terry Real colocou desta forma: nos casamos com nossos assuntos inacabados. Se não trabalhamos o que nos machucou quando crianças, recriamos isso na vida adulta porque nosso subconsciente tem um sistema de radar finamente sintonizado para o que reconhece como “lar”.

Sigmund Freud chamou isso de “compulsão à repetição”. Não é apenas que buscamos o conforto do familiar. É que queremos dominar uma situação na qual nos sentimos impotentes quando crianças. Talvez desta vez, imagina o subconsciente, eu possa voltar e curar aquela ferida de muito tempo atrás. Para isso, me envolvo com alguém semelhante —mas novo. Claro que, ao escolher esses tipos de parceiros, obtemos o resultado oposto: reabrimos essas feridas e nos sentimos ainda menos amados.

Essa atração subconsciente é o que leva ao seu “e, no entanto”. É a parte que está trabalhando para manter o que você conhece tão bem: absorvendo, adaptando e negando suas próprias necessidades para que o relacionamento pareça com o que você está acostumada.

Quando o amor está ligado ao desempenho, a ser “boazinha”, a não perturbar o equilíbrio emocional do lar, você aprende a ignorar seus próprios sinais. Você se torna hábil em tolerar o que não parece certo porque, quando era criança, sua sobrevivência dependia disso. Mesmo que você não dependa mais disso, seu sistema interno diz: isso é suportável. Seu eu adulto acha a situação intolerável, mas o sistema interno prevalece. Há um conforto terrível no sofrimento que você reconhece.

Mas uma vez que você consiga trazer o conflito subjacente para a consciência, perceberá que sua “apatia” não é indiferença de forma alguma. As pessoas frequentemente confundem entorpecimento com vazio, mas é uma resposta a estar sobrecarregada por sentimentos demais. Especialmente no pós-parto e após repetidas feridas, a psique se protege amortecendo tudo: luto, raiva, tristeza, vergonha. Você sabe que tudo isso está lá. Está apenas esperando seu sistema nervoso se recalibrar.

Enquanto isso acontece, você pode se perguntar: que tipo de amor me parece possível —e estou disposta a superar a versão de mim mesma que aceitou menos?

Esse é o trabalho —não se convencer a ir embora, mas escavar a parte de você que aprendeu, jovem, que seus desejos eram secundários e que o amor exigia que você fosse um certo tipo de boazinha. É perceber que decisões exigem que você acredite que seus desejos importam o suficiente para agir. É entender como as pessoas que deveriam modelar relacionamentos seguros e honestos, em vez disso, lhe entregaram um projeto para o relacionamento em que você está agora.

Tudo isso é difícil de fazer sozinha, e um bom terapeuta pode guiá-la nesse processo. Com clareza e autocompaixão, você começará a dar pequenos passos manejáveis não apenas para se afastar dessa situação conjugal dolorosa, mas também da arquitetura que herdou.

Autor: Folha

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