sexta-feira, abril 17, 2026
22.9 C
Pinhais

Uso de controverso sistema chinês dificulta delação de Vorcaro

A delação premiada de Daniel Vorcaro, que ganhou novo impulso após a prisão do ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), esbarra em um obstáculo central que pode definir seu alcance: a dificuldade de rastrear e recuperar os recursos sob investigação da Polícia Federal (PF).

A defesa sustenta que o ex-controlador do Banco Master pretende firmar uma colaboração ampla — com possíveis menções a figuras de alto escalão, incluindo ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), além da possibilidade de devolução de até R$ 40 bilhões.

No entanto, esses recursos permanecem dispersos em estruturas financeiras complexas, no Brasil e no exterior, o que dificulta tanto sua localização quanto uma eventual devolução.

Além da rede de fundos atribuída a Vorcaro, o rastreamento é especialmente desafiador porque muitos dos destinos envolvem paraísos fiscais ou jurisdições com regras mais frágeis de supervisão financeira, como China e Emirados Árabes Unidos.

No caso chinês, o desafio ganha uma camada adicional, já que o Master se tornou, em junho de 2025, o primeiro banco brasileiro a aderir ao Cross-Border Interbank Payment System (Cips), um sistema de pagamentos internacionais em yuan estruturado como alternativa às redes financeiras tradicionais utilizadas globalmente.

Segundo fontes ouvidas pela reportagem, o Cips, que se insere na estratégia geopolítica chinesa de reduzir a dependência do sistema financeiro ocidental, opera com menor padronização de supervisão e transparência nas transações.

VEJA TAMBÉM:

  • Relatório da CPI mostra como Vorcaro usou 300 festas de luxo para influenciar autoridades
  • Delação de Vorcaro avança sob pressão de mais prisões e possível devolução de R$ 40 bilhões

Sistema chinês dificulta rastreamento de recursos

Para Washington Fonseca, advogado criminalista e professor do Ibmec em Investigações Corporativas, essa diferença tem implicações práticas relevantes.

Em sistemas integrados ao Ocidente, o fluxo financeiro é mais facilmente auditável, com atuação de autoridades de outros países, o que favorece investigações sobre lavagem de dinheiro e corrupção.

“Uma das grandes vantagens do Swift [sistema global de mensagens financeiras usado por bancos para transferências internacionais] é que muitas operações passam, de alguma forma, pelos Estados Unidos, abrindo espaço para investigações por órgãos como o Departamento de Justiça americano”, diz.

Já em estruturas alternativas, como o modelo chinês, marcado por maior centralização estatal, a situação se inverte, dificultando o rastreamento dos recursos. “Na prática, rastrear esse dinheiro [na China] pode ser como procurar agulha no palheiro”, afirma.

Para Fábio Solto, especialista em direito penal econômico, o uso da alternativa pelo ex-banqueiro é revelador. “Não tenho dúvida de que se buscava um sistema para operar mais nas sombras”, afirma. Isso faz parte, segundo ele, de uma estratégia mais ampla de movimentação de recursos.

“Há estruturas paralelas, inclusive em bancos digitais, que permitem movimentar recursos com menos visibilidade e fora do alcance direto do regulador, por meio de uma conta matriz para múltiplas transações.”

No caso do sistema chinês, destaca, o rastreamento e repatriação de ativos tende a depender de um grau mais elevado de cooperação internacional — especialmente das autoridades chinesas.

“O problema é a centralização dos dados na China e o acesso limitado a informações”, diz. “A China é mais fechada e não tem interesse em expor seus clientes.”

Carlos Henrique, CEO da fintech Sttart Pay, acredita que o desfecho do caso Master tende a depender mais da qualidade dos controles internos da instituição e da resposta dos reguladores. Nesse sentido, o caso pode funcionar como um teste para o próprio Cips.

Demora de delação de Vorcaro pode levar a desaparecimento de recursos

A demora no processo de delação contraria os interesses de Vorcaro, que, segundo investigadores, teria estruturado o esquema justamente para dificultar o rastreamento dos recursos e a identificação de seus reais beneficiários. Agora, com o acordo de colaboração, ele precisa indicar onde está seu patrimônio para permitir o bloqueio dos valores.

“Se a delação de Vorcaro demorar, esses valores podem desaparecer, especialmente se estiverem em nome de terceiros, o que é provável”, diz Solto.

Além disso, Vorcaro terá de comprovar que não oculta recursos e que está disposto a devolver valores substanciais aos cofres públicos em troca de benefícios, como a redução de pena.

Para Solto, embora a delação tenha elementos para ser aceita pela Polícia Federal, “a decisão será sempre política”, já que o detalhamento das operações pode levar autoridades ao centro das investigações, com potencial para abrir novas frentes de crise.

“Em regra, o que se vê é que o delator costuma ir até onde precisa, revelando o suficiente para obter o benefício”, diz o especialista em direito penal econômico.

VEJA TAMBÉM:

  • “Vorcaro Air”: CPI diz que jatos de banqueiro serviram 4 ministros e voaram para o Gilmarpalooza

Autor: Gazeta do Povo

Destaques da Semana

Temas

Siga-nos

Conheça Nosso Guia de Compras

spot_img

Artigos Relacionados

Categorias mais Procuradas