A Polícia Federal (PF) do Brasil desmantelou uma rede transnacional que traficava pessoas para o Camboja, onde eram forçadas a aplicar golpes online. As autoridades identificaram 406 vítimas — 83 brasileiros e 323 estrangeiros — e emitiram dois Avisos Vermelhos e nove Avisos Azuis contra suspeitos procurados e pessoas de interesse para as investigações.
A operação envolvendo o Camboja faz parte de uma ofensiva internacional da Interpol coordenada contra o tráfico de pessoas que resultou na identificação total, ao redor do mundo, de 2.070 vítimas, na prisão de 1.024 suspeitos e na abertura de 465 investigações. A operação “Global Chain”, deflagrada no mês passado, reuniu forças de segurança de 59 países da África, Américas, Ásia e Europa em um esforço direcionado contra redes de tráfico envolvidas em exploração sexual, trabalho forçado, atividades criminosas e mendicância forçada.
No Brasil, as investigações começaram em 2022. No ano passado, dois brasileiros foram resgatados em um complexo na fronteira entre Camboja, Tailândia e Mianmar. Eles sofreram tortura e trabalho forçado no país após perder o contato com os familiares durante quase três meses.
Os dois brasileiros viajaram para Bangkok, capital tailandesa, após terem sido chamados para trabalharem em um cassino e em um call center para uma empresa. Quando chegaram lá, um carro que os levaria para a suposta empresa os conduziu para um local remoto no sudeste asiático.
A partir de então, as notícias sobre o paradeiro deles foram ficando cada vez mais raras e começaram os relatos de sequestro e trabalho forçado. Cerca de seis meses depois, a PF resgatou uma pernambucana em Mianmar. O resgate fez parte da operação “Double Key”, concluída neste mês com o retorno da vítima ao país.
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Brasileiros denunciados pelos crimes aguardam extradição da China
Em maio, o Ministério Público Federal (MPF) apresentou denúncia à Justiça Federal, em São Paulo, contra três brasileiros e um chinês pelos crimes de tráfico internacional de pessoas para fins de trabalho escravo e organização criminosa. Apenas em 2022, o grupo aliciou e levou para o Camboja pelo menos 17 pessoas, que eram obrigadas a trabalhar em jornadas exaustivas aplicando golpes financeiros na internet contra outros brasileiros.
Dois dos brasileiros denunciados pelos crimes estão presos na China, aguardando extradição para o Brasil. O Camboja, país do sudeste da Ásia, é o epicentro de um fenômeno criminoso que assola essa região: a retenção de pessoas em trabalho forçado ou análogo à escravidão para que cometam crimes pela internet.
Em 2023, o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC, na sigla em inglês) divulgou um relatório que apontou o crescimento desse tipo de golpe no sudeste asiático. Segundo o escritório da ONU, situações em que pessoas são enganadas para serem obrigadas a cometer crimes já representam 10,2% de todos os casos de tráfico de pessoas relatados em todo o mundo.
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Operação foi coordenada no Brasil a partir do Rio de Janeiro
A operação “Global Chain” foi liderada por autoridades da Áustria e da Romênia e coordenada em conjunto por Interpol, Europol, Frontex e Ameripol, tendo resultado em 334 prisões por crimes de tráfico de pessoas e 690 prisões por crimes associados.
Durante os cinco dias da operação, policiais, autoridades de fronteira e unidades especializadas no combate ao tráfico fiscalizaram passagens de fronteira, aeroportos e outros centros de transporte, bem como locais identificados como pontos críticos de tráfico por meio de investigações. Os países participantes compartilharam informações de inteligência policial em tempo real por meio da rede de comunicação segura I-24/7 da Interpol, bem como pelos canais da Europol e da Ameripol, permitindo cruzamento de dados e ações de fiscalização coordenadas.
Em apoio às investigações, a Interpol emitiu 17 novos avisos (notices), enquanto as fiscalizações de fronteira geraram 20 correspondências positivas em relação a avisos já existentes. Dois centros de comando internacionais foram estabelecidos em Skopje (Macedônia do Norte) e no Rio de Janeiro (Brasil) para facilitar reuniões de planejamento operacional, suporte analítico e comunicação direta entre os países.
Embora as vítimas fossem provenientes de 45 países de diversas regiões, a maioria era originária da Argentina, Colômbia e Venezuela, bem como da Moldávia e do Nepal. Muitas foram traficadas através de fronteiras após serem enganadas, coagidas ou escolhidas como alvo devido às suas situações de vulnerabilidade.
Na Argentina, a Polícia Federal realizou duas operações de busca e apreensão, resgatando duas crianças bolivianas vítimas de trabalho infantil — exploradas em um mercado — e prendendo os traficantes. As investigações revelaram uma rede de exploração coordenada maior, que atuava em diversos locais.
Autoridades na Bélgica prenderam 17 suspeitos após desmantelarem uma rede de tráfico que recrutava meninas menores de idade pelas redes sociais. Os suspeitos mantinham as vítimas em cativeiro, forçando-as a integrar redes de prostituição na Bélgica e na França. As vítimas identificadas durante a operação “Global Chain” foram encaminhadas para serviços nacionais de proteção e apoio.
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Tráfico de pessoas é atividade de lucro para o crime organizado — não só no Camboja
“O tráfico de pessoas continua sendo uma das formas mais lucrativas e disseminadas de crime organizado em todo o mundo, gerando centenas de bilhões em receitas ilícitas anualmente e causando danos graves e duradouros às vítimas”, afirma o secretário-geral da Interpol, o delegado da Polícia Federal brasileira Valdecy Urquiza.
As descobertas operacionais recentes envolvendo o Camboja destacaram a evolução das rotas e métodos de tráfico de pessoas, ilustrando como as redes criminosas continuam a se adaptar às mudanças nas oportunidades econômicas, nas dinâmicas migratórias e nos desdobramentos geopolíticos.
Entre as tendências identificadas estavam o tráfico de vítimas latino-americanas para trabalho forçado na Europa, a exploração dessas pessoas em atividades criminosas no sudeste asiático e casos de tráfico ligados ao envolvimento forçado em conflitos armados. Aproximadamente 10% das vítimas eram menores de idade das Américas submetidas à exploração sexual.
Autor: Gazeta do Povo








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