Prometida como atalho para mais força, energia e ganho muscular, a testosterona virou uma obsessão popular nas redes sociais.
Agora, a “mania” alcançou o Exército dos Estados Unidos, que passará a medir os níveis do hormônio em soldados com mais de 30 anos e a incentivar a reposição hormonal.
Mas a testosterona nem sempre entrega o resultado propagandeado. Segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, seu uso —por cápsulas, géis, adesivos ou injeções— pode ter efeito limitado quando não há indicação médica, é feito sem acompanhamento especializado, em doses inadequadas ou esbarra em fatores como hábitos de vida e algumas condições de saúde.
Veja, abaixo, cinco motivos pelos quais a testosterona pode não ser eficaz —e até ser contraindicada— para resolver seus problemas e entenda por que os benefícios do hormônio dificilmente superam os riscos.
1. Você talvez nem precise dela
Um dos principais motivos para que não se note diferença após o uso da testosterona é bastante simples: a falta de necessidade de tomá-la.
Segundo o professor Bruno Gualano, presidente do Centro de Medicina do Estilo de Vida da Universidade de São Paulo, nem sequer faz sentido medir rotineiramente os níveis de testosterona, como o Exército americano pretende fazer.
“Ao olhar da ciência, não existe uma pandemia de hipogonadismo social, ou seja, as pessoas não têm um déficit de testosterona coletivamente”, ele afirma.
A avaliação é compartilhada pelo endocrinologista Clayton Macedo, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e diretor de comunicação da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia.
“Nenhuma sociedade médica recomenda medir testosterona em toda a população. Isso não é uma conduta científica”, explica.
“Essa triagem indiscriminada pode inclusive identificar pessoas saudáveis com valores limítrofes —no limite entre o normal e o alterado—, que acabam servindo de gancho para prescrições inadequadas.”
O médico acrescenta que “a testosterona, por interesses mercadológicos, tem sido vendida como solução para inúmeros problemas que, na maioria das vezes, não têm relação com esse hormônio”. “Está cansado? É testosterona. A libido está baixa? É testosterona. Quer emagrecer ou ganhar músculo? É testosterona”, ele lista.
Ele afirma que, antes de indicar qualquer tratamento, é preciso identificar a causa dos sintomas, e não apenas tentar aliviar suas consequências. “O exemplo clássico é a obesidade. Nesses casos, há maior conversão da testosterona na gordura, mas o tratamento é emagrecer, não repor testosterona”, afirma.
O endocrinologista recorre a outra comparação para ilustrar o raciocínio: “Até cocaína deixa o cara mais animado. Nem por isso a gente vai prescrever cocaína”.
Gualano ressalta que a reposição só é indicada quando a queda da testosterona não está ligada a fatores reversíveis, como a obesidade. Ainda assim, o tratamento nunca tem como objetivo proporcionar um ganho extraordinário de força.
“O objetivo é normalizar os níveis do hormônio para que a pessoa recupere força, massa muscular e vitalidade semelhantes aos de alguém com produção normal de testosterona. A ideia não é proporcionar um desempenho acima do normal”, explica.
2. Cada organismo reage de um jeito
Ter testosterona circulando no sangue não basta. Para produzir seus efeitos, o hormônio precisa se ligar ao receptor de andrógeno, uma proteína presente em diferentes tecidos do organismo, como músculos, ossos, cérebro, próstata e pele.
No tecido muscular, por exemplo, essa ligação estimula a síntese de proteínas, reduz sua degradação e favorece a regeneração das fibras.
Há variações genéticas na sensibilidade desses receptores. Assim, pessoas com níveis semelhantes de testosterona podem responder de formas diferentes ao hormônio, e até mesmo quem tem menos testosterona pode aproveitar melhor sua ação do que alguém com níveis mais altos.
Além disso, pessoas com quantidades parecidas de testosterona e a mesma sensibilidade dos receptores podem apresentar níveis diferentes de força e disposição, pois a baixa vitalidade nem sempre é causada pela falta do hormônio, acrescenta Gualano, da Faculdade de Medicina da USP.
“Estamos sempre sendo sugados pelo trabalho e por uma sociedade que exige que a gente performe mais do que é capaz. Isso leva ao esgotamento físico e mental. Mas a causa disso não é falta de testosterona. O tratamento seria reduzir o estresse, desacelerar, aliviar a pressão”, ele explica.
3. O hormônio não age sozinho
A testosterona faz parte de uma cadeia de hormônios produzidos a partir do colesterol.
Quando administrada como medicamento, ela chega pronta ao organismo, dispensando essa etapa de produção. Mas isso não significa que seus efeitos estejam garantidos.
Após entrar na circulação, o hormônio ainda precisa chegar aos tecidos, penetrar nas células, ligar-se aos receptores de andrógeno e ativar genes responsáveis pela síntese de proteínas e pelo crescimento muscular.
Se esse processo for comprometido —por fatores como doenças, deficiências nutricionais ou alterações metabólicas—, a resposta do organismo pode ser menor do que o esperado.
4. Você pode ter deficiência nutricional
Mesmo quando a testosterona cumpre todas as etapas necessárias para agir no organismo, ela ainda depende de nutrientes para que esse estímulo se traduza em ganho de energia, força e massa muscular.
O fósforo, por exemplo, é essencial para a produção de ATP, o trifosfato de adenosina, a principal molécula responsável por armazenar e fornecer energia para as células.
O magnésio, por sua vez, é necessário para que essa energia seja utilizada em centenas de reações do corpo, entre elas a síntese de proteínas, responsável pelo crescimento das fibras musculares.
Há ainda o ferro, indispensável para levar até os tecidos oxigênio, sem o qual os músculos produzem menos energia, fatigam mais rapidamente e demoram mais para se recuperar.
Em outras palavras, mesmo que a testosterona seja produzida em níveis adequados pelo próprio corpo ou administrada como tratamento, seus efeitos podem ser menores porque faltam recursos nutricionais para transformar o hormônio em estímulo.
5. Doenças como obesidade e diabetes são entraves
Algumas doenças também reduzem a capacidade do organismo de responder à testosterona.
Na obesidade, por exemplo, o excesso de gordura libera substâncias inflamatórias que alteram o funcionamento das células musculares. Com isso, elas passam a responder menos aos sinais enviados pelo hormônio para estimular o crescimento —um fenômeno conhecido como resistência anabólica.
O diabetes tipo 2, por sua vez, produz um efeito semelhante por outro mecanismo.
A resistência à insulina, característica da doença, dificulta a entrada de glicose nas células e reduz a eficiência da síntese de proteínas, essencial para o crescimento e a recuperação muscular.
Riscos dificilmente superam os benefícios
De toda forma, mesmo quando produz os efeitos esperados por seus usuários, o uso de testosterona envolve uma série de riscos.
Quando há indicação médica —em situações específicas nas quais não há outra alternativa terapêutica—, os benefícios costumam superar esses riscos. Para quem usa o hormônio sem necessidade clínica, porém, essa lógica não se aplica, afirmam os especialistas ouvidos pela BBC News Brasil.
Os efeitos adversos são bem conhecidos. O hormônio estimula as glândulas sebáceas, favorecendo o surgimento de acne, e pode suprimir a produção natural de testosterona pelos testículos, reduzindo também a produção de espermatozoides e levando à infertilidade.
Em doses elevadas, a ingestão de testosterona também estimula a produção de glóbulos vermelhos, tornando o sangue mais espesso e favorecendo a formação de coágulos. Isso eleva o risco de complicações cardiovasculares, como infarto e AVC.
Outro efeito é a hipertrofia cardíaca, um espessamento do músculo do coração.
Embora possa parecer um sinal de fortalecimento, essa alteração compromete o funcionamento do órgão e aumenta o risco de outros eventos cardiovasculares.
Os efeitos não demoraram a aparecer. O empresário João Possato, de 24 anos, conta à BBC News Brasil que nem precisou de muitos exames para perceber que a testosterona estava lhe fazendo mal.
“Meu relógio chegou a perguntar se eu queria registrar uma caminhada quando eu estava sentado no sofá. Olhei para o relógio e meu batimento estava em 110, 120 [por minuto]. Primeiro achei que fosse excesso de café, aí comecei a cortar tudo. No fim, a única variável que restou foi o hormônio. Eu tinha arritmias o dia inteiro. Meu coração acelerava sem motivo nenhum. Isso começou a me assustar”, ele relata.
Ele conta que começou a usar o hormônio porque, após oito anos de musculação, embora já tivesse ganhado quase 30 quilos de massa magra, sentia que sua evolução havia estagnado.
Fez exames, que mostraram níveis hormonais dentro da normalidade, mas diz que, diante do cansaço da rotina e do trabalho, passou a convencer a si mesmo de que tudo aquilo era consequência da falta de testosterona.
“No começo eu trabalhava, trabalhava, trabalhava e não percebia que tinha chegado ao meu limite. Perdi a percepção do cansaço. Muitas vezes ultrapassava meu limite e só percebia na manhã seguinte, quando acordava completamente destruído”, conta.
“No primeiro mês parecia incrível, eu me sentia o Super-Homem, porque podia trabalhar além da conta e no dia seguinte parecia descansado. Mas depois virou um fardo.”
Possato, que hoje compartilha sua experiência no TikTok para alertar sobre os riscos do uso da testosterona, conta que aplicou o hormônio por oito meses antes de decidir interromper o tratamento.
Além dos efeitos colaterais, ele afirma que cada aplicação aumentava seu peso na consciência. Até que, há três meses, procurou um médico para interromper o uso e iniciar um tratamento que estimule os testículos a voltar a produzir testosterona naturalmente.
Essa é uma dificuldade comum entre usuários do hormônio, já que o organismo reduz ou interrompe sua produção quando ele passa a ser administrado de forma externa.
“O hormônio é barato. Já as medicações para o tratamento são caras. Além disso, você precisa fazer consultas e muitos exames. É aí que muita gente se engana”, ele afirma, acrescentando que a interrupção do uso também desencadeou um forte impacto emocional.
“Passei cerca de dois meses muito difíceis. Já tive problemas relacionados à depressão no passado e posso dizer que a sensação dos primeiros meses depois de interromper o uso é muito parecida. Muitas vezes você não tem vontade nem de levantar da cama.”
É diante dessas dificuldades que iniciativas como o Saindo do Suco com Segurança, da Unifesp, buscam oferecer apoio a quem deseja interromper o uso de testosterona e outros anabolizantes.
“Suco” é como essas substâncias são frequentemente chamadas no meio das academias e nas redes sociais. O projeto oferece atendimento voluntário, gratuito e sigiloso, realizado por uma equipe multidisciplinar. Os interessados devem entrar em contato pelo e-mail [email protected] para obter orientações.
Autor: Folha








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