Programas de capacitação em STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática, na sigla em inglês) voltados exclusivamente para o público feminino buscam reverter a baixa presença de mulheres na tecnologia no Brasil.
Elas representam apenas 20,7% nas ocupações de setores nativos tecnológicos no país, segundo um levantamento da FIEMG (Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais).
Por outro lado, estão mais presentes em funções com risco de automação e retração no mercado de trabalho, como atendentes de serviços postais, caixas bancários e operadores de caixa.
Para Lídia Michelle, doutoranda em comunicação na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), embora haja um déficit na qualificação feminina no setor —mulheres são cerca de 15% nos cursos de graduação em computação no Brasil—, há questões culturais que explicam essa disparidade.
“Muitas dessas mulheres não se sentem confortáveis em sentar num banco de universidade para estudar exatas. Culturalmente, as mulheres não são vistas como pessoas que podem atuar de maneira racional.”
Michelle, que pesquisa iniciativas para qualificar mulheres na tecnologia, afirma que a atuação desses programas extrapola o letramento técnico e fortalece outra perspectiva para as participantes. “Elas se sentem confortáveis para perguntar, tirar dúvidas, para existir naquele espaço.”
Iana Chan, diretora-executiva da PrograMaria, explica que a computação era uma área predominantemente feminina na década de 1950, antes de a função ser automatizada por máquinas. Mulheres formavam a maioria da primeira turma de Ciências da Computação da USP (Universidade de São Paulo).
O cenário começou a se inverter a partir da década de 1980. Isso ocorreu com os avanços do software e da importância econômica da tecnologia, quando a presença masculina passou a ser majoritária.
“Foi nessa época que fortaleceu a narrativa de que as mulheres não são boas em matemática, de que tecnologia não é para mulheres. E hoje a gente encontra essa ideia reforçada desde a infância”, afirma Chan.
Um levantamento do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), que analisou dados de mais de cem países e territórios, mostra que os meninos têm até 1,3 vezes mais chances de obter as habilidades matemáticas necessárias em comparação às meninas.
Segundo a pesquisa, estereótipos negativos de gênero sobre a suposta incapacidade das meninas de entender matemática contribuem para essa disparidade.
Para enfrentar esse cenário, organizações da sociedade civil e empresas têm criado programas e encontros voltados exclusivamente para mulheres ou com foco na ampliação da diversidade no setor. Conheça algumas iniciativas.
PrograMaria
A iniciativa oferece desde cursos introdutórios de programação até formações mais avançadas e mantém uma comunidade para networking e troca de experiências entre mulheres da área.
A organização está com inscrições abertas, até o dia 1º de setembro, para o Programando Recomeços, iniciativa voltada para mães que foram demitidas no retorno da licença maternidade.
O programa vai destinar 300 bolsas para capacitar mulheres em habilidades requisitadas pelo mercado, como análise de dados e inteligência artificial.
Site: programaria.org
Manas na Tech
A B3, a bolsa do Brasil, está com inscrições abertas, até o dia 7 de agosto, para a 7ª edição do Programa de Estágio Manas da Tech.
Podem participar mulheres cis ou transgênero matriculadas em cursos de tecnologia, matemática, estatística, física ou engenharia, com conclusão prevista a partir de setembro de 2027.
Metade das vagas é reservada a estudantes pretas ou pardas. É necessário ter disponibilidade para atuar no centro de São Paulo (SP) ou em Santana do Parnaíba.
O programa é voltado ao desenvolvimento de competências técnicas em plataformas como Alura, Oracle e Microsoft, e oferece mentorias e acompanhamento individual para as participantes. Desde sua criação, já formou 80 estudantes, das quais 72% foram efetivadas na companhia.
Site: b3.com.br
STEM Women Congress
O STEM Women Congress é uma rede global que busca acelerar a inclusão de mulheres na tecnologia. A iniciativa organiza conferências em diversos países para reunir lideranças femininas do setor e promover discussões.
A edição brasileira deste ano acontece no próximo 19 de agosto, na Fecap (Centro Universitário Álvares Penteado), em São Paulo.
Site: globalstemwomen.org/sao-paulo
WoMakers Code
A WoMakers Code é uma organização sem fins lucrativos brasileira que oferece formação técnica, mentoria e possibilidades de conexões para mulheres na tecnologia. Integrantes da rede têm direito a 20% de desconto no ingresso para o STEM Women Congress 2026.
A iniciativa atua em parceria com outras empresas do setor para qualificação e recrutamento. Além da plataforma permanente, a ONG abre regularmente turmas gratuitas de programas intensivos de desenvolvimento de softwares.
Site: womakerscode.org
Reprograma
O Reprograma oferece cursos de programação gratuitos, para uso de linguagens como Python e JavaScript, voltados a mulheres em situação de vulnerabilidade social. A organização prioriza a inscrição de mulheres negras, trans e travestis.
Segundo a iniciativa, a taxa de empregabilidade é de 68,8% entre alunas formadas após seis meses de conclusão dos cursos.
Na próxima segunda-feira (10), terá início a turma do curso Todas em Tech Futuro+: IA Aplicada, que capacita mulheres a usar inteligência artificial para aumentar a produtividade em seus fluxos diários de trabalho em diferentes áreas.
Site: reprograma.com.br
PretaLab
Já o PretaLab busca conectar mulheres negras que já são ou gostariam de ser da tecnologia. A plataforma oferece cursos, conecta profissionais em rede e produz estudos sobre o impacto das mulheres negras no mercado de tecnologia.
Site: pretalab.com
PyLadies Brasil
O PyLadies é uma comunidade mundial de mulheres amantes da programação na linguagem Python. Originária nos Estados Unidos, o grupo promove cursos gratuitos, mentorias, palestras e eventos voltados a iniciantes e profissionais.
Autor: Folha








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