É curiosa a relação dos homens com a cozinha. Os grandes chefs profissionais, historicamente, eram homens. Mas na cozinha de casa raros ousavam pisar (uso verbos no passado na esperança de que as coisas estejam mudando). Assim, sempre sobrou um terceiro espaço culinário para o homem comum ocupar com vontade e prazer: a churrasqueira.
Há algo de primal em domar o fogo e assar grandes nacos de carne. É fácil imaginar o apego masculino à brasa, que atravessa os séculos, como forma de reconexão com os antepassados responsáveis por alimentar a prole com base na própria expertise sobre caça e fogo. Mas, tantos anos depois, seria bom ver os homens em ação para além desse momento divertido do fim de semana (lembrando que há grandes mulheres churrasqueiras domando o fogo).
Algumas das minhas melhores memórias de infância são dos churrascos que meu pai fazia aos domingos. A carne não parava de sair da brasa entre 12h e 15h, deixando todo mundo com lábios gordurosos e pancinhas felizes. Como homenagem a ele e a tantos pais que se esmeram em cortar pedacinhos para as mais desdentadas crianças, resolvi focar a churrasqueira para sugerir os vinhos deste Dia dos Pais.
Embora os brancos estejam em alta e o churrasco hoje aceite casamentos com todos os estilos de vinho, decidi focar os tintos, combinação clássica com as carnes que mais vão ao fogo. Também selecionei rótulos vendidos em mercado, assim quem deixar a compra para a última hora não fica de taça vazia.
O Ventisquero Red Blend Reserva 2020 (R$ 79, no Hortifruti) é redondo e fresco. Vai bem na etapa inicial do assado, com linguiça, coração, costelinha de porco e asinha de frango. Um corte de cabernet sauvignon, carménère, syrah e petit verdot do Maipo, traz um geleião no nariz e entrega doçura na boca, boa opção para os iniciantes no mundo do vinho.
Para quem gosta de extravagâncias como morcilla ou chinchulines, o chileno Odfjell Orzada Carmenère 2021 (R$ 119, no Oba), do Vale do Maule, é a melhor aposta. Tem exótica nota de alcaparra, traz ervas e boa fruta. É orgânico, tem 13,5% de álcool, boa acidez e não passa por madeira.
Um rótulo badalado e certeiro é o “vinho da galinha”, ou o “chicken wine”, como ficou conhecido no TikTok o francês La Vieille Ferme 2024 (R$ 129, no Mambo). É um vinho bem classicão com DNA do Rhône: além da fruta madura, tem nota floral e de pimenta preta e textura agradável, nem tão macia, nem tão rascante, com taninos ideais para limpar a boca de uma gordurinha. É fácil de beber, mas não passa batido, tem boa persistência.
Para o pai que ama malbec, há duas opções. A primeira é o Norton DOC Malbec 2024 (R$ 119, no Hirota), de Luján de Cuyo, em Mendoza, que tem 14% de álcool, é superexuberante, com nota de flor e fruta bem madura. É macio na boca, com taninos eficientes para limpar a gordura. Já o Luigi Bosca de Sangre Malbec 2023 (R$ 252, no Sonda) é bem suculento e traz nota de ameixa, violeta e café, ideal para as carnes mais nobres do churrasco, como picanha, chorizo e ojo de bife. Um vinhaço —foi o primeiro a receber o selo da mesma denominação de origem e carrega pontuações altas em guias e concursos.
Por fim, o Pisano Cisplatino Tannat Merlot 2023 (R$ 148, no Varanda), de Progreso, no Uruguai, une uma uva tânica a outra aveludada para fazer um vinho equilibrado, capaz de escoltar o churrasco inteiro, da linguiça ao cordeiro.
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Autor: Folha




















