
Mais de 2.700 anos depois de terem sido atribuídas a Homero, a Ilíada e a Odisseia continuam entre as obras mais influentes da literatura ocidental. Os dois poemas épicos ajudaram a moldar a maneira como o Ocidente pensa temas como heroísmo, honra, destino, guerra e astúcia, além de inspirarem séculos de pinturas, peças de teatro, romances, óperas e produções audiovisuais.
O cinema também encontrou nas histórias da Guerra de Troia e da longa viagem de Odisseu um terreno fértil para grandes espetáculos. Desde os épicos produzidos nos anos 1950 até as superproduções de Hollywood do século XXI, diferentes diretores reinterpretaram esses mitos para novas gerações, ora preservando o caráter fantástico das narrativas, ora apostando em versões mais realistas.
Para quem deseja conhecer — ou revisitar — um dos maiores clássicos da literatura mundial, três adaptações estão disponíveis no Brasil e oferecem perspectivas diferentes sobre o universo criado por Homero.
Ulisses (1954)
Direção: Mario Camerini
Base literária: Odisseia, de Homero
Onde assistir: Looke, Belas Artes à La Carte, Looke Amazon Channel e NetMovies.
Primeira grande adaptação cinematográfica da Odisseia, Ulisses acompanha o retorno de Odisseu (Ulisses), interpretado por Kirk Douglas, após o fim da Guerra de Troia. Ao longo da viagem de volta para Ítaca, o herói enfrenta o ciclope Polifemo, a feiticeira Circe, as sereias e outros desafios impostos pelos deuses, enquanto sua esposa Penélope resiste à pressão dos pretendentes que tentam tomar seu reino. O filme condensa os principais episódios do poema de Homero em pouco menos de duas horas.
Na época do lançamento, a produção foi considerada ambiciosa e ajudou a popularizar os épicos mitológicos do pós-guerra. O British Film Institute (BFI) considera que o longa ajudou a estabelecer um modelo moderno para levar os mitos gregos ao cinema e destaca os efeitos práticos e a interpretação física de Kirk Douglas. Já Bosley Crowther, em crítica publicada no The New York Times na época do lançamento, elogiou o visual da produção, mas considerou que a adaptação simplificava a riqueza da obra de Homero e que Douglas entregava um herói mais próximo de um aventureiro hollywoodiano do que do estrategista descrito no poema. Em retrospecto, o consenso é que, apesar das limitações narrativas, o filme permanece como uma obra pioneira das adaptações da mitologia grega.
Helena de Tróia (1956)
Direção: Robert Wise
Base literária: principalmente Ilíada, de Homero, além de episódios do chamado Ciclo Troiano.
Onde assistir: Looke, Looke Amazon Channel e NetMovies.
Helena de Tróia reconta os acontecimentos que deram origem à Guerra de Troia a partir do romance entre Helena, rainha de Esparta, e o príncipe troiano Páris. A narrativa acompanha a fuga do casal, a reação dos reis gregos, o longo cerco à cidade e o célebre episódio do Cavalo de Troia. Embora preserve os principais acontecimentos da tradição clássica, o filme dá maior destaque ao romance entre os protagonistas e suaviza parte da dimensão mítica presente na obra de Homero.
Produzido na Itália com grandes cenários e milhares de figurantes, o longa foi uma das superproduções históricas mais ambiciosas dos anos 1950. O New York Times, em crítica de Bosley Crowther publicada na época, elogiou a escala das batalhas e o espetáculo visual, embora tenha considerado que o roteiro enfraquecia o drama humano da história. Décadas depois, o British Film Institute (BFI) reavaliou a produção de forma mais favorável, destacando sua elegância visual e apontando sua influência sobre adaptações posteriores, especialmente Tróia (2004). Hoje, o filme é lembrado como uma das mais importantes versões cinematográficas da Guerra de Troia realizadas antes da era dos blockbusters modernos.
Tróia (2004)
Direção: Wolfgang Petersen
Base literária: Ilíada, de Homero, com elementos de outros poemas do Ciclo Troiano.
Onde assistir: Prime Video, HBO Max e para aluguel ou compra digital na Apple TV e Amazon Video.
Com Brad Pitt no papel de Aquiles, Eric Bana como Heitor e Orlando Bloom interpretando Páris, Tróia apresenta uma versão mais realista da Guerra de Troia. O roteiro elimina quase toda a participação dos deuses e transforma acontecimentos que, na tradição clássica, pertencem a obras diferentes em uma única narrativa contínua. O foco recai sobre o conflito entre Aquiles e Heitor, sem deixar de lado o romance entre Páris e Helena, que desencadeia a guerra.
Lançado em 2004, o filme dividiu opiniões entre os críticos, mas conquistou o público e se tornou a adaptação cinematográfica mais popular da Guerra de Troia. A crítica elogiou principalmente a escala das batalhas, a direção de arte e a atuação de Eric Bana. Para Rubens Ewald Filho, a condução segura de Wolfgang Petersen e as cenas de combate estão entre os grandes méritos da produção. Já Peter Bradshaw, do The Guardian, considerou que o filme sacrificava parte da complexidade da epopeia ao priorizar uma abordagem mais realista e romântica. Ainda assim, o consenso é que Tróia permanece como a adaptação mais popular e influente da Guerra de Troia para o público contemporâneo.
Autor: Gazeta do Povo








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