quinta-feira, agosto 6, 2026
16.5 C
Pinhais

Diários privados são justamente o que escolhemos não dizer – 06/08/2026 – Suzana Herculano-Houzel

Meus cadernos de trabalho, que têm de gráficos coloridos a ideias por testar, de descobertas a perguntas novas, de anotações de palestras alheias a pontuação do carteado em família, também têm várias entradas chamadas coisas que não posso dizer. São anotações sobre calhordices alheias para eu tentar entender depois, relatos das filhadaputices de colegas cientistas comigo para eu não me deixar esquecer feito uma bocó ingênua, desabafos sobre frustrações com alunos que deixam a desejar, indignação com teimosia científica ignorante, irritação com organizadores de evento absolutamente desorganizados e desrespeitosos. São comentários que só me prejudicariam, sem acrescentar nada a mais ninguém, se fossem feitos em voz alta.

Mas são comentários que eu preciso fazer para mim mesma, tanto como auxílio à minha memória falível –pois indagações, indignações, frustrações e irritações alimentam boas ideias no futuro– como também válvula de escape que me permite parar de pensar no assunto e literalmente virar a página.

Sabemos pensar em silêncio, sem expressar nosso estado mental em palavras, graças às permitências de um córtex pré-frontal cheio de neurônios. Mas dá um trabalho do cão, porque os pensamentos, que são ações mentais, são evocados junto com as ações musculares que eles representam, começando com falar as palavras. Pensar numa frase faz o cérebro se preparar para dizer as tais palavras, o que a gente sente como “ter vontade” de falar.

Mas aí vem o córtex pré-frontal e sabiamente senta em cima da preparação, porque rapidinho pensou mais adiante e viu que ia dar ruim se deixasse o córtex motor falar. O embate vira cabo de guerra mental, a língua coça, e a gente fica ruminando a vontade de falar, sem conseguir pensar em outra coisa. Por sorte, a invenção da escrita como uma extensão da mente trouxe uma solução: para o córtex cerebral, escrever conta como executar pensamentos em palavras, e o alívio é imediato.

O outro extremo também é problemático. Meus cadernos têm também anotações sobre pessoas bacanérrimas que eu conheci, sobre a experiência de ser tratada como VIP em uma viagem a Israel, sobre o inusitado de me descobrir à mesa com um ex-primeiro-ministro da Grécia, ou num jantar com pocket-show-surpresa da Marisa Monte, ou numa festinha com show privê do Roberto Carlos. Tudo isso, também, impublicável fora de contexto, ou o que seria apenas registro surpreso do improvável acontecendo viraria alimento para acusações de deslumbramento.

E se eu fosse pessoa pública como o pobre do dr. Anthony Fauci e viessem à tona minhas anotações privadas da época em que fui jogada sob os holofotes ao tentar ao mesmo tempo conter uma pandemia e ânimos exaltados ignorantes, seria pior ainda. Que hipocrisia ele ser execrado por expressar secretamente a surpresa de conhecer pessoas públicas, num mundo em que querer ser pessoa pública famosa por ser famosa é objeto de mais que admiração: virou desejo profissional.

Quanto a eventuais ideias de jerico ou observações torpes, todo mundo as tem. O que torna a gente bacana não é nunca pensar besteira, pois todo cérebro experimenta mentalmente com vilanias. O que torna a gente bacana é justamente pensar besteira e então escolher nem fazer nem dizer a besteira, para não contaminar os outros. Se outros invadem o que escolhemos não dizer, o problema deveria ser só deles.


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

Autor: Folha

Destaques da Semana

Temas

Siga-nos

Conheça Nosso Guia de Compras

spot_img

Artigos Relacionados

Categorias mais Procuradas