Os cinco homens deveriam estar em clima de comemoração. A Fifa acabara de realizar uma Copa do Mundo que bateu recordes em várias frentes. Seu desfecho espetacular, a final, começaria no dia seguinte.
No entanto, o clima entre eles estava longe de ser de euforia. O grupo —composto por altos dirigentes que integravam o conselho de administração da Fifa— havia sido convocado para uma reunião organizada às pressas no hotel Waldorf Astoria, em Nova York, segundo três pessoas a par das discussões que falaram sob condição de anonimato, dado o caráter privado das conversas.
Os dirigentes tinham até a meia-noite para aprovar um plano que ameaçava mudar o futebol para sempre e que, quase certamente, levaria a uma grande cisão entre os líderes do esporte.
O projeto propunha a venda de uma participação de 20% na Fifa para um grupo de investidores liderado por Joshua Kushner, irmão de Jared Kushner (genro do presidente americano Donald Trump). Tal medida colocaria em mãos privadas uma parte da Copa do Mundo, evento que, há 96 anos, é gerido e controlado pela Fifa, uma organização sem fins lucrativos sediada em Zurique.
Os planos —elaborados ao longo de meses, sob grande sigilo e em parceria com o fundo Thrive Eternal, de Joshua Kushner, e o banco JPMorgan Chase— haviam sido mantidos em segredo, sendo do conhecimento de pouquíssimos executivos do futebol. Embora a função do conselho fosse analisar transações financeiras significativas, a maioria dos cinco membros sequer tinha ouvido falar do plano, segundo as três fontes. Eles deixaram o Waldorf Astoria com a impressão de que o presidente da Fifa, Gianni Infantino —que não estava presente—, ficaria furioso caso eles protelassem a decisão, relataram as fontes.
Atônitos, alguns membros do conselho discutiram em particular suas apreensões e as repercussões de dizer “não” a um chefe como Infantino, que detinha grande poder sobre suas carreiras, segundo uma das pessoas ouvidas.
Três integrantes aprovaram o acordo antes do prazo final, e dois não, disseram as três fontes. Votaram a favor o secretário-geral Mattias Grafstrom, o diretor jurídico Emilio Garcia e o chefe de gabinete Dan O’Toole; o diretor de operações Kevin Lamour e o diretor financeiro Thomas Peyer se recusaram a apoiá-lo.
Com a maioria dos votos, Infantino seguiu em frente. O jornal The Times, de Londres, revelou o plano de Infantino em 28 de julho, desencadeando uma onda de indignação em todo o mundo. Houve condenação de todos os setores do futebol global, com muitas figuras influentes declarando que não haviam sido consultadas. Vários dos principais assessores de Infantino vieram a público posteriormente afirmar que também haviam sido pegos de surpresa.
A Fifa não quis comentar o assunto. A reunião do conselho, realizada no sábado anterior à final da Copa do Mundo, e a pressão exercida sobre seus membros para aprovarem o projeto não haviam sido divulgadas anteriormente.
A maneira como tudo ocorreu reforça o fato de que Infantino manteve a ideia restrita a um círculo íntimo, excluindo muitas figuras importantes dentro da Fifa, mesmo enquanto desenvolvia o plano com a Thrive Capital e o JP Morgan. Dos cinco integrantes do conselho, apenas O’Toole, um jovem funcionário escolhido a dedo por Infantino para trabalhar com os banqueiros no plano, teve participação relevante no projeto, disseram as três pessoas. Ele já trabalhava na iniciativa há meses.
A aprovação do conselho foi o primeiro passo para viabilizar o plano. As decisões mais importantes da Fifa geralmente passam por um grupo muito maior, composto por dirigentes de futebol de todo o mundo. Eles não são funcionários da Fifa, mas sim representantes de federações-membro. Infantino, no entanto, queria encontrar uma maneira de concretizar o acordo sem passar por essa exigência, afirmaram as três pessoas.
A Uefa, órgão que rege o futebol europeu e reúne as 55 nações do continente, liderou a oposição subsequente, ameaçando boicotar todos os eventos da Fifa —incluindo a Copa do Mundo— com suas seleções. Entidades regionais equivalentes da Ásia, da América do Norte e do Caribe também criticaram publicamente o processo sigiloso por trás do plano e as exigências apressadas da Fifa para que o aprovassem.
Políticos, incluindo o primeiro-ministro britânico Andy Burnham, juntaram-se a figuras importantes do mundo do futebol para condenar os planos. Embora tivesse votado a favor, Grafstrom —que, como secretário-geral da Fifa, é o principal dirigente administrativo da organização— descreveu o ocorrido como “uma série de eventos triste e condenável” e tentou traçar uma linha que separasse os funcionários de Infantino.
Em 31 de julho, Infantino desistiu do plano. Na quarta-feira, a Fifa divulgou um comunicado conjunto aos seus membros, assinado tanto por Infantino quanto por Grafstrom, pedindo desculpas pelo ocorrido e prometendo aprender com a situação. Naquele mesmo dia, Infantino realizou reuniões de crise com sua equipe de alto escalão no Marrocos. A reunião começou com dois integrantes da cúpula pedindo uma demonstração de apoio ao chefe, que se encontrava em situação difícil, segundo duas das pessoas presentes.
Infantino garantiu o apoio público de várias federações de futebol influentes, como as do Qatar e dos Emirados Árabes Unidos, além de muitas das menores que dependem de milhões de dólares da Fifa para suas operações.
Não está claro o que Infantino disse para convencer Grafstrom e outros dirigentes da Fifa a apoiá-lo. Ele publicou no Instagram uma foto ao lado de Grafstrom, ambos sorridentes e fazendo sinal de positivo com os polegares.
Apesar desses esforços, a crise não acabou. Em um comunicado divulgado na quinta-feira, a Uefa manteve a ameaça de boicote caso Infantino não renunciasse.
Autor: Folha








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