domingo, agosto 9, 2026
15.6 C
Pinhais

Hugh Forrest: Presencial é mais valioso num mundo virtual – 09/08/2026 – Economia

Durante mais de 30 anos, Hugh Forrest esteve à frente do South by Southwest (SXSW), um dos maiores festivais de tecnologia, cultura e inovação do mundo. Por mais da metade desse tempo, ele foi diretor de programação e presidente do evento. Por isso, a saída do executivo em 2024 —uma decisão que não foi sua, como declarou à época— foi um choque para muitos.

Sob o comando dele, o South by Southwest fez apostas em novidades que prosperaram e outras que morreram na praia. Tudo do jogo. Mas as décadas à frente do festival tornam Forrest um privilegiado observador das mudanças tecnológicas.

Hoje ele presta consultoria a eventos em áreas correlatas, a exemplo de uma iniciativa semelhante ao festival texano, que começa neste domingo (9), no parque Ibirapuera, em São Paulo: o SP2B. O projeto, realizado pela Da20, materializa a ideia que chegou a ser aventada no passado de trazer o SXSW ao país, algo que acabou não avançando.

Nesta entrevista à Folha, Forrest diz apostar em um período de relativa desilusão com a inteligência artificial, depois do entusiasmo inicial. Mas a tecnologia vai ser firmar com modelos melhores e uma percepção mais madura de tais ferramentas. Mas algo, acredita ele, deve central: o papel da criatividade humana.

O executivo diz que teremos mais razões para valorizar capacidades humanas únicas —como a de Gilberto Gil emocionar a plateia em uma apresentação ao vivo. Forrest também aposta que profissionais que transitam entre diversas áreas estarão mais protegidos da automação e que, em um mundo inundado pelo conteúdo sintético, criatividade, empatia e experiências presenciais serão ainda mais importantes.

Quando estava à frente do SXSW, o sr. chegou a ter conversas sobre trazer o festival para o Brasil…

Esse foi o ponto de partida do que estamos fazendo agora [o SP2B]. Há uma comunidade brasileira forte que frequenta o

SXSW há anos. Parecia natural que o festival buscasse fazer algo no Brasil. Mas, naquele momento, achamos que o ‘timing’ não era o ideal. Por isso, este projeto de agora acabou sendo desenvolvido de forma independente, fora da estrutura do SXSW.

Eventos presenciais como esse ainda fazem sentido na era da inteligência artificial, em que as pessoas usam os chatbots para aprender?

Fazem ainda mais sentido hoje. No South by Southwest, conseguíamos reunir pessoas do mundo inteiro em um ambiente altamente criativo. Nesse contexto, elas conviviam, trocavam ideias e percebiam que tinham muito mais coisas em comum do que diferenças.

O evento sempre foi sobre construir pontes, não muros. E isso é especialmente importante hoje. Esses eventos oferecem algo que simplesmente não pode ser reproduzido no ambiente online.

Os investimentos previstos para o mercado de IA nos Estados Unidos chegam aos trilhões de dólares. Essa empolgação é justificada?

Imagino que você tenha visto a entrevista do Sam Altman, no ano passado, em que ele dizia acreditar que estávamos próximos de uma bolha da IA semelhante à bolha das empresas de internet no início dos anos 2000.

Esse tipo de ciclo acontece com praticamente toda nova tecnologia. Acho que começaremos a viver um certo momento de desilusão, em que ficará claro que a IA não está resolvendo tudo aquilo que se imaginava. Mas acredito que isso será rapidamente substituído por modelos muito mais funcionais e por uma compreensão mais madura de como essa tecnologia realmente pode nos ajudar.

E há algo em que acredito profundamente: a criatividade humana precisa continuar no centro de tudo o que fazemos. Ainda temos muito trabalho e muita reflexão pela frente. Eventos como o SP2B podem desempenhar um papel importante nesse debate sobre qual deve ser o lugar do ser humano nesse futuro.

No futuro, não precisaremos mais de pessoas cuja única habilidade seja memorizar informações. Os computadores fazem isso infinitamente melhor.

A maior parte dos setores representados em eventos como o SP2B vive da propriedade intelectual, que as empresas de IA são acusadas de ter violado no treinamento de seus modelos. Para onde esse debate está caminhando?

Precisamos de muito mais regulação para a inteligência artificial. Minha experiência no South by Southwest também influencia essa visão. O festival cresceu porque estava no lugar certo, na hora certa, durante a ascensão das redes sociais.

Recebíamos muitos dos pioneiros daquela tecnologia, discutindo o que ela era e como transformaria positivamente a sociedade. Olhando para trás, podemos dizer que as redes sociais trouxeram inúmeros benefícios para nossas vidas. Mas elas aproximaram as pessoas? Curaram divisões? Tornaram o mundo melhor? Não necessariamente.

Na verdade, é possível defender que muitos dos efeitos negativos das redes sociais poderiam ter sido reduzidos se tivéssemos tido mais regulação. Seria excelente se conseguíssemos aprender com os erros cometidos na era das redes sociais e aplicássemos essas lições agora à inteligência artificial.

Executivos do Vale do Silício que antes eram democratas hoje são aliados dos republicanos. Essa virada é uma transformação ideológica ou o motivo são os interesses empresariais?

A resposta mais simples é a mais correta. O investidor Marc Andreessen defendeu em uma entrevista em um podcast [do jornal The New York Times, no ano passado] que as regulamentações impostas por Washington e pelo governo Joe Biden eram excessivamente pesadas. A ideia dele é que deveriam simplesmente deixar trabalhar, porque a inteligência artificial resolverá todos os nossos problemas.

Nos últimos cinco anos houve, de fato, uma mudança no Vale do Silício. Muitas empresas deixaram uma posição mais próxima dos democratas para adotar uma visão muito mais orientada ao livre mercado.

É compreensível que pensem assim. Essas empresas estão vivendo um crescimento extraordinário impulsionado pela IA. Por que elas mesmas colocariam freios nesse processo?

Precisamos pensar no longo prazo, não apenas em poder individual, poder nacional ou lucros de curto prazo. A pergunta deveria ser: de que maneira isso beneficia —ou prejudica— a sociedade como um todo?

É preciso ter uma visão de longo prazo, não apenas perguntar o que aumentará meus lucros nos próximos três meses.

Nessa entrevista que o sr. mencionou, Andreessen sugere que essa virada ideológica é em partes culpa da chamada cultura ‘woke’. Ele descreve um cenário em que os CEOs se sentiam reféns de um suposto ativismo dos funcionários. Como vê essa análise dele?

Ele enfatizou esse aspecto muito mais do que eu esperava. No ambiente de trabalho que tínhamos no South by Southwest, havia um compromisso muito forte com diversidade, inclusão e equidade.

Mas a maneira como ele descreveu a situação —como se os funcionários estivessem constantemente se revoltando quando essas pautas não eram atendidas— me pareceu um pouco distante da realidade que vivi.

O sr. nunca teve essa experiência como gestor?

Não. Tínhamos discussões bastante apaixonadas sobre estar fazendo a programação certa, o equilíbrio entre homens e mulheres. Esses debates existiam. Mas descrever a situação como se as pessoas abandonassem o trabalho caso não conseguissem exatamente o que queriam me parece um exagero.

Para mim, o argumento pró-diversidade em um evento como o SXSW sempre foi muito simples. Éramos um festival dedicado à criatividade. E pessoas diferentes pensam a criatividade de maneiras variadas. Se colocássemos no palco apenas homens brancos de meia-idade vindos do Vale do Silício, estaríamos apresentando uma visão extremamente limitada do mundo.

As músicas produzidas com IA têm se espalhado pela internet. A autenticidade humana vai se tornar um ativo mais valioso no futuro?

Como encontraremos um caminho em que a criação humana conviva —ou dispute espaço —com tecnologias tão poderosas, eu realmente não sei. Mas é assustador imaginar um mundo em que tudo seja simplesmente gerado por máquinas.

Durante a apresentação do Gilberto Gil [em evento do SP2B no ano passado] eu fiquei profundamente emocionado. É difícil imaginar que uma máquina consiga produzir exatamente esse tipo de experiência. Isso nos leva de volta ao que conversávamos antes: experiências presenciais tendem a se tornar ainda mais valiosas em um mundo cada vez mais virtual.

Talvez fique mais difícil para quem produz música que soa como algo genérico.

Talvez seja justamente isso que aconteça, e a IA acabe expulsando do mercado os talentos mais medíocres. E também não podemos ser ingênuos, já existia muita música produzida de forma quase mecânica antes da IA. O que acontece agora é que demos um passo além —e talvez esse passo tenha chegado muito mais cedo do que imaginávamos.

Que tipo de profissional o sr. acredita que as indústrias da mídia, cultura e tecnologia vão precisar no futuro?

No curto e médio prazo, os profissionais que dominam habilidades diversas serão muito mais valiosos do que aqueles especializados em apenas uma única competência.

Se você apenas memorizou tudo sobre um determinado assunto, suas chances de ser substituído pela IA são maiores do que as de alguém que conhece muitas áreas diferentes e consegue conectar conhecimentos distintos. Além disso, continuará sendo extremamente importante oferecer um valor humano que os computadores não conseguem reproduzir.

Sim, um robô pode levar um medicamento até o leito de um paciente. Mas, se você está internado, com medo, sofrendo ou angustiado, você realmente prefere ser cuidado apenas por um robô? Ou prefere um ser humano capaz de demonstrar carinho, compaixão, empatia e afeto? Acho que a resposta é evidente.

As pessoas mais preparadas para o futuro da IA serão justamente aquelas que desenvolverem competências variadas.

É exatamente isso que sempre tentamos fazer no South by Southwest e o que queremos fazer também no SB2B. Criar uma plataforma que exponha as pessoas a muitos temas diferentes, inspire novas ideias, reúna especialistas de áreas distintas e permita estabelecer conexões entre disciplinas.

Os seres humanos continuam sendo muito bons em criar essas conexões, e as máquinas ainda não conseguem fazê-lo da mesma maneira.


Raio-X | Hugh Forrest

Executivo de mídia americano que integrou o SXSW de 1989 a 2025, chegando aos cargos de copresidente e diretor de programação. Formado pelo Kenyon College, no estado de Ohio, teve papel na expansão do festival de Austin, referência internacional em tecnologia, inovação, música e audiovisual. Também integrou conselhos de organizações como o Poynter Institute e a Habitat for Humanity.

Autor: Folha

Destaques da Semana

Temas

Siga-nos

Conheça Nosso Guia de Compras

spot_img

Artigos Relacionados

Categorias mais Procuradas