quarta-feira, agosto 12, 2026
16.2 C
Pinhais

Infecções sexualmente transmissíveis avançam na Europa – 12/08/2026 – Equilíbrio e Saúde

Acompanhar a taxa de ISTs (infecções sexualmente transmissíveis) não é fácil. Muitas pessoas infectadas não apresentam sintomas. A testagem é irregular. E comportamentos de risco passam facilmente despercebidos, já que o sexo (felizmente) costuma ser praticado em privado. Ainda assim, as autoridades de saúde pública fazem o possível e, nos últimos anos, detectaram um forte aumento na incidência de vários tipos de ISTs na Europa.

As taxas subiram acentuadamente na última década, embora tenham recuado durante a pandemia —seja por uma vigilância menos rigorosa, seja pela redução do sexo casual. Depois de 2021, dispararam. Em maio, o Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças (ECDC, na sigla em inglês), da União Europeia, informou que, em 2024, o ano mais recente para o qual compilou dados, houve cerca de 100 mil casos de gonorreia na Europa, mais do que o triplo do registrado em 2015. Os casos de sífilis mais do que dobraram, chegando a cerca de 46 mil. A clamídia, a IST mais comum, é uma exceção: depois de atingir o pico em 2022, sua prevalência voltou ao nível de 2015.

O ECDC conclui que os aumentos não são simplesmente um efeito estatístico da ampliação da testagem. “Há um aumento real da transmissão em curso”, afirma Stela Bivol, que dirige o escritório europeu para ISTs da OMS (Organização Mundial da Saúde). O salto logo após a Covid poderia ser explicado, em parte, pela retomada dos serviços de testagem, diz Andrew Winter, especialista em ISTs em Glasgow, mas isso não explica a alta contínua desde então.

Por que esse renascimento das doenças venéreas? Alguns culpam a troca desenfreada de parceiros facilitada pelos aplicativos de relacionamento, mas há poucas evidências disso. A maioria dos estudos conclui que usuários do Tinder e de outros aplicativos semelhantes têm maior probabilidade de manter relações com vários parceiros sexuais, mas isso se deve, em parte, ao fato de que pessoas em busca de múltiplos parceiros sexuais têm maior probabilidade de usar esses aplicativos. Henry de Vries, especialista nos Países Baixos, observa que os aplicativos de relacionamento surgiram muito antes do grande aumento na prevalência de ISTs. “Eu seria cauteloso”, afirma.

Outra explicação, apresentadapor Bivol, é que as pessoas estão usando menos preservativos. Mas, também nesse caso, os dados são apenas indicativos. Um estudo da OMS que entrevistou quase 250 mil adolescentes de 15 anos em toda a Europa, entre 2014 e 2022, constatou uma queda significativa no uso declarado de preservativos. Mas essa é apenas uma faixa etária, e há poucos dados sobre mudanças no uso de preservativos pelo conjunto da população com 20 anos ou mais, grupo que responde pela imensa maioria dos casos de ISTs.

Uma hipótese mais específica é que o uso da PrEP (profilaxia pré-exposição), um medicamento que combate a propagação do HIV, leve mais homens —sobretudo gays, que correm maior risco— a abrir mão dos preservativos. Um estudo realizado entre 2015 e 2019 com pacientes de uma clínica britânica de saúde sexual, conduzido por Louis MacGregor, da Universidade de Bristol, e colegas, corroborou essa ideia, embora tenha observado que os usuários de PrEP estavam sobrerrepresentados, já que precisam obrigatoriamente fazer testes para ISTs.

O que não se discute é o perigo desse avanço. As doenças sexualmente transmissíveis em geral têm tratamento, mas podem ser devastadoras se não forem detectadas cedo o bastante. Com o tempo, clamídia e gonorreia podem causar infecções testiculares nos homens e infertilidade nas mulheres. A sífilis pode matar. Um dos fenômenos mais sombrios apontados pelo ECDC é o aumento da sífilis congênita, transmitida pelas mães aos bebês. Ela é rara, mas muitas vezes fatal. Entre 2023 e 2024, o número de casos dobrou, chegando a 140, com focos na Bulgária, em Portugal e na Hungria.

O combate às ISTs começa pela identificação dos locais em que esse avanço está ocorrendo. Os homens jovens não parecem ser o problema. Nos dados mais recentes, entre 2023 e 2024, as taxas de gonorreia caíram entre homens de 15 a 24 anos, mas aumentaram entre os mais velhos; no total, subiram 8% entre os homens. Entre as mulheres, as taxas de gonorreia caíram, embora continuem acima dos níveis anteriores à Covid, enquanto as de sífilis aumentaram 15%. A maior alta ocorreu entre pessoas de 20 a 34 anos. O aumento das ISTs não está particularmente concentrado entre homossexuais: desde a pandemia, as taxas de sífilis e gonorreia também subiram acentuadamente entre homens e mulheres heterossexuais.

Geograficamente, o aumento se estende por todo o continente. Algumas das altas mais acentuadas da gonorreia entre 2023 e 2024 ocorreram na Bulgária, na França e na Itália, enquanto Bélgica e Hungria registraram fortes aumentos da sífilis. As duas doenças dispararam na Lituânia e em Malta. Alguns países pobres informam taxas enganosamente baixas por causa de uma vigilância deficiente: na Romênia, com uma população de 19 milhões de habitantes, apenas 24 casos de clamídia foram registrados em 2024 — um número absurdamente muito menor que o de casos de sífilis. Em um círculo vicioso, dados incompletos dificultam a justificativa para a compra de equipamentos de testagem e reduzem a conscientização pública sobre o risco.

O ECDC afirma que é necessário melhorar o monitoramento, incluindo informações sobre a proporção dos grupos vulneráveis submetida a testes em cada país, para que as taxas registradas sejam colocadas no devido contexto estatístico. Apenas um terço dos países europeus fornece esses dados. Saber se as infecções foram transmitidas por contato homossexual ou heterossexual poderia ajudar a tomar decisões melhores em saúde pública, afirma Otilia Mardh, epidemiologista do ECDC.

Surtos de resistência

Países com sistemas de testagem ampla enfrentam um problema diferente. Os médicos tratam as ISTs com antibióticos, o que leva os agentes infecciosos a se tornarem resistentes aos medicamentos. A gonorreia já desenvolveu cepas altamente resistentes. A clamídia e a sífilis ainda não, mas a decisão de tratar exige que se ponderem os benefícios e os riscos. Recentemente, os Países Baixos romperam com a ortodoxia ao cancelar a triagem de clamídia em pessoas sem sintomas, depois que estudos mostraram que infecções assintomáticas tinham menor probabilidade de prejudicar a fertilidade do que se temia.

A sífilis é um caso diferente. Mas, mesmo nesse caso, os recursos poderiam ser usados com mais eficiência. A sífilis congênita, que é facilmente tratável, poderia ser combatida com testagem direcionada durante a gravidez. De fato, a maioria dos países da UE testa as mulheres para sífilis no primeiro trimestre, mas menos da metade segue as recomendações de testar, no terceiro trimestre ou no parto, aquelas que correm maior risco de contrair a doença.

Uma das maiores barreiras à adoção de políticas que reduzam as ISTs é que muitas sociedades se importam menos com os grupos que correm maior risco: homens que fazem sexo com homens, migrantes e profissionais do sexo. Em partes da Europa Central e Oriental, o número de novas infecções por HIV continua aumentando, mesmo com a queda registrada em outras regiões do mundo. O estigma e a discriminação, que desestimulam as pessoas a buscar testes e tratamento, são parcialmente responsáveis. Bivol teme que o mesmo aconteça com outras ISTs.

Mas taxas mais elevadas podem, por si só, provocar uma reação. Na Hungria, um forte aumento nos registros de sífilis congênita — de três casos em 2020 para 91 em 2024, em parte devido à ampliação da testagem — levou à adoção de uma triagem muito mais rigorosa. Mardh observa que um estudo recente do qual participou constatou uma queda nos casos notificados de clamídia em sete países entre 2023 e 2024. Segundo o estudo, um salto nas taxas de gonorreia nos anos anteriores havia levado à realização de campanhas de saúde pública para incentivar práticas sexuais mais seguras. Às vezes, o medo é o melhor remédio.

Texto do The Economist, traduzido por Sílvia Haidar publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado em www.economist.com

Autor: Folha

Destaques da Semana

Temas

Siga-nos

Conheça Nosso Guia de Compras

spot_img

Artigos Relacionados

Categorias mais Procuradas