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A guerra anticera pode salvar o futebol no Brasil – 12/08/2026 – Marcelo Bechler

Segunda-feira pode ter sido um dia muito importante para o futebol brasileiro. E que, ao mesmo tempo, diz muito sobre nós. A CBF e os clubes aprovaram o pacote anticera, que colocará em prática as medidas utilizadas na Copa do Mundo para ganhar mais tempo de bola em jogo. Isso é excelente e inegociável para que uma partida de futebol seja um evento de entretenimento, não de sacrifício para quem assiste.

Por outro lado, a descrença de que jogadores levarão as novas determinações a sério ou de que os árbitros conseguirão impor autoridade para aplicá-las diz muito sobre nós –do país em que leis “pegam” mais ou menos, dependendo do humor da sociedade e dos órgãos fiscalizadores.

As medidas são a redução de tempo em substituições, arremessos laterais e cobranças de tiro de meta e a impossibilidade de retornar ao campo por um minuto depois de um atendimento médico. No caso de o goleiro ser atendido, algum jogador de linha deverá ficar fora para compensar o tempo perdido.

Com o tempo, precisamos reeducar a todos para que isso possa ser um esporte, não uma guerra. Morei mais de uma década na Espanha, convivi com a cultura futebolística de espanhóis e catalães e cobri a Liga dos Campeões a cada semana neste tempo.

A grande diferença do futebol brasileiro para o europeu, que costumamos chamar de “outro esporte”, é a vontade, de fato, de jogar em vez de levar pequenas vantagens, enganar, reclamar e não aceitar a autoridade de um árbitro que, queiramos ou não, vai errar. Em campo, o que vemos no Brasil são 22 jogadores tentando pressionar qualquer decisão.

Por isso, essas medidas precisam ser levadas para dentro dos clubes e repassadas insistentemente aos jogadores. A redução do tempo de cobrança de tiros de meta pode dar quase um minuto a mais de bola em jogo.

Somente em paralisações por faltas o Brasileirão perde quatro minutos de bola rolando para a Premier League inglesa. Nossa liga tem a menor média de tempo de jogo, a menor média de gols e a maior média de faltas marcadas. Também lideramos em cartões aplicados por motivos disciplinares como discussão, discordância com o árbitro, cera etc.

Mais do que recuperar minutos perdidos, temos que recuperar tempo de qualidade. Mais bola rolando com intenção, não jogos monótonos travados por faltinhas, em que os jogadores não querem seguir de pé, mas buscam a infração mínima para não correr o risco de perder a posse de bola.

Basicamente, as medidas devem servir para nos guiar em uma direção: é preciso querer jogar futebol. Quando o campeonato nacional volta três dias depois do fim da Copa do Mundo, fica muito evidente a diferença de intenção.

Estamos constantemente tão estressados em apenas ganhar que nos esquecemos de que, para isso, é preciso jogar. E já nem levamos em consideração que apenas um time vai ganhar, só um será campeão, mas todos têm a obrigação de divertir quem assiste.

Não sou um poeta romântico que prega perder jogando bem. Acredito que seja possível tentar ganhar jogando futebol, em vez de guerrear por faltinhas e cruzamentos na área. Quem sai de casa para ir ao estádio ou escolhe futebol em vez de ver um filme na TV precisa de uma experiência prazerosa. E o futebol não te garante a vitória nunca, mas ele pode te garantir a estética do bom jogo.

Para isso, é preciso mais bola em jogo, menos perda de tempo, mais desejo.


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Autor: Folha

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