Ao longo da última semana, a divulgação de mensagens entre Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, e a lobista Roberta Luchsinger, iniciou uma crise que pode ter reflexos nas eleições presidenciais. Na quarta-feira (19), o presidente Lula recebeu no Palácio da Alvorada o advogado Marco Aurélio de Carvalho, que defende seu filho e também coordena a campanha petista em São Paulo. No dia seguinte, o ministro André Mendonça negou o pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR) para enviar as apurações à primeira instância e manteve os inquéritos sob sua relatoria no Supremo Tribunal Federal (STF).
A sequência de fatos criou o efeito de expectativa, fazendo com que o tema permanecesse no centro das discussões nas redes sociais, pautando o debate. Entre 17 e 23 de agosto, o volume de mensagens sobre Fábio Luís aumentou mais de sete vezes, de acordo com a Palver, que realiza um monitoramento em tempo real em mais de 100 mil grupos públicos de WhatsApp e Telegram. O pico de menções, 400 a cada 100 mil mensagens, ocorreu na noite de quinta (20), horas depois da decisão de Mendonça de manter o caso no STF, e o nome do presidente aparece em mais da metade das mensagens, majoritariamente de forma negativa.
Entre as mensagens que se posicionaram sobre o tema, cerca de 9 em cada 10 foram de ataque. A narrativa mais utilizada, em 44% da discussão, faz uso de argumento moral e liga o filho do presidente ao dinheiro dos aposentados por conta da sua relação com Antonio Carlos Camilo Nunes, o “careca do INSS”, ainda que não haja investigação formal contra Fábio Luís nesse caso. A segunda narrativa, presente em 37% das conversas, é a da blindagem institucional, que interpretou o pedido da PGR como manobra para tirar o caso de André Mendonça. Há, ainda, uma terceira narrativa que concentra 35% das menções e explora patrimônio e envolve, além de Fábio Luís, ex-chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola.
A esquerda praticamente não entrou nesse debate, procurando não dar palco para o tema. Entre as poucas mensagens, mais da metade apenas reproduziu o parecer da PGR, que não identificou negócio concluído com o governo a partir da atuação atribuída a Fábio Luís. A outra metade ataca o vazamento de um inquérito sigiloso e levanta suspeitas sobre a atuação de Mendonça.
A enorme repercussão do caso pode não ter efeito nos eleitores de Lula no primeiro turno, principalmente pelo fato de que Fábio Luís já é utilizado em ataques da direita há muitos anos, sempre acusado de corrupção e enriquecimento ilícito. Portanto, o efeito maior, nesse momento da campanha, é de dominância da pauta, fazendo com que a cobertura jornalística fique sobre o caso e reduza a importância de outros eventos. Além disso, Fábio Luís também pode ser amplamente utilizado pela oposição para desviar a discussão de temas sensíveis, como o Banco Master, que controlou o debate político até esse momento.
Para Flávio Bolsonaro, o desafio é converter a indignação dos indecisos em votos sem devolver luz ao próprio caso do Banco Master e sua relação com Daniel Vorcaro. Para Lula, é tentar se afastar do filho num ambiente em que metade das mensagens já não faz essa distinção. Enquanto Fábio Luís for o tema dominante das discussões políticas, os demais candidatos terão dificuldade de superar a polarização, visto que o status quo favorece os líderes nas pesquisas. Além disso, por se tratar de um caso que pode se desdobrar em novos episódios, a expectativa das pessoas cria o efeito novela, dificultando a mudança de pauta. Uma mudança significativa desse cenário vai exigir bastante criatividade por parte dos marqueteiros.
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Autor: Folha




















