A assistente social Nadjane Cristina dos Santos, 33, quase desistiu do trabalho com direitos humanos no ano passado. Ela estava no auge da ansiedade e do cansaço quando se deparou com um edital que propunha pagar férias de mulheres negras.
Nadjane faz parte do coletivo Incomode, organização que atua em territórios do subúrbio de Salvador. No último ano, passou a atender psicossocialmente mulheres vítimas de violência doméstica.
A rotina reacendeu memórias de uma violência que ela mesma sofreu. “Eu estava tentando mudar o mundo, mas esquecendo que também precisava mudar minha casa, meu corpo, meu psicológico”, diz a mãe de adolescentes de 16, 14 e 11 anos.
Ao relatar o que passava, Nadjane foi uma das selecionadas na primeira edição do edital Descansa, Nêga, do Agbara —fundo filantrópico de mulheres negras do Brasil.
Ganhou uma viagem de férias com tudo pago e podia levar uma mulher negra como acompanhante. Ela escolheu uma vítima de violência doméstica que atendia e sonhava em conhecer o Rio de Janeiro. Nadjane também queria voltar à cidade que visitara uma vez a trabalho.
No primeiro dia da viagem, Nadjane e sua acompanhante passaram o dia no quarto de hotel, conversando na cama.
“Talvez uma das formas mais radicais de pensar prosperidade para uma mulher negra seja fazer com que ela passe um tempo sem produzir nada”, diz Aline Odara, fundadora e diretora-executiva do Fundo Agbara.
Talvez uma das formas mais radicais de pensar prosperidade para uma mulher negra seja fazer com que ela passe um tempo sem produzir nada
O fundo atua principalmente com transferência de recursos para negócios, carreiras e organizações lideradas por mulheres negras, além de produzir dados.
O Descansa, Nêga, diz Odara, surgiu quando a organização começou a perguntar quem tem o direito de descansar no Brasil. “A gente começou a olhar para outra riqueza distribuída de forma desigual: o tempo.”
Um estudo da OIT (Organização Internacional do Trabalho) publicado em novembro de 2025 aponta que as mulheres negras enfrentam maior sobrecarga do cuidado relacionado às atividades básicas e instrumentais da vida cotidiana, como cuidar de pessoas idosas ou com deficiência, realizar limpeza, preparar refeições e criar filhos.
Segundo o levantamento, mulheres negras dedicam em média 22,4 horas por semana com cuidado, diante de 20,7 horas gastas por mulheres brancas e cerca de 12 horas por homens negros e brancos.
Como consequência, conclui a OIT, as taxas de participação de mulheres negras no mercado de trabalho são mais baixas, e as taxas de informalidade, mais altas. Dados do próprio Agbara mostram que mulheres negras receberam apenas 59% da renda dos homens em 2022.
É nesse cenário que o Fundo Agbara coloca o bem viver como um dos seus propósitos.
Associado a cosmovisões indígenas andinas e práticas antigas das comunidades negras, o ideal defende que mulheres negras tenham segurança, moradia, alimentação saudável, liberdade religiosa, autonomia sobre o corpo, cuidado, descanso, tempo e possibilidade de sonhar.
“O bem viver não abandona a luta contra a violência e o racismo, mas acrescenta outra pergunta: após garantir que não morramos, como queremos viver?”, diz a pesquisadora Juliana Gonçalves, mestre em estudos culturais pela USP (Universidade de São Paulo) e cofundadora da Marcha das Mulheres Negras de São Paulo.
“Ele nos permite dizer que sobreviver não pode ser o horizonte máximo destinado às mulheres negras. Queremos viver com dignidade e plenitude.”
Mas como dizer para uma mulher negra descansar sem garantir os meios para que ela faça isso? Essa foi a pergunta que Odara se fez. Além da viagem, mulheres negras precisam custear cuidados, organizar a casa e se manter sem trabalhar —uma vez que são maioria no trabalho informal.
“Partimos de uma perspectiva de que, numa sociedade capitalista, precisamos ter condições econômicas para alcançarmos o bem viver pleno”, diz Odara. Mas isso não precisa ser feito individualmente, conclui.
Segundo Gonçalves, viver bem aparece como uma conquista fundamentalmente individual na sociedade hoje. “Você trabalha, acumula renda, compra uma casa, consome e constrói individualmente uma vida confortável. O bem viver rompe com essa lógica.”
Não adianta o bem-estar financeiro, diz, se a comunidade ao redor ainda sofre com violência e falta de saneamento, ou se outras mulheres precisam se exaurir para que uma possa descansar.
Quando uma iniciativa de mulheres negras ajuda a financiar o descanso de outras mulheres negras, afirma Gonçalves, isso vai além do autocuidado.
Mulheres negras historicamente se organizaram em redes de cuidado, como quilombos, terreiros, associações, organizações comunitárias, fundos coletivos e estratégias de solidariedade.
Neste ano, as inscrições para a segunda edição do Descansa, Nêga foram encerradas em 31 de agosto com mais de 2.700 mulheres concorrendo às cinco vagas abertas. O número é maior do que para qualquer outro edital do Fundo Agbara. Mas, diferentemente dos outros projetos, é financiado unicamente pelo Agbara.
“Precisamos de parceiros em um campo da filantropia que não invista só em produtividade, mas em qualidade de vida para as pessoas”, diz Odara.
Pioneiro no Brasil, o edital para férias encontra correspondências em outros países, como os Estados Unidos.
O Octavia Fund financia integralmente retiros e períodos sabáticos para mulheres negras desde 2022. A organização descreve o descanso como direito de nascença e ato de resistência à exploração histórica, e não como autocuidado individual.
A Open Horizon, fundação filantrópica familiar sediada na Virgínia e criada em 2019, lançou no ano passado o Stargazer Sabbatical Pilot. O programa concede a lideranças selecionadas um período dedicado a descanso e renovação, além de bolsas de bem-estar para outras candidatas.
A iniciativa parte do princípio de que mudanças sociais duradouras dependem da saúde de quem está à frente dos movimentos, e não apenas do fortalecimento institucional das organizações.
Nos EUA, Tricia Hersey, fundadora do Nap Ministry (ministério do cochilo, em português) e autora do livro “Descansar é Resistir” (editora Fontanar), defende que dormir e descansar são atos de resistência ao capitalismo e ao racismo estrutural. Segundo ela, pessoas negras, sobretudo mulheres, historicamente precisaram fazer um esforço redobrado para serem reconhecidas.
“A diáspora africana produziu sociedades diferentes, mas há uma experiência que atravessa muitos desses territórios: a exploração do corpo negro como força de trabalho”, diz Gonçalves.
Segundo a pesquisadora, há uma construção histórica do corpo da mulher negra como um corpo que aguenta. “A mulher negra forte”, diz, pode parecer elogio, mas não é benéfico esperar que mulheres negras suportem tudo.
“É aí que o descanso pode adquirir dimensão política. Descansar passa a significar dizer: meu corpo não existe apenas para produzir, servir, cuidar e suportar.”
Após 12 dias no Rio de Janeiro, Nadjane disse ter voltado para casa renovada e com força para ir atrás de sonhos represados. Ela também afirma ter entendido que sua família consegue se organizar sem ela. Atualmente ela está cursando o segundo semestre do curso de direito.
Autor: Folha








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