A misoginia online que se espalha nas redes e tem como adeptos homens e meninos cada vez mais jovens não se resume à mera reprodução do discurso machista no ambiente digital.
Movimentos como o dos red pills e dos incels (celibatários involuntários) surgem como reação aos avanços dos direitos das mulheres no final do século 20 e ganham tração pela dinâmica própria dos algoritmos nas plataformas, que atrai adeptos por meio das chamadas “espirais da radicalização”.
O conceito é cunhado pela antropóloga e professora da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) Letícia Cesarino em seu novo livro “Ecologias de crise – uma teoria cibernética da radicalização”, que será lançado em outubro pela editora Ubu. A obra já está disponível para pré-venda e assinantes do clube da editora têm acesso antecipado.
Assim como em “O mundo ao avesso”, Cesarino propõe uma nova leitura para a teoria cibernética de Gregory Bateson (1904-1980) ao analisar processos sociais a partir da dimensão técnica.
Se antes o objetivo era entender fenômenos macroscópicos como a ascensão do populismo e da desinformação nas redes, agora a pesquisadora com doutorado em antropologia pela Universidade da Califórnia se debruça sobre trajetórias individuais de radicalização online.
Para ela, a abordagem se atualiza às transformações pelas quais os movimentos extremistas passaram na última década. “Hoje, o fenômeno da radicalização é praticamente só digital. Mesmo as formas típicas de extremismo que baseiam modelos teóricos, como o neonazismo e a radicalização islâmica, o jihadismo, quase não existem mais de forma apenas analógica”, afirma.
Ao longo da história, diversos autores se debruçaram sobre os fatores sociais que podem facilitar o crescimento do extremismo. É consenso na literatura que conjunturas de crise e instabilidade propiciam a radicalização. Exemplo disso é a ascensão da Alemanha nazista após a Primeira Guerra.
Cesarino defende que características das novas mídias como a hiperaceleração e a polarização algorítmica desorganizam as delimitações de contexto que estruturavam o mundo analógico e transformam os modos de vida e as relações no mundo digital.
A diferença é que, ao contrário do mundo analógico, a crise deixa de ser um momento excepcional e passa a se prolongar, renovando-se repetidamente. A instabilidade constante faz com que o ambiente digital assuma características de ecologia de crise.
“Nossa mente lê esse ambiente como instável, de apreensão, alarme. Você está sempre naquela disposição alarmista, preemptiva”, diz. “Isso torna os sujeitos mais suscetíveis a serem capturados pela espiral da radicalização.”
Nossa mente lê esse ambiente como instável, de apreensão, alarme. Você está sempre naquela disposição alarmista, preemptiva
Usando a metáfora da espiral, Cesarino explica que os algoritmos das redes não filtram de forma adequada conteúdos violentos e dessensibilizantes, permitindo um primeiro contato do indivíduo com movimentos extremistas.
A arquitetura de algumas plataformas —que permite a criação de grupos ou “panelas”, como o Discord—, permite a exposição contínua e segmentada deste tipo de conteúdo, o que leva os usuários a adentrarem na espiral. Atos de violência no mundo físico, como os massacres em escolas ou casos de automutilação, são identificados como a ponta do funil da radicalização.
Além das características estruturais das plataformas, há fatores de risco que favorecem a radicalização, como gênero, idade e estado civil. A maior parte dos integrantes de movimentos extremistas, tanto no caso da misoginia online, quanto de grupos neonazistas, jihadistas e outras manifestações, é formada por homens, jovens e solteiros.
A antropóloga aponta a adolescência como um período mais suscetível à radicalização. “É um período de crise de vida, no qual o sujeito vai ter uma transformação de identidade muito rápida, de criança para adulto. É o momento em que ele fica vulnerável a ser capturado por esse tipo de discurso.”
Nas redes sociais, termos como “alfa”, “betinha” e “sigma”, que fazem parte do vocabulário da machosfera e de movimentos misóginos online, têm se popularizado entre adolescentes no Brasil. Casos de massacres em escolas no país também são exemplos de radicalização na adolescência.
Apesar disso, a pesquisadora chama atenção para o aumento da participação de homens mais velhos em grupos misóginos extremistas. Ela lembra do caso do tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, acusado de feminicídio contra a soldado Gisele Alves Santana, que se definia como “macho alfa provedor” em mensagens enviadas à sua esposa.
A expressão pertence à gramática da machosfera e é adotada por grupos masculinistas online. Cesarino afirma que esses movimentos oferecem explicações simplificadas para os sentimentos de medo, insegurança, frustração e ressentimento masculino, o que torna o gênero uma camada adicional de risco à radicalização.
“Funciona também como uma crise prolongada porque tem a ver com expectativas excessivas numa sociedade patriarcal de como o homem tem que performar, como tem que ser esse ‘macho alfa’”, diz. “Então, muitos meninos que não se sentem aptos ou capazes acabam sendo atraídos por esse discurso fácil que surge em reação a avanços feministas”.
Os red pills partem da ideia de que as transformações nas relações de gênero e o feminismo teriam criado uma sociedade favorável às mulheres, em detrimento dos homens.
Nesse universo, as mulheres então buscariam sempre parceiros mais ricos, atraentes ou bem posicionados, enquanto os homens seriam distribuídos entre “alfas”, “betas” e outras categorias.
A resposta seria “tomar a pílula vermelha”, em alusão ao filme “Matrix”, de 1999, para reagir contra esse sistema supostamente em benefício das mulheres. Red pills pregam a valorização de atributos ligados à masculinidade hegemônica, como o culto excessivo ao corpo e a internalização de sentimentos, e reproduzem discursos misóginos que objetificam e desqualificam as mulheres.
Entre os incels, essa lógica assume contornos ainda mais fatalistas. Homens que se consideram pouco atraentes ou incapazes de competir por relacionamentos passam a acreditar que estão condenados ao celibato e à rejeição.
Cesarino explica que o masculinismo tem como base da argumentação a ameaça da perda de direitos, criando uma disposição reativa.
“O sujeito não encontra um lugar para descansar, porque [na percepção dele] aquele inimigo está sempre ali, a sociedade está contra ele, o sistema Judiciário está contra ele, a mídia está contra ele, todo mundo está favorecendo as mulheres e o feminismo.”
Isso, porém, se diferencia da lógica do machismo histórico, praticado no mundo físico. “O machismo mais tradicional é a ideologia de uma sociedade patriarcal, que prevê a manutenção de privilégios, onde o homem já é culturalmente colocado no lugar de poder e controle sobre a mulher. Não tem nada ameaçado”, afirma.
A pesquisadora identifica uma massificação da misoginia e do extremismo no ambiente digital, facilitada pela estrutura das plataformas. Se antes os discursos masculinistas eram restritos a comunidades e fóruns da subcultura da internet, hoje esse tipo de conteúdo é reproduzido abertamente nas redes sociais mais usadas.
“No mundo pré-digital, os neonazistas tinham trabalho em recrutar pessoas. Não tinha algoritmo entregando esse tipo de conteúdo para os jovens, eles tinham que ir lá na porta da escola, tinham que ir de forma disfarçada, era um processo demorado”, diz.
“Agora, o cenário quase se inverteu, não surpreende quando um adolescente entra num funil de radicalização misógina.”
Autor: Folha








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