
A líder opositora venezuelana María Corina Machado já tentou retornar sete vezes à Venezuela desde que deixou o país, mas nenhum dos planos elaborados conseguiu levá-la de volta ao território venezuelano. As três tentativas mais recentes ocorreram nas últimas horas e envolveram uma viagem de barco a partir do Panamá e voos planejados para Aruba e Curaçao.
Tal informação foi revelada pelo jornal espanhol ABC, que afirma ter acompanhado os preparativos das três tentativas de retorno mais recentes no Panamá e reconstruiu as operações anteriores. A informação sobre as três novas tentativas de retorno também foi confirmada pela emissora colombiana NTN24 e por veículos panamenhos e venezuelanos. María Corina está fora da Venezuela desde dezembro de 2025, quando conseguiu deixar o país, onde vivia sob mira do regime, para viajar à Europa depois de receber o Prêmio Nobel da Paz. Desde então, ela vem afirmando repetidamente que pretende regressar ao seu país natal para participar diretamente do processo de transição política encabeçada pelos EUA.
Na semana passada, a opositora voltou a dizer que sua presença dentro do país seria importante para organizar seus apoiadores e pressionar pela realização de novas eleições. “Não posso liderar o processo do exterior”, afirmou em entrevista concedida no Panamá e divulgada posteriormente pelo Vente Venezuela, seu partido político.
Três tentativas em menos de 24 horas
O plano mais recente de retorno começou com a preparação de uma viagem marítima entre Panamá e Venezuela. Segundo apuração do jornal ABC, uma pequena embarcação com María Corina deveria partir do Panamá na noite desta segunda-feira (21) e navegar por aproximadamente dois dias pelo Caribe até a Venezuela.
A saída acabou cancelada poucas horas antes do embarque. A empresa responsável pela embarcação informou que havia ocorrido uma falha importante em um dos motores.
Com a rota marítima descartada, a equipe de María Corina passou a buscar alternativas aéreas. Um avião foi então preparado para levá-la a Aruba, de onde ela pretendia continuar a viagem em direção à Venezuela, mas problemas administrativos impediram a operação.
Outra tentativa foi organizada posteriormente com destino a Curaçao. Aruba e Curaçao, territórios do Reino dos Países Baixos no Caribe, ficam próximas da costa venezuelana. As autoridades responsáveis pelas ilhas acabaram não autorizando as operações previstas, e Bonaire também chegou a ser considerada como alternativa antes de ser descartada.
A NTN24 também informou nesta terça-feira (22) que María Corina havia feito as três novas tentativas de chegar à Venezuela e que permanecia no Panamá. Ana Corina Sosa, filha da líder opositora, afirmou à emissora que a mãe trabalha diariamente para conseguir retornar, mas reconheceu que existem diferentes obstáculos envolvidos no processo.
Tentativas de retorno começaram após terremotos na Venezuela
Em 29 de junho, María Corina afirmou que o chavismo havia fechado o espaço aéreo comercial venezuelano para tentar impedir sua entrada no país. Naquele momento, ela também estava no Panamá e dizia que sua volta havia se tornado “inadiável” diante dos terremotos que haviam atingido a Venezuela.
A líder opositora tentou retornar ao país partir dos Estados Unidos. Segundo o jornal ABC, para isso, ela embarcou em um avião privado que deixou Manassas, na Virgínia, em 26 de junho com destino a Curaçao, mas a aeronave precisou retornar durante o trajeto. A explicação dada aos passageiros foi de que a empresa responsável pelo piloto havia recebido dos Estados Unidos uma orientação para que o voo voltasse ao aeroporto de origem. O órgão que teria emitido a determinação não foi identificado. Dois dias depois, a opositora tentou embarcar em um voo comercial da Copa Airlines entre Panamá e Caracas, mas também não conseguiu seguir viagem. De acordo com a versão apresentada por sua equipe ao ABC, a companhia aérea teria sido alertada pelas autoridades venezuelanas de que transportar María Corina poderia colocar em risco as autorizações da empresa para operar no país.
O ABC afirma ter identificado ainda uma terceira tentativa que previa uma rota terrestre e uma quarta operação que combinava diferentes trajetos para aproximá-la da Venezuela. Os detalhes dessas duas alternativas não foram divulgados porque integrantes da equipe consideram que algumas das rotas ainda poderiam ser utilizadas futuramente.
Governo Trump manifestou resistência ao retorno María Corina à Venezuela
A tentativa de María Corina de voltar à Venezuela provocou divergências em Washington. Em julho, integrantes do governo Trump haviam demonstrado irritação com a tentativa de retorno da opositora ao país durante a emergência provocada pelos terremotos. Segundo informações divulgadas na época pelo portal Axios, autoridades americanas temiam que a movimentação “aumentasse a tensão política” enquanto Washington coordenava a resposta humanitária com o regime liderado interinamente por Delcy Rodríguez.
Trump, porém, negou publicamente ter ordenado que María Corina ficasse fora da Venezuela. Em 8 de julho, questionado por jornalistas, o presidente afirmou que não havia pedido à opositora que desistisse de retornar ao seu país natal. Uma semana depois, o Departamento de Estado declarou em uma audiência no Congresso que os Estados Unidos não estavam impedindo o retorno da opositora à Venezuela.
Mais recentemente, a agência Reuters informou que funcionários americanos haviam pedido de forma reservada que María Corina adiasse seu retorno à Venezuela após os terremotos ocorridos no país.
Panamá teve que conceder documento especial para permitir viagens de María Corina
Segundo informação do jornal ABC, o governo do Panamá teve que conceder à líder opositora um passaporte diplomático especial do país por razões humanitárias para facilitar seus deslocamentos internacionais. A medida foi adotada porque o passaporte venezuelano de María Corina está vencido e o regime de Caracas não emitiu um novo documento, o que vinha criando obstáculos para que ela viajasse por terceiros países.
Transição venezuelana é conduzida por Delcy Rodríguez com apoio dos EUA
Desde a captura de Nicolás Maduro por forças americanas, em janeiro, a Venezuela é governada interinamente por Delcy Rodríguez, que permaneceu à frente de parte da estrutura estatal herdada do chavismo e passou a conduzir, com apoio de Washington, a atual fase de transição. Nos últimos meses, seu governo ampliou a cooperação com os Estados Unidos em áreas como petróleo, segurança, reconstrução econômica e reorganização dos ativos venezuelanos no exterior. O governo Trump tem defendido que a recuperação econômica e institucional preceda a realização de uma nova eleição presidencial. Washington já afirmou que pretende deixar para um futuro governo democraticamente eleito um país “economicamente estabilizado”, mas integrantes do governo americano avaliam que ainda não existem condições para convocar imediatamente uma nova votação.
María Corina tem pressionado para que a transição avance mais rapidamente para eleições e critica o protagonismo mantido por integrantes do chavismo nas negociações dos EUA. A líder opositora e a Plataforma Unitária Democrática (PUD), que reúne a oposição, não participa atualmente das principais negociações conduzidas entre Washington e o regime de Delcy Rodríguez. Autoridades americanas demonstraram receio de que um retorno da opositora neste momento possa interferir no processo em andamento.
A oposição venezuelana tem questionado os acordos econômicos fechados pelo regime interino com os Estados Unidos. María Corina afirmou recentemente que compromissos de longo prazo envolvendo o petróleo venezuelano deveriam ser firmados por um governo eleito democraticamente no país.
Autor: Gazeta do Povo








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