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Análise de Risco nas Condições Financeiras no Brasil

​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​Introduç​ão

A evolução das condições financeiras é um elemento central para a dinâmica macroeconômica, afetando canais como crédito, investimento e consumo. Nesse contexto, é fundamental para a avaliação do ambiente macroeconômico mensurar não apenas a trajetória esperada das condições financeiras, mas também os riscos associados a essa trajetória, especialmente em economias emergentes. Para tanto, utiliza-se como medida de condições financeiras o Indicador de Condições Financeiras (ICF) construído e monitorado pelo Banco Central do Brasil.1

Duas modelagens distintas e complementares são adotadas aqui para uma avaliação mais abrangente de risco nas condições financeiras. A primeira tem como objetivo gerar previsões pontuais para o ICF sob diferentes cenários econômicos. Para tanto, utiliza-se o algoritmo EM (Expectation Maximization) com estimação recursiva de um modelo tipo VAR(1), que permite lidar com previsões num contexto multivariado e na presença de dados ausentes. A segunda modelagem tem como finalidade gerar previsões de densidade do ICF, utilizando regressão quantílica combinada com
quantile matching, seguindo a abordagem
growth-at-risk de Adrian et al. (2019).

Previsões pontuais do ICF

Para a construção de previsões pontuais do ICF são utilizadas seis variáveis macrofinanceiras (ICF, Selic, câmbio R$/US$, preço do petróleo, Fed Funds e o índice de moedas DXY), com amostras diárias desde janeiro/2006 até agosto/2026, usando dados disponíveis até 31/08/2026. As séries temporais são transformadas individualmente, para garantir estacionariedade, e padronizadas (z-score).

Em seguida, considera-se o modelo multivariado: Y = Xβ + ε, onde Y é uma matriz com 6 séries observadas ao longo do tempo t=1,…,n; X é a matriz de regressores (aqui formada pelo intercepto e por Y defasado em um período); β é a matriz de coeficientes; e vec(ε) ∼
N (0, Σ ⊗ In). Os parâmetros do modelo (β e Σ) são estimados com o algoritmo EM implementado no pacote
norm2 do R (Schafer, 2016), que permite lidar com dados Gaussianos incompletos. Sem dados ausentes, as estimativas de máxima verossimilhança são obtidas diretamente a partir das estatísticas suficientes T1 = X′Y e T2 = Y′Y, da forma usual:

β^ = (X′X)⁻¹X′Y = (X′X)⁻¹ T1(1)

Σ^ = n⁻¹(Y − Xβ^)′(Y − Xβ^) = n⁻¹(T2 − T1′(X′X)⁻¹ T1)
(2)

No entanto, assumindo que Y possui dados ausentes ao acaso (missing at random), particiona-se Y em partes observada (yi!) e ausente (yi?), sendo β e Σ divididas em blocos correspondentes (βi!, βi?, Σi!!, Σi!?, Σi?!, Σi??). A ideia é maximizar a função de log-verossimilhança com uma extensão do algoritmo EM, conforme Schafer (1997) e Little e Rubin (2002).2 No passo E do algoritmo EM, calculam-se as esperanças condicionais de T1 e T2, em relação à distribuição condicional de Y? dado Y!, igualando-se β e Σ aos seus estimadores correntes.3 As expressões centrais nesta etapa são:

E (yi? | yi!) = xi′βi? + Σi?!Σi!!−1(yi! − xi′βi!)
(3)

Var (yi? | yi!) = Σi?? − Σi?!Σi!!−1Σi!?
(4)

No passo M, essas esperanças são utilizadas para atualizar as estimativas de β^ e Σ^. O operador
sweep (Goodnight, 1979) acelera os cálculos matriciais, e os casos são agrupados por padrão de ausência para maior eficiência do algoritmo. A cada iteração, a log-verossimilhança aumenta até a convergência para um máximo local (ou ponto de sela) ou até que Σ deixe de ser positiva definida. Se Y já estiver completo (sem dados ausentes), o método converge em uma única iteração.

Apesar de parcimoniosa, tal abordagem permite investigar como choques domésticos e externos impactam o ICF por meio de diferentes canais macrofinanceiros. Além disso, essa metodologia permite prever o ICF sob distintos cenários macroeconômicos, preservando a estrutura de correlações históricas entre as variáveis.4 Nesse sentido, as séries são divididas em exógenas (com trajetórias fora-da-amostra pré-determinadas por hipótese num dado cenário) ou endógenas (com trajetórias previstas pelo modelo, ou seja, com dados ausentes imputados pelo algoritmo EM), conforme os cenários abaixo:

Tabela 1 – Cenários para previsões no período: set/26 até dez/27

Selic Câmbio Fed Funds Petróleo
Cenário 1 – baseline Focus, mediana Focus, mediana FOMC projections Futuros (ICE Brent)
Cenário 2 – câmbio endógeno Focus, mediana Endógeno FOMC projections Futuros (ICE Brent)
Cenário 3 – estresse doméstico leve Focus, mediana+2σ Focus, mediana+2σ FOMC projections Futuros (ICE Brent)
Cenário 4 – estresse doméstico moderado Focus, mediana+3σ Focus, mediana+3σ FOMC projections Futuros (ICE Brent)
Cenário 5 – estresse doméstico + externo Focus, mediana+3σ Focus, mediana+3σ FOMC upper range US$100/barril


Notas: A taxa Selic (% a.a.) segue a mediana das expectativas Focus (28/08/2026) nos cenários 1 e 2; mediana + 2 desvios-padrão no cenário 3; e mediana + 3 desvios-padrão nos cenários 4 e 5. A taxa de câmbio (R$/US$) segue a mediana das expectativas Focus (28/08/2026) no cenário 1; mediana + 2 desvios-padrão no cenário 3; e mediana + 3 desvios-padrão nos cenários 4 e 5; sendo endógena no cenário 2. A taxa de juros norte-americana Fed Funds é de 3,80% a.a. em dez/26 e 3,60% a.a. em dez/27 nos cenários 1 a 4 (FOMC economic projections, 17/06/2026); e de 4,40% a.a. em todo horizonte de projeção no cenário 5. O preço do petróleo (US$/barril) segue os contratos futuros ICE Brent de 31/08/2026 (14h47) nos cenários 1 a 4; e US$100/barril no cenário 5. As variáveis DXY e ICF são endógenas em todo o horizonte de projeção e em todos os cenários.

A Tabela 2 mostra as trajetórias de variáveis selecionadas, determinadas pelos cenários considerados na Tabela 1 ou imputadas pelo algoritmo EM.

Tabela 2 – Trajetórias de variáveis selecionadas condicionadas a cenários

Selic Câmbio Petróleo ICF
jun/26 14,30 5,13 84,49 0,77
ago/26 13,94 5,15 88,00 0,67

Cenário 1: baseline

dez/26 13,65 5,20 88,23 0,51
jun/27 12,90 5,23 79,53 0,11
dez/27 11,90 5,30 76,34 -0,23

Cenário 2: câmbio endógeno

dez/26 13,65 5,15 88,23 0,44
jun/27 12,90 5,40 79,53 0,35
dez/27 11,90 5,57 76,34 0,12

Cenário 3: estresse doméstico leve

dez/26 14,25 5,45 88,23 0,94
jun/27 14,34 5,52 79,53 0,78
dez/27 13,55 5,67 76,34 0,60

Cenário 4: estresse doméstico moderado

dez/26 14,50 5,57 88,23 1,15
jun/27 15,01 5,67 79,53 1,10
dez/27 14,33 5,85 76,34 1,00

Cenário 5: estresse doméstico + externo

dez/26 14,50 5,57 100,00 1,33
jun/27 15,01 5,67 100,00 1,44
dez/27 14,33 5,85 100,00 1,40

Os resultados da Tabela 2 mostram que, no Cenário 1 (baseline), em que Selic, câmbio, petróleo e Fed Funds seguem as trajetórias esperadas pelo mercado, o ICF projetado recua ao longo do horizonte de projeção, de 0,51 em dez/26 para -0,23 em dez/27, indicando uma normalização gradual das condições financeiras frente ao nível observado em ago/26 (0,67).

No Cenário 2, o câmbio endógeno aprecia-se levemente frente à mediana Focus em dez/26 e o ICF fica abaixo do
baseline. Nos períodos seguintes, porém, o câmbio endógeno passa a depreciar-se mais do que no cenário central, fazendo o ICF superar o do cenário
baseline em jun/27 e dez/27.

Já os cenários de estresse doméstico (Cenários 3 e 4), nos quais Selic e câmbio se distanciam progressivamente das trajetórias centrais de mercado, mostram uma amplificação clara e persistente do ICF, que atinge 0,94 (Cenário 3) e 1,15 (Cenário 4) em dez/26 (ante 0,51 no
baseline), e permanece igual ou acima de 0,60 em todo o horizonte projetado.

O Cenário 5 combina o estresse doméstico do Cenário 4 com um choque persistente no preço do petróleo (fixado em US$100/barril5). Conforme esperado, o resultado é o maior nível de ICF entre todos os cenários: 1,33 em dez/26 (1,44 em jun/27 e 1,40 em dez/27), evidenciando o papel do canal externo nas condições financeiras domésticas. Como o hiato entre o preço do petróleo no Cenário 5 e a curva futura de mercado se amplia ao longo do tempo, a diferença do ICF em relação ao Cenário 4 também cresce com o tempo.

Previsões de densidade do ICF

O objetivo aqui é construir uma medida probabilística de risco para a própria trajetória futura das condições financeiras. Dado o estado atual das condições financeiras, qual é a distribuição provável do ICF
h meses à frente? Para gerar previsões de densidade do ICF, aplica-se a metodologia de regressão quantílica e
quantile matching, utilizada na abordagem de
growth-at-risk proposta em Adrian et al. (2019).

A variável dependente é o ICF,
h meses à frente, enquanto que o vetor de covariadas inclui, além do intercepto, as seguintes variáveis: ICF,
spread de juros (Selic – Fed Funds), preço do petróleo e taxa de câmbio. Com exceção do ICF, as demais séries são transformadas usando ln(xt) – ln(xt-h).

Tais séries caracterizam uma especificação autorregressiva parcimoniosa, que captura tanto a persistência quanto a dinâmica de curto prazo das condições financeiras ao longo dos quantis da distribuição. Especificações dessa natureza autorregressiva não são incomuns na literatura de regressão quantílica como, por exemplo, no modelo CaViaR de Engle e Manganelli (2004).

A amostra tem frequência mensal e abrange o período desde janeiro/2007 até agosto/2026. Considera-se um horizonte de previsão
h = 4 meses. Os resultados da estimação do modelo são apresentados na Tabela 3 e no Gráfico 1.

Tabela 3 – Estimação de Regressão Quantílica para o ICF com
h=4 meses

Variável quantil
0,05 0,25 0,50 0,75 0,95
intercepto -1,05
(***)
[0,07]
-0,55
(***)
[0,09]
-0,14
(*)
[0,08]
0,48
(***)
[0,08]
1,22
(***)
[0,07]
ICF 0,41
(***)
[0,08]
0,57
(***)
[0,08]
0,55
(***)
[0,10]
0,46
(***)
[0,09]
0,74
(***)
[0,2]
spread de juros 1,61
(***)
[0,38]
1,51
(***)
[0,19]
1,44
(***)
[0,46]
1,63
(***)
[0,40]
1,69
(***)
[0,78]
petróleo 0,04
[0,58]
1,09
(***)
[0,33]
0,78
[0,80]
1,34
(*)
[0,79]
0,78
[0,79]
câmbio -3,76
(***)
[1,35]
-1,55
(***)
[0,55]
-1,25
[1,00]
0,21
[2,01]
2,02
[1,38]
observações 232 232 232 232 232

Obs.: Coeficientes significativos a 1,5 ou 10% são identificados por (***), (**) ou (*). Entre colchetes, erros-padrão calculados via
bootstrap generalizado de Bose e Chatterjee (2003) com 1000 replicações. 

​​​​

A Tabela 3 apresenta as estimações de regressões quantílicas ao longo de uma grade de quantis. Os resultados indicam que a associação entre as variáveis explicativas e o ICF futuro varia ao longo da distribuição condicional. Em particular, a maior magnitude do coeficiente associado ao ICF corrente nos quantis superiores, especialmente no quantil 0,95, sugere maior persistência das condições financeiras restritivas na parte superior da distribuição. Esse resultado indica que níveis mais elevados do ICF no período corrente estão associados a valores futuros relativamente mais altos, especialmente entre os resultados situados na cauda direita da distribuição.

Conjuntamente, os resultados sugerem heterogeneidade na relação entre as condições financeiras correntes e a distribuição futura do ICF, com diferenças relevantes entre os quantis estimados. A maior sensibilidade observada em determinados pontos da distribuição indica que a dinâmica do ICF não é adequadamente caracterizada apenas por uma relação condicional na média, reforçando a utilidade da regressão quantílica para avaliar diferentes dimensões do risco associado às condições financeiras.

Gráfico 1 – Evolução da distribuição condicional do ICF

grafico 1

O Gráfico 1 apresenta a evolução temporal, dentro da amostra, dos percentis condicionais selecionados em comparação com o ICF realizado. Observa-se que a mediana acompanha de forma próxima a evolução do indicador, enquanto as distâncias entre os percentis variam ao longo do tempo, refletindo mudanças na dispersão da distribuição condicional. Em períodos de condições financeiras mais restritivas, os percentis superiores tendem a permanecer elevados, consistente com a maior persistência observada nos quantis superiores da Tabela 3. Esses resultados ilustram a utilidade da abordagem quantílica para caracterizar a distribuição condicional do ICF, além de sua trajetória central.

Por outro lado, em períodos de condições mais frouxas (valores mais baixos do ICF), em geral, a distribuição tende a se concentrar, com menor distância entre os percentis. Desta forma, os resultados evidenciam a presença de assimetrias e não linearidades na dinâmica do ICF, com caudas mais pronunciadas após momentos de deterioração, o que reforça a relevância de métricas de risco baseadas em quantis para a análise das condições financeiras.

Com base nas estimativas da Tabela 3, procede-se à etapa de
quantile matching, que permite construir as densidades condicionais. A densidade prevista para dez/2026 (condicionada nos dados de agosto/2026, ou seja, com
h = 4 meses) é estimada com a amostra completa. Para complementar a análise, considera-se também a versão incondicional do modelo de regressão quantílica, utilizando-se apenas um intercepto no conjunto de covariadas. No Gráfico 2, comparam-se as densidades incondicional e condicional, geradas pela abordagem de regressão quantílica. As barras verticais mostram as previsões pontuais do ICF para dez/26, apresentadas na seção anterior e construídas com o algoritmo EM.

Gráfico 2 – Densidades e previsões pontuais do ICF

grafico 2

A Tabela 4 apresenta mais detalhes das densidades e previsões ilustradas no Gráfico 2. No que se refere à parte central da distribuição, cabe lembrar que o ICF é (por construção) uma série com média zero e variância unitária, o que pode ser aferido com a densidade incondicional. Observa-se também que a densidade condicional apresenta menor dispersão e deslocamento à direita em relação à incondicional, refletindo as condições financeiras mais recentes.6

Tabela 4 – Estatísticas das densidades do ICF

Percentil
P05
Percentil
P25
Percentil
P50
Percentil
P75
Percentil
P95
Desvio
Padrão
Densidade Condicional (dez/26) -0,38 0,45 0,96 1,42 2,07 0,75
Densidade Incondicional -1,59 -0,65 -0,05 0,57 1,63 1,00

Na Tabela 5, confrontam-se as previsões pontuais do algoritmo EM para dez/2026 e dez/27, apresentadas na Tabela 2, com as densidades condicional e incondicional (mais adequada para analisar o horizonte de projeção até dez/27). Os resultados indicam probabilidades distintas de o ICF superar os valores previstos em cada cenário: nos cenários 1 e 2 essa probabilidade é de 73% e 75%, respectivamente, refletindo alta probabilidade do ICF superar as previsões desses cenários em dez/26. Quando se consideram os cenários de estresse 3 e 4, tal probabilidade recua para 51% e 39%, respectivamente, enquanto que a probabilidade de o ICF superar o valor pontual associado ao cenário 5 é de 30%, indicando menor probabilidade de realização do cenário mais severo, de acordo com a densidade condicional do ICF estimada para dez/26.7

Tabela 5 – Probabilidades de ocorrência do ICF sob cenários distintos

Prob. (ICF > y) em dez/26
sob densidade condicional
Prob. (ICF > y) em dez/27
sob densidade incondicional
Cenário 1 – baseline 73% 58%
Cenário 2 – câmbio endógeno 75% 42%
Cenário 3 – estresse doméstico leve 51% 24%
Cenário 4 – estresse doméstico moderado 39% 13%
Cenário 5 – estresse doméstico + externo 30% 7%

Considerações Finais

Os resultados indicam que as condições financeiras no Brasil podem apresentar deterioração relevante diante de cenários adversos, tanto em resposta a choques externos quanto a hipóteses mais desfavoráveis para as variáveis macrofinanceiras domésticas. Em particular, choques persistentes nos preços do petróleo, em contextos de elevada incerteza geopolítica, estão associados a condições financeiras mais restritivas. No cenário
baseline, o ICF tende a diminuir ao longo do horizonte de projeção, enquanto nos cenários de maior estresse permanece em níveis mais elevados, refletindo as diferentes combinações de trajetórias macroeconômicas consideradas.

Complementarmente, a análise por regressão quantílica mostra que a relação entre as condições financeiras correntes e o ICF futuro varia ao longo da distribuição condicional. As densidades condicionais permitem, assim, caracterizar de forma mais abrangente os riscos associados à trajetória futura do ICF, incorporando não apenas uma previsão central, mas também diferentes resultados possíveis e suas respectivas probabilidades.

A combinação das duas abordagens (previsões pontuais e de densidade) fornece um arcabouço consistente para o monitoramento de riscos macrofinanceiros. Ainda assim, os resultados devem ser interpretados com cautela, dado o caráter puramente estatístico e não estrutural dos modelos, sendo recomendável seu uso complementar a outras ferramentas de análise prospectiva.

Notas

1 Tal indicador baseia-se em 26 séries temporais, organizadas em 7 grupos, a saber: Juros Brasil, Juros Exterior, Risco, Moedas, Petróleo,
Commodities e Mercado de Capitais. Para maiores detalhes sobre a construção do ICF vide BC (2020).

2 Nesse modelo, X é formada pela defasagem de Y, devendo estar sempre observada para que o algoritmo EM seja aplicável; como Y contém dados ausentes conforme cada cenário, sua defasagem herdaria as mesmas lacunas. Para contornar esse problema, a estimação é feita de forma recursiva no tempo: a cada passo t, utiliza-se a série já reconstruída até t−1 (dados originais mais valores previamente imputados pelo algoritmo) como linha de X; quando Yt apresenta valores ausentes, o algoritmo EM é reajustado com a amostra disponível até aquele ponto e produz a previsão um passo à frente (h=1) que preenche as lacunas de Yt. Esse valor imputado passa então a ser tratado como observado e compõe o regressor do passo seguinte (h=2), e assim sucessivamente até que toda a série esteja balanceada.

3 Note que o segundo termo da equação (3), via Σ, permite ao algoritmo EM incorporar na previsão das séries endógenas (ex: ICF) o valor assumido para as exógenas no mesmo período num dado cenário, complementando o efeito puramente dinâmico veiculado por β.

4 Essa modelagem reúne o balanceamento da base histórica e a geração de cenários condicionais, preservando a estrutura de correlações observada no passado, com poucos parâmetros e sem exigir a especificação de equações estruturais canal a canal. Uma contrapartida dessa parcimônia é que Σ é assumida constante no tempo, não captando eventuais mudanças nas correlações em períodos de estresse. Cabe notar também que parte das variáveis condicionantes também compõe, direta ou indiretamente, o próprio ICF. Assim, o ICF em cada cenário decorre não apenas da transmissão estimada pelo modelo (via β e Σ), mas também, em certa medida, da relação mecânica entre essas variáveis e os componentes do próprio índice. Os resultados devem ser interpretados com essa ressalva adicional em mente.

5 Desenvolvimentos nos mercados globais de energia ao longo de 2026 ilustram a plausibilidade desse cenário. A escalada das tensões envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos tem afetado rotas de transporte no Estreito de Ormuz, por onde transitam cerca de 20% do petróleo comercializado globalmente. Analistas do setor energético indicam que interrupções na oferta podem retirar temporariamente milhões de barris por dia do mercado global, com os preços do petróleo superando US$100/barril em momentos de maior tensão (Reuters, 2026).

6 A informação disponível em agosto de 2026 desloca a distribuição esperada do ICF para níveis mais elevados e, simultaneamente, reduz sua dispersão em relação à distribuição incondicional.

7 Em conjunto, esses resultados evidenciam que a posição relativa das projeções ao longo da distribuição condicional varia de forma relevante entre cenários, refletindo diferentes graus de risco associados à trajetória futura das condições financeiras.

Referências

ADRIAN, T., BOYARCHENKO, N., GIANNONE, D. (2019). “Vulnerable Growth”.
The American Economic Review 109 (4), 1263-1289.

BANCO CENTRAL DO BRASIL (2020). “Indicador de Condições Financeiras”, Boxe do Relatório de Inflação, março de 2020.
https://www.bcb.gov.br/content/ri/relatorioinflacao/202003/ri202003b8p.pdf

BOSE, A., CHATTERJEE, S. (2003). “Generalized bootstrap for estimators of minimizers of convex functions”.
Journal of Statistical Planning and Inference 117, 225-239.

ENGLE, R.F., MANGANELLI, S. (2004). “CaViaR: Conditional Autoregressive Value at Risk by Regression Quantiles”.
Journal of Business & Economic Statistics 22(4), 367-381.

GOODNIGHT, J.H. (1979). “A tutorial on the SWEEP operator”.
The American Statistician 33, 149-158.

LITTLE, R.J.A., RUBIN, D.B. (2002).
Statistical Analysis with Missing Data (2a edição). Wiley.

REUTERS (2026). Financial Market Reports on Oil Price Forecasts and Hormuz Disruptions. March 16, 2026.
https://www.reuters.com/business/energy/bofa-standard-chartered-raise-brent-price-forecast-strait-hormuz-impasse-2026-03-16/

SCHAFER, J.L. (1997).
Analysis of Incomplete Multivariate Data. Chapman & Hall / CRC Press.

SCHAFER, J.L. (2016).
User’s Guide for norm2, May 5, 2016. Office of the Associate Director for Research and Methodology, U.S. Census Bureau.



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